O Filme e a Peça: ‘A Partilha’

em 9 de abril de 2013

Este artigo começa com uma confissão: eu gosto do Miguel Falabella.

Sei que bom ator ele nunca foi e à parte dos quinze anos em que ficou à frente do Vídeo Show seu único grande feito na teledramaturgia foi em Sai de Baixo. Seu icônico Caco Antíbes, em sintonia com um elenco calibrado, mas especialmente com a Magda de Marisa Orth e a Cassandra de Aracy Balabanian, fizeram plateias gargalharem por seis anos e cunhou bordões como “Eu tenho horror a pobre!” e  “Cala boca, Magda!”. O sucesso do programa, que deve muito ao seu trabalho como ator e roteirista, mesmo há mais de dez anos fora do ar, ainda traz nostalgia e pedidos de retorno, e por isso o canal Viva prepara um especial com quatro novos episódios para irem ao ar ainda neste ano.

Virei fã de Miguel por Caco Antíbes, que via nas noites de domingo no canal aberto, mas hoje meu respeito por ele está por seu carinho ao Teatro, sua dedicação intensa com os atores com quem trabalha e com os textos, originais ou adaptados, que leva aos palcos brasileiros.

Um deles é A Partilha: quatro irmãs se reencontram no enterro da mãe; muito diferentes entre si, elas terão de decidir sobre a divisão dos bens deixados, especialmente um apartamento de luxo, mas o processo desperta lembranças e revela as agruras da vida.

O texto escrito por Miguel estreou no teatro carioca Cândido Mendes em 1991 com Natália do Vale, Arlete Salles, Susana Vieira e Thereza Pfeifer no elenco. Ficou em cartaz por seis anos, foi adaptada para mais de doze países e para o Cinema, com direção de Daniel Filho (um dos diretores de Sai de Baixo).

A versão cinematográfica tem Glória Pires, Andréa Beltrão, Lília Cabral e Paloma Duarte como protagonistas, venceu prêmios de atuação, fez bom público e até hoje é um dos filmes mais reprisados na tevê aberta. Lembro que em uma das dezenas de vezes em que assisti a uma de suas exibições madrugadeiras, chorei de rir em voz alta e acordei metade da casa com a cena em que Lúcia (Lília Cabral), claustrofóbica, presa no elevador com as irmãs brigando, revela o real motivo da separação de Regina do primeiro marido: “Ele mijava nela!”.

O texto é delicado e emocionante tanto na peça quanto na tela, mas por enquanto vamos nos ater à adaptação de Daniel Filho – homem que consegue levar grande público ao Cinema, mas que tem uma técnica sofrível.

O filme hoje parece um pouco kitsch, especialmente em suas danças coreografadas ao som de As Frenéticas (vamos relembrar? vídeo mais abaixo), mas é importante que se saiba que ela está presente no texto original de Miguel, um prelúdio de sua paixão atual pelos musicais.

Se sustenta, contudo, por suas quatro excelente protagonistas que assumem divertida e delicadamente as nuances das quatro irmãs: um recalcada por anos de um casamento infeliz (Selma), uma que volta de Paris e tenta reconquistar o filho (Lúcia), a que é hippie mas enfrenta a angustiante solidão (Regina) e a mais nova, sisuda e que se revela homossexual (Laura). O destaque desse elenco na tela grande é Lília Cabral, hilariante tanto na cena do jogo de chá quanto na supracitada do elevador, e em outras mais; também palmas a Paloma Duarte como a durona caçula, que demonstra fragilidade e doçura nos momentos certos.

Daniel Filho amplia a narrativa de uma forma que só na tela se poderia fazer. Suprindo as limitações físicas e temporais do Teatro, insere personagens que em cena são apenas citados ou que tolamente se finge que aparecem. Assim constrói para o texto realístico de Miguel um cenário tangível, uma realidade mais palpável, valorizando os dramas de uma narrativa muito verdadeira, arquetípica e com facilidade consegue tocar o espectador.

