As filhas do falecido Coronel e outras histórias (Katherine Mansfield)

em 28 de julho de 2012

Informações

  • Autor: Katherine Mansfield
  • Tradutor: Maura Sardinha e Luiza Lobo
  • Editora: Ediouro
  • Páginas: 125
  • Ano de Lançamento: 1997
  • Preço Sugerido: -

Katherine Mansfield ficou conhecida, entre outros motivos, pela forma abrupta com que eventos insólitos ou chocantes tomavam conta da pacatez inicial de suas tramas. De um momento a outro, num parágrafo aparentemente displicente, aparece um evento que, se não subverte completamente a leitura, a chacoalha o suficiente para deixar o leitor tão curioso quanto incerto com relação ao porvir.

A edição de bolso de As filhas do falecido Coronel e outras histórias, publicada pela Ediouro, apresenta algumas histórias que comportam esse elemento de surpresa ao longo de sua constituição. A coletânea reúne quatro contos da autora neozelandesa e apresenta alguns de seus temas mais comuns, como o elemento surpresa, a presença sombria assomando luminosos cenários elegantes, os (emblemáticos) expedientes das classes altas inglesas e a superficialidade presente em boa parte deles.

O conto que abre a coletânea é “Felicidade”. Nele, Bertha Young, uma demasiadamente empolgada e ingênua senhora da classe média-alta, convida alguns amigos para uma pequena festa em sua casa. Ela e o marido Harry recebem os Norman Knights, Eddie Warren, a srta. Fulton e outros num conjunto semi-ritualístico cheio de pompa e circunstância.

Mansfield é sutil, mas mostra como todo esse verniz aristocrático revela um vazio tão angustiante quanto patético. A figura de Bertha Young desempenha um papel simbólico que chega às raias do humor. Ela encanta-se por demais com cada pequeno detalhe, transpira uma felicidade tão altissonante que desperta suspeitas – e não raro irritação – dos demais convivas e do próprio leitor. A felicidade estampada no título é propagandeada com exagero demais para ser confiável.

O segundo conto é um dos mais famosos da autora, “A festa ao ar livre”. A Sra. Sheridan e suas filhas organizam uma festa no jardim de sua casa. Organizam no sentido de dar ordens aos empregados que ali estavam carregando, montando e fazendo todo o trabalho duro para o evento. Laura, uma das filhas da Sra. Sheridan, se encanta com a perícia dos trabalhadores em sua lida e se escandaliza com a insistência da mãe em realizar a festa mesmo tendo um carreteiro falecido bem em frente ao seu portão.

A falta de sensibilidade da Sra. Sheridan ajuda Laura a tomar uma posição que pende mais para os trabalhadores, compadecendo-se deles e das mazelas que acompanham sua existência cotidiana. A jornada de Laura para conhecer mais detalhes desses empregados é o ponto de choque clássico da autora, que mostra um lampejo de solidariedade apesar das marés na direção contrária.

O terceiro conto é o que dá título à coletânea, e é deveras um conto misterioso, assim como o quarto e último. Em “As filhas do falecido Coronel”, duas irmãs – Josephine e Constantia – lidam com os contratempos póstumos do pai. O mais curioso é que a tristeza é pouco mencionada em relação à quantidade de tempo e nervos que as duas irmãs dedicam a resolver as pendências de seu pai. Enviar correspondências para seus negócios no Ceilão, resolver as burocracias obituárias, tentar organizar financeiramente os serviços fúnebres, lidar com as visitas, conviver com a enfermeira de longa data do pai etc. Diante dessa enxurrada de afazeres, as duas parecem desviar seu pensamento da dor da perda, que parecia dever estar as assolando de maneira muito mais visível. Ou não. Tanto é que o desfecho se dá quando as duas se perguntam sobre o que iam fazer e acabam descobrindo que não são mais capazes de lembrar.

É difícil dizer o que Mansfield quis transparecer com esse conto. Talvez ela quisesse mostrar como as preocupações burocráticas e semi-ritualísticas concernentes aos sujeitos da classe do Coronel acabaram embotando as emoções das duas filhas, desnudando sua aridez afetiva. Pode ser também que ela tenha querido mostrar como ocupar-se, seja com o que for, ajuda a superar traumas tais como a morte de um pai. Talvez se tratasse também de um certo egoísmo da parte das filhas, que se voltam mais às resoluções post-mortem do que com prantear o seu progenitor. Não arrisco mais do que algumas hipóteses.

O último conto – “O estranho” – traz igualmente um final misterioso. Num navio, o Sr. Hammond aguarda sua esposa que estava de férias na Europa. Após um reencontro apressado pelo rústico Capitão Johnson, o casal convive e mata a saudade proveniente da provisória separação. O que parecia ser um idílio de amor, no entanto, vem acompanhado de um desenlace inexplicável, em que a Sra. Hammond diz, ao encontrar seu marido que a esperava agora em terra para um passeio, que demorou porque um homem estava morto no navio. Um homem com a qual ela se encontrava.

A forma repentina como essa informação vem à tona convida – instiga seria provavelmente a palavra mais adequada – o leitor a uma releitura, que se mostra a um tempo infrutífera e ainda mais instigante. As hipóteses são contraditas e originadas na cadência velada de Mansfield, que deixa o leitor na espera de informações reveladoras.

Em contos breves, ora mais interessantes ora menos, Katherine Mansfield, num misto de ousadia e conservadorismo, flertando com suas origens sociais na mesma medida em que a satiriza em sua estreiteza espiritual, constrói histórias que são instigantes mas nem sempre reveladoras. Por mais que não seja o tipo de leitura que eu aprecie mais intensamente, os contos da autora são bem construídos apesar de lacônicos, e parecem guardar mais nuances que suas refrações primárias apresentam.

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