“Escrevo sem programar o que vou fazer”, entrevista com Agustín Fernández Mallo

em 6 de maio de 2013

Agustín Fernández Mallo é um escritor espanhol, formado em Física, com diversos livros de poesia publicados, nos quais busca estabelecer um diálogo entre arte e ciência. Nocilla Dream, primeiro livro do Nocilla Project, foi lançado no Brasil em março pela Companhia das Letras. Você pode conferir um trecho aqui ou ler a resenha.

O escritor conversou um pouco com o pessoal do Posfácio sobre seu livro proibido (El hacedor remake), mas aclamado por crítica e público, sobre Borges, sobre Afterpop e outros assuntos interessantes. Confira abaixo:

1. Vamos começar com um pouco de polêmica: por que seu livro El hacedor remake (homenagem a Borges) foi proibido? Há uma chance remota de conseguirmos uma tradução aqui para o Brasil, sem ser pirata?

AFM: Não, não existe. É um livro que do ponto de vista estético está garantido – teve excelente acolhida entre o público e a crítica – , mas do ponto de vista legal quem tem o poder é a pessoa que possui os direitos autorais da obra original, sua viúva. É uma pena que ela não tenha entendido. Meu livro não faz outra coisa que aplicar o método que Borges inventou para sua literatura e para a tradição. Nesse livro encontra-se o que creio ser até o momento minha melhor narrativa, “Mutaciones”.

2. Nocilla Dream, e o projeto Nocilla como um todo, batizou uma nova geração de escritores, alguns poucos conhecidos pelo público brasileiro. Quais escritores da Generación Nocilla você indicaria para os leitores do Brasil?

AFM: O rótulo “Generación Nocilla” é um nome dado pelo jornalismo cultural espanhol, não pelos autores. A imprensa botou aí muita gente que nunca pediu para estar nesse grupo. Eu mesmo, por exemplo. Não posso falar pelos outros, só posso falar por mim. O que caracteriza minha obra é a composição em rede, cada elemento do romance funciona sem hierarquias claras, mesclando a cultura popular com a alta cultura, e importando materiais que são da dimensão da tradição literária mas também de lugares muitos distantes da tradição – as ciências ou o lixo que a sociedade de consumo vai deixando em seu caminho. Não é um romance “social”, mas é sim realista, fala de uma forma atual de articular o mundo e os pensamentos.

3. Como funciona esse negócio de padrinhos da geração McOndo (de Fresán e cia.)?

AFM: É uma coisa que não tem muito a ver. Por outro lado, admiro e respeito muito a obra de Fresán. Um dos melhores romancistas vivos de língua espanhola.

4. Eloy Fernández classificou essa geração como “Afterpop”. Esse termo resume a explosão de temas e subtemas em Nocilla Dream?

AFM: Afterpop é um bom termo, mas é muito amplo, é um termo sociológico. Serve para explicar a especialização das subculturas de hoje, e a superação do pop. Tem sim a ver com a minha obra, mas em relação a ela tenho falado de Pós-poesia, ideia que teorizei no meu livro Postpoesía, hacia un nuevo paradigma, que foi finalista do Prêmio Anagrama de Ensaio.

5. Nos fale um pouco sobre a colaboração que vocês fizeram…

AFM: Se você se refere a “Afterpop Fernández y Fernández”, trata-se de um spoken word. Recitamos textos, que podem ser poemas, textos de teoria sociólogica ou narrativa, com música que colocamos na hora e vídeos. O interessante é que trabalhamos materiais muito diferentes, tudo parece que está fora do contexto, mas depois se encaixa. Brincamos com a sobreinformação. Muitas vezes, ao terminar a sessão, os espectadores dizem, “não sei o que assisti”; e gostamos disso. É um espetáculo híbrido.

6. No que constituem as outras partes do Projeto Nocilla (Nocilla Lab e Nocilla Experience)? Existe alguma ligação entre elas além do nome?

AFM: Existem muitas ligações poéticas. O mais importante em minhas obras são as metáforas que as atravessam. Não se trata de juntar pedaços de coisas como em uma colagem, não tem nada a ver com colagem, e sim com armar certas tramas, certas sensações, através da poesia. Para isso me valho da minha tradição literária, das ciências, da arte conceitual, da publicidade, etc; quer dizer, de tudo que me rodeia e de tudo que está na minha contemporaneidade.

7. Em Nocilla Dream, há citações de diversos pensadores como Ayn Rand e Heidegger, mas também podemos encontrar algumas características de Baudrillard – o deserto do real e a transformação de Che de revolucinário para ícone do consumismo em massa – e um pouco de Derrida, ou seja, grande parte do romance bebe da filosofia. Tudo isso estava no projeto inicialmente ou tomou proporções maiores devido ao experimentalismo de sua obra?

AFM: Tudo foi tomando forma pouco a pocuo. Escrevo sem programar o que vou fazer. Parto de uma imagem – neste caso uma árvore cheia de sapatos que existe no deserto de Nevada –, e não sei o que vai acontecer depois. Escrevo os romances como se escreve um poema, sem programá-lo. Por isso são muito orgânicos e por isso produzem a sensação de que são honestos. Não são uma construção ad hoc. Nisso consistiu grande parte do seu sucesso.

8. Um dos autores que te influenciam é David Foster Wallace – escritor que aos poucos vem ganhando espaço no Brasil e que terá sua obra máxima, Infinite Jest, lançada esse ano por aqui – seria possível dizer que a filosofia e a ciência dentro de Nocilla Dream é, em parte, influência do autor? Ou seria o humor um pouco mais kafkiano que Wallace tanto usava e referenciava?

AFM: Para ser sincero, não. Quando escrevi a trilogia quase não havia lido nada de DFW, nem nunca o tive em mente. Suponho que o que acontece é que ele e eu somos quase da mesma geração, de modo que nos vimos influenciados por coisas parecidas. Meu tratamento da ciência vem da minha profissão – física das radições nucleares aplicada à medicina. Sempre pensei que na ciência há uma poética, uma estética, penso isso desde que tinha 18 anos. Uso a ciência como enredo ou argumento do romance – quer dizer, não se trata de ficção científica nem de romance policial –, e sim de usá-la como geradora de metáforas em si mesma. Tudo vem de intuições muito anteriores a DFW. De Borges, por exemplo, ou da filosofia. Fora isso, gosto muito da narrativa de DFW, mas a descobri depois. Quando escrevi meus romances, não tinha nenhuma relação com o mundo literário dos romances, escrevi tudo sozinho, guiado por minha intuições. Foram anos de trabalho e poesia até alcançar minha própria poética.

9. Sabemos que Calvino, Borges e até Cortázar também te influenciam, mas além de escritores, o que mais te inspira tanto na literatura, quanto no cinema e na música?

AFM: Me inspiram Thomas Bernhard e Don DeLillo, o artista Robert Smithson, o filósofo Wittgenstein, a música do Radiohead e do Beach House, o cinema de David Lynch. Mas há muito mais.

10. Como nós brasileiros somos um pouco de filhos do meio, gostaríamos de saber se há algum autor brasileiro que desperte seu interesse e se você tem planos de visitar nosso país (e autografar o exemplar desse que vos questiona)?

AFM: Acho que tenho que ir no outono ao Brasil, mas não sei com certeza, isso depende da Companhia das Letras. Tenho muita vontade de ir. Me inspira muito o artista brasileiro Artur Barrio. Por exemplo, sua obra “Livro de carne”.

11. Você praticaria Passagem a Ferro Radical descendo a Torre de Pisa?

AFM: Sim. Em outros tempos fui alpinista. É algo parecido.

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