Granta: Fragmento de um romance e Violeta

em 23 de agosto de 2012

Até o dia 24, teremos uma “conversa por escrito” comentando os contos da revista Granta, que reúne os 20 Melhores jovens escritores brasileiros, e cada conversa abordará dois contos por vez. Confira os posts anteriores:

Granta: Animais e Aquele vento na praça

Granta: Antes da queda e O que você está fazendo aqui

Granta: Tólia e Apneia

Granta: Valdir Peres, Juanito e Poloskei e O jantar

Granta: Noites de alface e Mãe

Granta: Temporada e F para Welles 

Granta: A febre do rato e Faíscas

Granta: Teresa e Você tem dado notícias?

 

FRAGMENTO DE UM ROMANCE

Carola Saavedra

Carola Saavedra nasceu no Chile, em 1973, mas aos três anos de idade se mudou para o Brasil. Morou na Espanha, na França e na Alemanha, onde concluiu um mestrado em comunicação. Vive atualmente no Rio de Janeiro. É autora do livro de contos Do lado de fora (7Letras, 2005) e dos romances Toda terça (2007), Flores azuis (2008 — eleito melhor romance pela Associação Paulista de Críticos de Arte) e Paisagem com dromedário (2010 —Prêmio Rachel de Queiroz na categoria jovem autor), publicados pela Companhia das Letras.

Anica: Ok, a primeira pergunta é meio lesada mas eu preciso fazer: “Fragmento de um romance” é o título de um conto, ou o conto é de fato um Fragmento de um romance? Eu fiquei com essa dúvida porque nos outros textos de introdução da revista há indicações quando é trecho de romance a ser publicado, o que não acontece aqui.

Mas sobre o texto em si: uma garota aceita o pedido da irmã mais velha e vai receber um escritor no lugar dela. A história se passa em primeira pessoa, num ritmo rápido e envolvente. E aí você vai lendo, gostando da Lena, esperando que algo aconteça entre ela e o escritor e…

… e que final é aquele?!!!!!!! O que você acha que os machucados no rosto dela significam?

Dindii: Então, acho que “Fragmento de um romance” é um conto, seguindo isso que você falou das indicações que aparecem na introdução de cada texto da revista. Pelo menos, vou pensar nele como um aqui.

O que eu entendi é que a autora escolheu esse título que cria propositalmente  essa confusão. Temos aí como resultado um conto que soa como o início de uma narrativa mais longa. Por isso ficamos com a sensação de falta. É como se todo o conto fosse só uma introdução. Esse conto é, de fato, um fragmento de romance. Penso até que pode ser um convite aos leitores pensarem que ponto de um romance esse conto se encaixaria.

E ai também aquele final, em que a Lena encontra um machucado na têmpora e Opa, acabou. Mas será que acabou mesmo?

A história, como você bem falou, tem um ritmo bem acelerado. Diálogos de todo os personagens aparecem misturados à linhas de narrativa, por exemplo. Acha que existe alguma razão para essa escolha?

Anica: Tem uma brincadeira com o fato de uma das personagens ser um escritor também, não? Romance aqui acaba talvez ganhando dois sentidos, o de gênero literário e o de sentimento entre pessoas, o que acha?Eu fiquei com um baita ponto de interrogação na testa naquele momento em que Lena se vê na frente do espelho. Pensei: AHHHH, NÃO, VOCÊ NÃO VAI ACABAR AQUI, NÃO! hahaha. Queria saber um pouco mais do que aconteceu ali, se bem que seguindo até essa sua ideia do fragmento de romance, talvez seja até intenção da Saavedra criar essa sensação no leitor. E minha cabeça cheia de criatividade mas bombardeada por filmes de horror norte-americanos já começou a pensar “Oh noes, ela morreu, ela é um fantasma” heheSobre os diálogos misturados na narrativa, eu lembro que inicialmente não tinha gostado. Parecia que estava querendo bancar o Saramago ou algo que o valha, até porque pensei ser desnecessário colocá-los daquela maneira. Mas se você reparar, muito do ritmo da história se dá justamente por essa opção da Saavedra em misturar tudo. A nossa marcação formal de diálogo (dois pontos, travessão; ou mesmo as aspas que estamos importando dos autores estrangeiros) dá uma quebra de ritmo mesmo, o que não acontece do jeito que ela fez. Então se inicialmente isso me incomodou, no final acabou virando um ponto positivo, na minha opinião.