Passados vinte anos desde a estreia nos palcos de Ipanema e mais de dez desde o filme, o hoje veterano Miguel tirou o texto da gaveta, assoprou a poeira e remontou o espetáculo, trazendo o elenco original – com exceção de Natália do Vale, pressa a projetos televisivos, substituída por Patrícia Travassos.

Imediatamente me empolguei para assistir, mas só consegui há pouco tempo no belo e amplo teatro do shopping Frei Caneca, em São Paulo, e foi isso que me motivou a esse texto, que embora não fale de algo inédito, recém saído do forno, ainda é válido, pois a peça permanece em cartaz, ainda viajará pelo país e o filme sempre estará à disposição dos espectadores (obrigado Deus pelo DVD!).

Com cenário elegante e música agradável (embora fora de moda), as quatro atrizes se reúnem em volta do caixão da mãe. Logo, os que conhecem estão mais uma vez familiarizados com o texto, que não sofreu alterações e repassa as boas piadas e intensas emoções numa sequência ágil e interessante. Miguel tem como qualidade saber fazer piadas ‘femininas’, ou sobre mulheres, sobre seus desejos e segredos, sem ser paternalista e bem longe do machismo. A plateia logo fica fisgada, talvez mais até do que as atrizes, especialmente Susana Vieira, que destoa um pouco do grupo e parece deslumbrada com os spots do palco.

Arlete Salles logo se sobressai, apesar da interpretação duas oitavas acima de Thereza Pfeifer. Sua Lúcia recém chegada de Paris (mas ainda com um adorável sotaque nordestino) é tão estabanada quanto a de Lília Cabral que eu tanto gostei no Cinema. Um de seus pontos altos é quando sai da personagem, ao levantar no tapete em que se sentava junto às irmãs, e olha para a plateia, dizendo: “22 anos depois, momento da verdade, será que eu consigo?” – consegue, e merecidamente é aplaudida por isso.

Patrícia Travassos assume bem a travada Selma e é engraçadíssimo quando bebe dois copos de vinho e assume que faz análise… três vezes por semana. Para os cariocas (ou para os que moram no Rio, como eu) a peça também traz divertidas brincadeiras com o amor de Selma pela Tijuca, bairro da gema carioca. É importante lembrar que Patrícia assume a dura tarefa de substituir Natália do Valle, que não apenas estava no elenco original como inspirou Falabella à construção do texto e com quem o diretor/autor trabalhou todas as noites, por telefone, na montagem do espetáculo.

Susana Vieira, apesar de alguns excessos, certas limitações e uma irritante vontade de querer brilhar mais que o Sol-dos-sete-céus também tem seus bons momentos e parece, sobretudo, ter prazer em retornar à pele de Regina, e sabemos que o prazer do ator em cena dá prazer à plateia.

Com um texto gostoso de acompanhar, A Partilha, a peça, diverte até nos entreatos: quando os contrarregras mudam o cenário, do velório ao apartamento da mãe, o caixão vira o sofá e a plateia não contém as gargalhadas.

O texto de Miguel, do multitarefa Miguel, que atualmente produz, dirige e atua no Teatro, além de assumir uma série na televisão, sobrevive com naturalidade, ainda emocionando e fazendo rir. Os monólogos finais, em que cada atriz tem a chance que brilhar sozinha, são de uma profundidade tocante e não à toa todas as protagonistas encerram o espetáculo em lágrimas. Já o público, feliz por ter visto tão bela realização, termina a peça desejando mais e mais trabalhos do apaixonado Falabella.

(Post dedicado a @mariannamoraes , que um dia veremos em um dos musicais do Falabella)

4 comentários para “O Filme e a Peça: ‘A Partilha’

  1. Revi “A Partilha”, o filme, recentemente. Adoro! Vi que a peça estava em cartaz (talvez ainda esteja) em SP, mas fiquei achando (pelo visto, errado) que a peça estragaria a impressão que eu tinha do filme, por isso nem cogitei ver.

    • Que pena, Aline.
      Acho que sua impressão teria sido positiva.
      Mas já que não viu em SP, diz a lenda qu’elas estão vindo para o João Caetano, no Centro do Rio de Janeiro – aliás, literalmente atrás da minha universidade.
      VENHA! rsrs
      Bjus…

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