Como qualquer tentativa de compreender o funcionamento da realidade – especialmente quando essa tentativa se volta aos seres humanos, seu comportamento e sua existência – O gene egoísta, de Richard Dawkins, causa polêmica. Não se trata simplesmente de implicância ou de sensacionalismo, mas sim de uma sabatina que tem mais de prolífica do que de castradora. Isso porque as visões da realidade e do ser humano são tantas e possuem tão longa e disputada trajetória histórica, que é impossível andar em uma direção interpretativa sem estar, concomitantemente, tensionando as demais.

Explico-me: o livro em questão busca discutir uma porção de conceitos ligados à genética e, por consequência, ao comportamento dos animais e, em menor monta, dos seres humanos. Por conta disso, trata-se de uma interpretação sobre o que faz os animais e os homens serem o que são e agirem como agem. Isso, por sua vez, influi diretamente no tipo de visão que Dawkins tem acerca da existência – e quiçá da natureza – humana. Isso é mais do que motivo para atrair os mais diversos tipos de crítica.

Dawkins, porém, deve ter submetido suas ideias a muitas sabatinas antes de publicar seu livro. Arrisco dizer que ele próprio é um grande e perspicaz sabatinador. Do seu próprio trabalho, inclusive. Digo isso porque qualquer um que leia O gene egoísta, comungando ou não com as teorias do autor, há de reconhecer que ele tem uma maneira muito interessante e consistente de lidar com contra-argumentações. Ele leva a cabo constantemente o estabelecer uma tese e, logo em seguida, a investigação de todos os possíveis contrapontos a ela. Ou seja, ele apresenta a tese, antecipa a antítese e busca, incontinenti, apresentar uma possível síntese melhorada.

Em alguma medida esse é um procedimento padrão de qualquer análise teórico-científica, mas o que faz Dawkins distinto nesse sentido é a perspicácia com que ele busca analisar todos os possíveis “contras” de suas colocações. Ele se antecipa e, ajudado pela sua linguagem límpida e simples, consegue explicar conceitos complexos e cálculos intrincados com uma narrativa tão elucidativa quanto intrigante.

Elucidativa porque ele pontua cada uma de suas colocações pesando seus argumentos e compreendendo-os em sua integralidade; intrigante porque ao passo em que ele nos apresenta ao contra-argumento, somos nós convidados a colocar em dúvida tudo o que ele já colocou em dúvida uma vez. Por isso é que gosto tanto quanto desgosto de O gene egoísta.

Admiro a forma como Dawkins conduz suas explicações e seu método, levando o leitor pela mão sem se tornar por demais didático. Afinal, de que vale uma admirável construção interpretativa se ela não puder ser transmitida a outrem? Porém, quando o assunto passa a ser a interação gênica e sócio-cultural nos seres humanos – e, consequentemente, sua visão acerca da natureza e da existência humanas – me torno muito mais cético e o cerco de ressalvas.

O autor argumenta que os genes são as unidades básicas de sobrevivência e que os organismos que eles ajudam a formar são “máquinas de sobrevivência” (lembrem-se de que estou falando muito grosseiramente). A partir dessa forma de encarar os genes e seu funcionamento, Dawkins conduz sua argumentação de modo a mostrar como os genes têm um peso fundamental no comportamento dos animais e dos humanos, pois eles são as unidades básicas de formação dos seres vivos, o que lhes confere um papel importantíssimo na forma como esses mesmos seres vivos irão agir, ser, viver em grupo, se alimentar etc. Assim, a interação entre a influência gênica e sóciocultural tende a ter um peso muito significativo em relação ao primeiro item.

Dawkins é categórico em afirmar que sua obra não é um tratado moral e que o “gene egoísta” não é a prova cabal de que a sobrevivência individual é a condenação fatal da vida em sociedade. O fato de Dawkins dizer que a “programação” básica dos genes – e, consequentemente, dos organismos por eles formados – é a sobrevivência e sua própria perpetuação não significa que ele legitima moralmente a concorrência predatória ou valores egoístas de autopreservação como elementos que devam nortear a existência em sociedade. A afirmação do egoísmo do gene está ligada a uma espécie de leit motiv de existência dos genes em termos biológicos e fisiológicos, e não como vontade consciente.

Foi nesse ponto em que eu tive minha principal ressalva com relação a’O gene egoísta: na minha condição de leigo em genética, biologia e fisiologia, ouso – ainda que um tanto receosamente – permanecer cético quanto ao protagonismo que Dawkins atribui aos genes, especialmente no que diz respeito à esfera de existência humana. Entendo que eles são unidades básicas de sobrevivência e que possuem a “programação” de nossas características mais básicas, mas quando o assunto é seres humanos, não consigo conceder tal peso ao papel dos genes no comportamento.

Não sei até onde Dawkins realmente trata dos genes como protagonistas e até onde ele usa a ação dos genes como recurso narrativo para tornar suas explicações mais didáticas, mas não consigo conceber a história humana como sendo tão atrelada ao “comportamento” dos genes. Longe de mim negar nossa natureza biológico-fisiológica e a maneira como ela influi no que somos e como agimos, mas acho que toda essa interação se dá em quadros sociais e históricos tão complexos que ela – a natureza biológico-fisiológica – nunca poderá ser considerada independentemente dele.

O autor, precavido quanto a contra-argumentações que é, antecipou-se a essa ressalva e procurou fazer de seu livro uma investigação mais voltada aos animais do que propriamente aos humanos. E nesse sentido, tenho de admitir que a complexidade de sua leitura – no sentido de considerar uma gama incrível de elementos condicionantes – é impressionante. Quando analisando o peso de um gene, Dawkins não o concebe abstratamente, mas em casos concretos, tomando o cuidado de pesar o gene, o ambiente, sua interação e os possíveis acidentes de percurso. É pouco provável que sua análise deixe de considerar algum fator externo que possa alterar suas colocações empíricas ou teóricas. Isso faz com que ganhe em concretude, pois abundantes exemplos são apontados para demonstrar suas interpretações.

Por isso é que, apesar das ressalvas que me sinto compelido a fazer, preciso alertá-los de algo para que não joguemos fora o bebê com a água de banho. O gene egoísta é um livro muito bem escrito, com argumentos bem construídos e muito bem amparados por exemplos empíricos. Ele que apresenta um ponto de vista muito interessante e rico no sentido de buscar compreender como funcionam os seres vivos e, consequentemente, a realidade em que eles vivem, uma vez que ela própria é, em alguma medida, produto de sua ação.

A crítica e o ceticismo são parte do exercício intelectual e devem ser encarados como possibilidades de melhoramento e crescimento mais do que exercícios de pedantismo. Defendendo esse ponto de vista é que reforço minha recomendação de que O gene egoísta, seja para se discordar, seja para se concordar, é um livro para ser lido e discutido. Encarem o espaço de comentários aqui como uma possibilidade imediata de iniciar o debate.