Dindii: Lembro que bem no fim do conto a personagem fala “você está me confundindo” por conta da conversa em ritmo acelerado entre ela e o escritor. E era assim que eu me sentia também.

Sobre essa olhada na frente do espelho, juro que voltei algumas páginas pra ver se não tinha perdido nada. Fiquei “Oh meu deus, onde ela pode ter machucado essa têmpora?”. E depois fui imaginando em que ponto esse fragmento de romance se encaixaria em um livro.

Fragmento de um romance foi um texto que eu comecei a gostar mais alguns dias depois de ter lido. Talvez minha cabeça tenha arrumado ou se acostumado com a confusão proposital dele.

E, como você falou, o título também pode se referir a relação entre o escritor e Lena. No caso, o primeiro encontro deles.

Anica: Então provavelmente havia alguma intenção da autora ali. Até porque se pensarmos no machucado na têmpora, ela parece estar reconstituindo os fatos, quem sabe?Gostei do conto. No final das contas quase nada me incomodou, e é daquele tipo bacana que te dá o que pensar depois, você não fica só aceitando o texto passivamente.

Dindii: Sim, também gostei. Me deixou instigada e me perguntando várias coisas.

VIOLETA

Miguel Del Castillo

Filho de pai uruguaio e mãe carioca, Miguel Del Castillo nasceu no Rio de Janeiro, formou-se em arquitetura pela PUC-Rio e mudou-se para São Paulo em 2010, onde atualmente é editor da Cosac Naify. Foi editor da revista Noz, de arquitetura e cultura, e recebeu o prêmio Paulo Britto de Poesia e Prosa com o conto “Carta para Ana”, publicado na Antologia de prosa Plástico bolha (Oito e Meio, 2010). Tem 25 anos e trabalha, atualmente, em seu primeiro livro de contos, do qual “Violeta” faz parte.

Liv: Oi Gigio, tudo bom? E aí, o que você achou de Violeta?

No geral eu gostei bastante do conto. Principalmente pela questão biográfica e das presenças de Miguel Angel e Violeta. Por se tratar de vítimas da ditadura, esses dois personagens estão muito próximos da nossa realidade e o Del Castillo realmente me impactou com as cenas da Violeta na prisão.

Gigio: Também gostei bastante do conto. A Violeta que dá título à história, tia-avó do narrador, fica muito bem representada na minha opinião. Tudo bem que ela não apareça por inteiro, apenas em alguns flashes, mas acho que eles capturam perfeitamente essa imagem que é feita só de lembranças, algumas poucas do próprio narrador – as cócegas, o apelido, Miguelito – e outras tantas passadas pela família.

Liv: Concordo! Del Castillo foi bastante delicado nesse aspecto. Contou de forma singela uma história triste da família dele. A Violeta é uma personagem realmente encantadora e eu gostei da forma que ela foi “construída” através das lembranças, senti saudades dela por tabela. Da forma que pareceu, era como se eu estivesse lendo um diário de memórias ou coisa do tipo.

Gigio: Será mesmo uma história de fundo autobiográfico? Você sabe? Bem, mas isso também não muda muita coisa, como você disse, a maneira de contar é que faz toda a diferença. Se você for reparar, vários outros contos da Granta falam sobre parentes – pais, mães ou tias – e sobre a infância, porque obviamente são temas importantes para qualquer pessoa, mas dá para reparar que “Violeta” se diferencia bastante dos outros, tem uma forma bem própria.

