A mentira ou como meu priminho me fez entender o que é verossimilhança

em 12 de abril de 2013

Há algum tempo, ouvindo um primo meu contar uma história a respeito de seu irmão mais velho, tive uma epifania com relação a um dos conceitos relativos à ficção que considero mais essenciais e mais difíceis de se explicar: o da verossimilhança.

Deixe de lado, por um momento, as inestimáveis lições aristotélicas sobre o conceito e seus desdobramentos. Acompanhe a história e veja se, como eu, você também entende a simplicidade indireta com que ele explorou as complexas circunvoluções desse conceito, e como acabou sendo enredado por elas mesmas.

Meu priminho contou a seguinte história a respeito de seu irmão mais velho e seu suposto affair: “Ontem fulana veio lá em casa, sentou com meus pais, conversou com eles, ficou para o jantar…” e assim por diante. Ele queria induzir seus interlocutores a uma conclusão relativamente óbvia: que a fulana à qual ele se referia, pelas evidências circunstanciais, era a suposta namorada ou ficante de seu irmão.

Eu, procurando alimentar a fogueira de seu relato e ver meu primo – o suposto paquerador – lidar com o embaraço da publicização de sua situação, perguntava: “E então?” ou “E daí, o que aconteceu?”, de modo a estimulá-lo a pontuar de detalhes sórdidos o constrangedor e tenso primeiro encontro da namorada com a família. Quem dera fosse ele um boneco de madeira mágico, pois desse modo seu nariz teria apontado para frente e eu teria me dado conta antes da sofisticada peça que ele buscava pregar em seu irmão e, por consequência, em mim próprio e em todos os seus interlocutores: tratava-se de uma cabeluda mentira!

Estimulando seu palavrório com vistas ao escárnio de meu primo, acabei dando corda demais ao pobre mentiroso: as pernas curtas da mentira lhe custaram o equilíbrio, e ele acabou dotando sua história de detalhes demasiadamente rocambolescos, como o pai de fulana aparecer à porta de sua casa e agredir meu primo, por exemplo. Nesse momento, me sentindo um tanto ridículo pela ingenuidade da minha inadvertida crença no relato, vislumbrei claramente os contornos, as potencialidades e os limites da verossimilhança: o pestinha havia me dado uma lição epistemológica!

A beleza da situação toda foi justamente a hábil maneira como ele conduziu todo o seu relato, consciente ou inconscientemente mantendo-o dentro de limites realísticos. Para mim, ouvinte e desconhecedor da lógica que se passava dentro de sua maquiavélica cabecinha, seu relato era meu único acesso ao seu pensamento e à situação toda, já que eu não havia estado lá. O relato dele era constantemente submetido à sabatina dos meus próprios mecanismos de lógica e sentido, e, até o momento em que sua repentina celebridade como contador de histórias ultrapassou seu “bom senso” de mentiroso, eu estava acreditando piamente no que ele me dizia. Isso aconteceu justamente porque o relato dele era verossimilhante.

Embora eu não tenha sido uma testemunha direta daquele fato – que, aliás, nem fato era, mas sim uma invenção da fértil porém metódica imaginação dele –, eu conheço minimamente meus primos e sei que relacionar-se com garotas faz parte do cotidiano do mais velho, enquanto adolescente; e fazer chacota dos affairs do irmão mais velho, parte do cotidiano do menor. Desse modo, por um momento, fui ludibriado ao ponto de tomar por verídica uma história que era, praticamente em todos os seus detalhes, uma ficção.

A verossimilhança, portanto, se apresentou por clareza para mim. Até o momento em que a criação e o encadeamento dos “fatos” – ou elementos da história – respeitou a “lógica” que costuma reger eventos como aqueles numa situação real, a mentira possuía coerência interna e se sustentava, pois mesmo não tendo visto os fatos, minha experiência existencial aceitava como plausível aquilo tudo. Isto é, aquilo tudo fazia sentido dentro do que eu conhecia sobre o mundo e suas dinâmicas. Eu caí “como um pato” em toda a deslavada mentira que ele contava!

Por possível que seja uma situação em que um pai, em busca de sua filha, vem a agredir o suposto namorado dessa, ela soou por demais improvável dentro do que eu conhecia sobre o mundo e especificamente sobre meu primo e seu modo de ser. Nesse momento a verossimilhança foi perdida, isto é, aquela situação fugia à “lógica” que eu acreditava reger a realidade em que meu primo vive, de modo que minha própria compreensão e sua “lógica” subjacente não me permitissem mais aceitar aquele relato como verdadeiro. Ou pelo menos não sem algum tipo de ceticismo.

Se vocês, porventura, estiverem se perguntando por que diabos eu achei esse pensamento digno de figurar nessa coluna, bem, eu posso tentar lhes explicar. Como um historiador que investiga a literatura, parto do pressuposto que um escritor, por mais imaginativa e fantasiosamente que possa conceber e escrever um livro, ainda assim está inescapavelmente vinculado à realidade, posicionando-se em relação a ela ou a partes dela. Por favor, prestem atenção ao fato de que em nenhum momento eu usei a palavra “determinado”, “determinismo” ou derivadas.

Nesse sentido, a verossimilhança é essencial para investigar um texto literário do ponto de vista da historiografia: sabemos que produzir literatura é lidar com problemas epistemológicos, de modo que conhecer o que é verossimilhante e o que pode ser encarado como uma história plausível pelos leitores requer um conhecimento mínimo sobre o que é a realidade, o que a dá forma, o que a movimenta, o que a transforma ou o que a conserva como está. Da mesma forma, é preciso que se conheça minimamente o que é um homem – especialmente enquanto ser cognoscente –, o que o faz achar algo lógico ou não, o que o motiva a agir como age e assim por diante. Os autores das grandes obras são aqueles que mais profundamente mergulharam nessas perguntas, e os que melhor souberam apresentar argumentos a elas, seja em forma de respostas, hipóteses ou mesmo de outras perguntas.

Saber o que um escritor concebe como lógico ou ilógico, plausível e crível ou incoerente e incrível é essencial para ser capaz de perscrutar os sentidos mais recônditos de uma obra. A maneira como um escritor lida com esses problemas básicos – e, ao mesmo tempo, complexos – da escritura nos diz muito acerca da maneira como ele enxerga a realidade e, consequentemente, a maneira como ele se posiciona diante dela. Todo livro tem um porquê, uma razão de existir, um motivo que justifique sua existência física e as agruras de sua trajetória desde a embrionária e abstrata ideia até o tangível códice. A verossimilhança nos ajuda a entender exatamente esses processos, precisamente os quais parecem tão enganadoramente autoevidentes.

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