Crítica: ‘Ricardo III’

Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!
– ato IV, cena IV

 

O drama do sanguinolento monarca inglês Ricardo III (1452-1485) foi uma das primeiras obras teatrais de William Shakespeare, escrita por volta de 1592 e 1593, e se mantém até hoje como uma de suas mais populares e respeitadas peças, fascinante não apenas pela síntese histórica da intrincada dinastia Plantageneta, que reinou na Inglaterra por mais de trezentos anos, como também pela construção de um protagonista atraente por sua vilania, soberba e psicopatia, cuja correspondência pode facilmente ser encontrada nos dias atuais.

Passados mais de quatrocentos anos desde sua feitura e literalmente centenas de adaptações de maior ou menor sucesso, hoje a peça permite liberdades adaptativas e até brincadeiras visando não só aproximar o drama histórico dos espectadores contemporâneos, como também facilitar a compreensão de uma história que envolve mais de cinquenta personagens, duas famílias rivais, duas guerras e um punhado de assassinatos. Foi isso o que fez o ator Al Pacino quando, em 1996, quis adaptá-la em Nova York, mas antes construiu um belo documentário, Looking for Richard, em que reflete com acadêmicos, artistas e outros especialistas sobre o lugar e função de Shakespeare nos dias de hoje. Da mesma forma, aqui no Brasil de hoje o ator Gustavo Gasparani e o diretor Sergio Módena foram criativamente ousados ao montar um Ricardo III totalmente clean, com apenas um ator e cujo cenário é composto por uma lousa, um cabideiro, uma mesa e uma dúzia de canetas pilotos. Leia mais

‘The Book of Mormon’ – ácido, certeiro e hilário

Dos criadores de South Park, Trey Parker, Robert Lopez e Matt Stone, chega ao Brasil o elogiado musical da Broadway, vencedor de nove prêmios Tony, em montagem estilo guerrilha da talentosa equipe da UNIRIO, liderada pelo professor Rubens Lima Jr, que há sete anos comanda por lá o projeto Teatro Musicado.

The Book of Mormon acompanha a dupla de missionários Elder Price e Elder Cunningham em trabalho evangelizador pelo nordeste de Uganda, mantendo o mesmo humor cortante a que nos acostumamos com o desenho ao mostrar o choque cultural entre duas civilizações. Além disso, demonstra a madura habilidade dos realizadores em prestar tributo, mesmo que na maioria das vezes em forma de sátira, a clássicos musicais como A noviça rebelde e O Rei Leão (vide a canção Hasa Diga Eebowai, uma versão politicamente incorreta de Hakuna Matata). Leia mais

Para quem um dia foi tiete

Eu prometi e voltei rapidinho. A vida é maluca mesmo. Já fui a tanto show, peça de teatro, espetáculo de dança e até ópera! Mas, vou dizer, nunquinha havia ido a um musical (vergonhosamente). Aqueles que unem tudo – dança, interpretação e muita música. Então, resolvi estar na plateia do “Tudo por um Popstar”, que ficou em cartaz por sete meses no Rio e estreou no Teatro Folha no último fim de semana.

O resultado foi positivo. Senti como se eu tivesse 15 anos novamente. A peça, baseada no livro de Talita Rebouças, conta a história de três amigas que fazem de tudo para conhecer seus ídolos – os Slava Body Disco Disco Boys. Senti que eu era a tia da turma da galera até seus 17 anos, que preenchia a plateia com alguns pais acompanhantes. Leia mais

O Filme e a Peça: ‘A Partilha’

Este artigo começa com uma confissão: eu gosto do Miguel Falabella.

Sei que bom ator ele nunca foi e à parte dos quinze anos em que ficou à frente do Vídeo Show seu único grande feito na teledramaturgia foi em Sai de Baixo. Seu icônico Caco Antíbes, em sintonia com um elenco calibrado, mas especialmente com a Magda de Marisa Orth e a Cassandra de Aracy Balabanian, fizeram plateias gargalharem por seis anos e cunhou bordões como “Eu tenho horror a pobre!” e  “Cala boca, Magda!”. O sucesso do programa, que deve muito ao seu trabalho como ator e roteirista, mesmo há mais de dez anos fora do ar, ainda traz nostalgia e pedidos de retorno, e por isso o canal Viva prepara um especial com quatro novos episódios para irem ao ar ainda neste ano. Leia mais

A moratória (Jorge Andrade)

Apesar de serem muito similares em certos aspectos, textos escritos para ser um romance e uma peça de teatro são bastante distintos. O formato, o espaço e toda a organização e reflexão que envolve a concepção desses trabalhos, pensando no universo circunstancial e na própria tradição que envolve cada um desses gêneros, faz com que a apresentação e, consequentemente, a fruição tenham de ser também distintas. Foi buscando ter em mente constantemente essas peculiaridades que li A moratória, drama escrito por Jorge Andrade (1922-1984).

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Antologia do teatro brasileiro do séc. XIX – comédia

Como parte da coleção Penguin-Companhia das Letras, lançou-se há cerca de um mês a Antologia do teatro brasileiro do séc. XIX – comédia, organizada por Alexandre Mate e Pedro M. Schwarcz. Essa publicação vem muito a calhar em tempos nos quais não temos várias edições nas quais podemos ler textos dramáticos do século XIX que não sejam aqueles lidos nos colégios ou para vestibulares. Além dos volumes com a obra completa dos dramaturgos brasileiros desse século feitos há décadas pelo Estado, não há muitos volumes de caráter antológico.