Liv: Bom, na biografia fala que ele tem pai uruguaio e no primeiro parágrafo ele explica a sua própria origem falando do próprio nome e dos anos em que o pai viveu em Montevidéu. No segundo parágrafo, onde começa a história de Miguel Angel, ele fala “gosto de pensar que Miguel Angel não tinha medo”. Tudo isso confirma uma história verídica, né?

Gigio: Não sei, mas ao menos passa essa impressão, as lembranças parecem muito vívidas. Mas tudo bem, se ele continuar por aí, como a Granta promete, a gente ainda vai ter muito tempo de descobrir…

Voltando ao tempo da Violeta na prisão, é verdade, o impacto é imediato, e mais impressionante ainda, a partir de uma descrição muito sucinta. Basta um Miren que no está tan vieja para trazer à tona toda uma carga de humilhação. Gostei desse estilo do Del Castillo que se concentra em imagens-chave, como a da prisão, dos novelos de lã ou do avião da morte que despeja os prisioneiros. Mostra bem como uma imagem certa no lugar certo pode ser muito eficiente para a história.

Liv: Isso foi uma das coisas que eu mais gostei. Quando se lê “miren que no está tan vieja así” subentende-se abuso físico, além da enorme carga de humilhação que você falou. São trechos muito marcantes e tornam a leitura de “Violeta” uma experiência íntima. Não existe uma mulher que não fique impactada com as cenas da prisão (mas impactada de uma forma boa, quero deixar bem claro que em nenhum momento acontece alguma coisa mais pesada, o autor soube dosar palavras e escreveu tudo de uma forma bastante sutil) e com a personagem título ao longo do conto. Ela foi extremamente corajosa e forte. Sou grata ao Del Castillo por partilhar ela comigo enquanto leitora.

Gigio: Verdade, não só o momento da prisão, todas as aparições da Violeta são marcantes. Às vezes pelo impacto, como as que você citou agora, mas às vezes também pelo carinho. A última coisa que ele relembra no conto, por exemplo, é a alegria da tia-avó, que resistia mesmo depois do alzheimer, como uma risada silenciosa.

Sabe, no final acabei me lembrando também da minha avó. É curioso isso que o Del Castillo comenta, se conhecemos uma pessoa apenas quando somos crianças, a memória que temos dela fica diferente. Lembro dela, minha vó, em muitos aspectos, mas quantas coisas será que nunca descobri? Acho que vou pedir para minha mãe me contar umas histórias da próxima vez… rs.

Liv: Avós são uns bichinhos curiosos e corajosos. A minha avó materna criou sete filhos no interior do interior de Santa Catarina. Avós são guerreiras e tenho dito!

Gigio: Haha com certeza, você vê como devem existir muitas histórias assim por aí esperando para serem contadas. A gente nem repara, até que dê de cara com algo como “Violeta”. Daqui a pouco o Del Castillo acabará sendo culpado por uma invasão de contos sobre avós, tia-avós, bisavós, etc.

Mas passando um pouco para os aspectos técnicos, a leitura também flui muito bem, mesmo com as estruturas diferentes que o Del Castillo usa, como parágrafos que se interrompem e que vão mudando o sentido da narrativa, não achou?

Liv: Sim, um grande sim! Ele interrompe a história, avança e retrocede  e eu não me perdi dentro da história. A leitura flui super bem e o conto é muito bem estruturado!

A minha opinião final sobre “Violeta” vai soar meio groupie. É feio dizer que eu virei fã depois de apenas um conto? Que coisa! Queria mais umas dez páginas de “Violeta”. E se o Miguel Del Castillo lançar uma segunda versão do conto com mais dez páginas eu vou ficar bem contente, hahaha!

Gigio: Del Castillo está só começando mas já conquista seus fãs! Não digo que eu chegue a tanto, mas certamente vou querer dar uma olhada nesse livro de contos dele.

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