Aconteceu em 42 (Nella Bielski)

em 2 de outubro de 2012

Informações

  • Autor: Nella Bielski
  • Tradutor: Rosa Freire d'Aguiar
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 168
  • Ano de Lançamento:
  • Preço Sugerido: R$37,00

A Segunda Guerra Mundial não leva esse nome à toa. Não apenas países de todos os continentes participaram dela, mas praticamente toda a geopolítica do planeta foi alterada. Isso foi mais marcante na Europa, onde as fronteiras foram redefinidas, líderes substituídos e populações deslocadas ou assassinadas. Nada disso, porém, aconteceu instantânea ou rapidamente: foram seis longos anos em que tudo aconteceu de maneira dolorosa. Não existem heróis e nem bandidos numa guerra, mas de maneira geral atribui-se todos os males dessa aos alemães.

Mas nem todo alemão era nazista. Se muitos eram coniventes com as atitudes do partido de Adolf Hitler, se muitos outros não sabiam (ou fingiam não saber) o que acontecia, alguns opunham-se direta ou indiretamente ao Terceiro Reich. Entre esses últimos, existiu uma organização chamada Orquestra Vermelha – um grupo de oficiais do exército alemão que empenhava-se em sabotar os nazistas. Esse é, em tese, o centro da novela Aconteceu em 42, de Nella Bielski. A história se passa em 1942 (surpresa!), dividindo-se entre a Paris e a Ucrânia ocupadas pelos alemães.

O que poderia ser uma narrativa complexa e intrigante sobre a Segunda Guerra Mundial, acaba sendo um relato sobre o quotidiano das pessoas nos territórios ocupados pelos alemães – o que, por si só, também poderia ser bem interessante, não fosse o fato de Nella Bielski deixar-se cair em um sentimentalismo extremamente piegas. Soma-se um toque de misticismo que, parece, surge do nada e desaparece no nada e eis que um livro que parecia promissor mostrou-se um tanto decepcionante.

O livro é dividido em três partes que evoluem cronologicamente e geograficamente: o Sena, o Elba e o Dniepre. Na primeira, seguimos o oficial alemão Karl Bazinger em Paris, onde busca integrar-se aos locais – privilégio que lhe é garantido por conta da memória de um antigo amigo, apesar de sua desconfortável posição de ocupante. É lá que ele recebe uma visita bastante intrigante: seu velho amigo e vizinho Hans Bielenberg – também ele um oficial, mas envolvido secretamente em conspirações contra o regime hitlerista.  Cria-se certa aura de desconfiança geral, mas de forma muito pálida, e a trama quase se perde.

Se isso não acontece efetivamente é porque na segunda parte, o Elba, Bazinger está em casa, num pequeno vilarejo alemão. Encontra sua esposa e filho pequeno, já que o mais velho está na guerra. Lá, sua esposa levanta suspeitas de que a mulher de Bielenberg esteja escondendo uma jovem judia. Ao mesmo tempo, seu filho tem problemas na escola por ter se afeiçoado a um garoto judeu – que acabou expulso por motivos raciais. O mais interessante dessa seção é o desenrolar da vida doméstica que, na maior parte, não lembra em nada a de um oficial de um país em guerra.

Por fim, em o Dniepre, abandonamos os alemães e vamos para a Ucrânia. Praticamente toda a biografia da médica Katia Zvedsny é exposta, desde sua juventude até anos depois de ela formar-se em medicina. Mas o foco da história é quando, ela já sendo uma pediatra de certo renome e tendo seu esposo em um gulag, os alemães invadem a Ucrânia e provocam o massacre de Babi Yar – basicamente levaram todos os judeus da região de Kiev para a ravina que empresta o nome ao evento e os fuzilaram. Isso poderia ter sido explorado com particular densidade, mas acaba sendo pouco mais do que uma nota de rodapé.

Quiçá seja isso o que tenha me causado tamanha irritação e decepção com esse livro. Mas não a única coisa: também nessa terceira parte, tudo parece assumir contornos meio místicos, com a dra. Zvedsny curando pela imposição das mãos e tendo sonhos mais ou menos premonitórios. Acontece que isso acaba ficando bastante solto, como se fosse apenas o resultado de um lance de dados que a autora obrigou-se a obedecer.

Certamente o livro tem belas passagens, descrições poéticas e tudo isso. Pode até mesmo ser uma obra emocionante em certo sentido. Para mim, porém, não serve: é demasiado piegas e trata a guerra e o holocausto de um ponto de vista muito kitsch – mais do que consigo tolerar nesse tipo de assunto. Não conheço a obra teatral e nem cinematográfica de Bielski, mas quem sabe a novela fizesse mais sentido para mim caso eu estivesse familiarizado com seu universo (apesar de eu achar que, na verdade, o resto de sua obra também não me agradaria).

 

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