Essa antologia, além de nos oferecer essa possibilidade de leitura, serve como estímulo ao leitor para descobrir mais da comédia brasileira. Como explica em uma ótima introdução João Roberto Faria, professor de literatura brasileira da Universidade de São Paulo (USP), a referida antologia apresenta justamente a comédia nacional por ter sido um gênero muito prolífico especialmente durante o Romantismo. Muitos intelectuais e aspirantes a escritores buscavam se dedicar ao teatro como meio de se inserirem na sociedade, chamando a atenção desta para suas demais obras. Leia mais

Duas peças de Machado de Assis (Parte Final)

Leia a primeira, segunda e terceira parte de Duas peças de Machado de Assis.

(IV) Da epístola a Quintino Bocaiúva, enviando-lhe alguns exemplares de umas comédias suas para avaliação, é interessante que citemos os trechos mais citados:

Se a minha afirmação não envolve suspeitas de vaidade disfarçada e mal cabida, declaro que nenhuma outra ambição levo nesses trabalhos. Tenho o teatro por coisa muito séria e as minhas forças por coisa muito insuficiente; penso que as qualidades necessárias ao autor dramático desenvolvem-se e apuram-se com o tempo e o trabalho; cuido que é melhor tatear para achar; é o que procurei e procuro fazer.

Caminhar destes simples grupos de cenas – à comedia de maior alcance, onde o estudo dos caracteres seja consciencioso e acurado, onde a observação da sociedade se case ao conhecimento prático das condições do gênero, – eis uma ambição própria de ânimo juvenil e que eu tenho a imodéstia de confessar.

E tão certo estou da magnitude da conquista, que me não dissimulo o longo estádio que há de percorrer para alcançá-la. E mais. Tão difícil me parece este gênero literário que, sob as dificuldades aparentes, se me afigura que outras haverá, menos superáveis e tão sutis, que ainda as não posso ver.

Até onde vai a ilusão dos meus desejos? Confio demasiado na minha perseverança. Leia mais

Duas peças de Machado de Assis (Parte 3)

Leia a primeira e a segunda parte de Duas peças de Machado de Assis.

(III) A peça Tu, só tu, puro amor foi escrita em comemoração ao tricentenário de Camões, cujo monumento mais conhecido das comemorações é o da Estátua em sua homenagem posta na chama “Praça Luís de Camões”, em 1880. É baseada no primeiro verso da estância CXIX do Canto III de Os Lusíadas, do famosíssimo e imorredouro episódio de Inês de Castro, um dos pontos altos da poesia universal ao lado da estância CXX com o igualmente famoso e imortal verso “Estavas, linda Inês, posta em sossego”.

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Duas peças de Machado de Assis (Parte 2)

Leia a primeira parte de Duas Peças de Machado de Assis.

Comecemos por 4: as mulheres são apenas citadas e referidas no decorrer da peça, ainda que sejam o motivo principal e o instrumento da engrenagem de funcionamento dela (o amor). Leiamos a explicação de Machado sobre “sua obra tão desambiciosa”:

“Uma das condições impostas ao autor desta comédia, e ao autor do Luís, era que nas peças não entrassem senhoras. Daqui vem que o autor não pôde, como lhe pedia o assunto, fazer intervir as deusas do Olimpo no debate e na deserção dos seus pares. Os que conhecem estas coisas avaliarão a dificuldade de escrever uma comédia sem damas. Era menos difícil a Garrett [à tragédia Catão, 1822] e a Voltaire [à tragédia Catilina, 1750], pondo em ação as virtudes romanas e as lutas civis da república, dispensar o elemento feminino. Mas uma comédia sem damas para entreter os convivas de uma noite, cujos limites eram uma variação de piano e o serviço de chá, é coisa mais fácil de ler que de fazer.”

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Duas peças de Machado de Assis (Parte 1)

(I) Já é praxe que se considere o teatro machadiano como a parte mais irrelevante de sua obra, com motivos justos e justificados de sua inerente inferioridade em relação ao todo e ao gênero. No entanto, o fato do teatro machadiano ser inegavelmente menor, ainda mais se o colocarmos ao lado de outras produções contemporâneas e canônicas brasileiras que, mesmo não constituindo nenhuma tradição teatral de grande alcance, ao menos possuem em seu interior um punhado de obras-primas, o teatro machadiano se empana ainda mais e se demonstra como inegavelmente morredouro.

De sua faceta teatral analisaremos a faceta “clássica” de seu teatro, entre aspas por possuir temáticas, escopos e feições clássicas ou voltadas para tais temas, e não por resistirem à correnteza dos tempos. Esta faceta é constituída de duas peças: Os Deuses de Casaca, de 1866, e Tu, só tu, puro amor, de 1880. Leia mais

Ingmar Bergman

É uma coisa um pouco sem sentido, mas eu acho cinema algo cansativo. Situar-me como espectador é uma atividade por demais passiva, e isso me dá preguiça. Por isso talvez soe um pouco paradoxal falar que um de meus diretores favoritos é o sueco Ingmar Bergman.

Afinal, os filmes dele são um tanto arrastados. Mas de certa forma, é justamente isso que me atrai: essa lentidão, os diálogos densos, isso me tira da letargia em que, de outra maneira, eu seria colocado pelo filme. Eu preciso me manter alerta o tempo todo, ativando uma quantidade enorme de referências – algumas, inclusive, difíceis de identificar imediatamente; isso fora as que eu talvez nunca me dê conta. Leia mais

Um bonde chamado desejo (Tennesse Williams)

Fazia tempo que eu não pegava uma peça de teatro para ler. Lembro de ter lido algo do August Strindberg há algum tempo, mas esparso demais para contar como uma leitura mais afeita. Quando terminei de ler Um bonde chamado desejo, do autor estadunidense Tennessee Williams (de uma sentada), lembrei de como é agradável acompanhar o ritmo peculiar das composições para o teatro.

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