A barreira de aparecer no meio literário – entrevista com Bruno Liberal

Bruno Liberal nasceu em Goiânia, no estado de Goiás. Aos quatro anos de idade mudou-se com a família para Petrolina, sertão de Pernambuco. Lá se formou em Economia e deu início paralelamente à carreira de escritor, publicando em 2012 a seleta de contos Sobre o tempo (editora Multifoco). Mas foi no ano seguinte que se destacou, na primeira edição do Prêmio Pernambuco de Literatura, sendo o grande vencedor, na categoria contos, com o livro Olho morto amarelo (Companhia Editora de Pernambuco).

Nessa obra, Bruno Liberal revela-se um ficcionista notoriamente hábil e talentoso ao nos apresentar em suas breves narrativas doses dicotômicas de violência e poesia, reunindo personagens solitários, psicóticos e excêntricos – vítimas da banalidade urbana –, dentro de uma atmosfera onírica confinada por insights. Leia mais

Bruna Moraes: musa em flor

 A música me acorda de um sono profundo e me insiste, até que saia.

 

O último sábado de agosto (23) reservou uma surpresa e tanto para o público do teatro Eva Herz da Livraria Cultura (RJ) que, assim como eu, pouco ou nada conheciam sobre o trabalho de Bruna Moraes.

Estava lá, convidado pela assessoria para o show de apresentação da cantora às plateias cariocas; quando a menina começou a cantar minha primeira reação foi de incredulidade: “ela não pode ter só 19 anos”. Sim, Bruna Moraes tem apenas 19 anos e um vozeirão que assusta muita gente grande da cena musical brasileira.

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Uma conversa com João Gilberto Noll

Por Thiago Souza de Souza

Fala devagar, a voz muito calma, às vezes respeitando longos silêncios como se esperasse as ideias saírem detrás de uma nuvem escura que lhe atrapalha o pensamento. Olhos fitando o vazio, só encara o interlocutor para ouvir. Cabelos brancos, barba sempre por fazer. Mora sozinho – ou melhor, divide um apartamento no centro de Porto Alegre com os livros. Não à toa, sua literatura é sobre a solidão. Trabalhou com jornalismo, foi revisor de editora e começou a publicar tarde, aos 34 anos. Diz que sempre escreveu a história de um mesmo personagem, um homem errante, que vive aos esbarrões, sempre à procura de algo que não sabe o que é.

João Gilberto Noll é um dos escritores brasileiros mais premiados da atualidade. Já recebeu cinco Jabutis, em 1981, 1994, 1997, 2004 e 2005. Seu gosto pela escrita veio ainda na adolescência, graças à timidez que o fez optar por “aquilo que você faz sozinho, a literatura”. Gaúcho, chegou a morar por mais de 20 anos no Rio de Janeiro, mas voltou para a introspecção de Porto Alegre a fim de fugir daquela cidade muito dispersiva e se dedicar mais à literatura. Nos anos 90, deu cursos de literatura brasileira na Universidade da Califórnia, no campus de Berkeley. Foi escritor residente no King’s College de Londres nos anos 2000, quando escreveu o romance Lorde. Leia mais

“Escrevi ‘Na escuridão, amanhã’ para matar meu pai” – entrevista com Rogério Pereira

Muito antes de publicar seu primeiro livro de ficção, o jornalista e, agora, também escritor, Rogério Pereira, já era um nome conhecido e respeitado no meio literário. Fundou em 2000 o Rascunho, um dos nossos jornais mais importantes e o único especializado em literatura no Brasil.

Diretor da Biblioteca Pública do Estado do Paraná e figura importante na cultura literária brasileira, o gaúcho do interior de Santa Catarina, veio de origem humilde. Filho de pais semianalfabetos, o nosso Dom Quixote brasileiro viu sua vida ser transformada ao descobrir nos livros a possibilidade de um futuro melhor, que o tirasse da situação economicamente desfavorável em que se encontrava.

De motoboy do jornal Gazeta Mercantil, acabou tornando-se jornalista. Chegou a ser chefe de redação do jornal Gazeta do Povo, e foi parar na Espanha, onde fez um mestrado em Literatura. Porém, o grande marco em sua carreira, sem dúvida nenhuma, foi a idealização de seu pequeno-notável projeto, que elenca grandes escritores, jornalistas e críticos literários, chancelando de forma substancial o que grande parte da imprensa tem deixado a desejar no que diz respeito ao conteúdo dos cadernos culturais.

Após se apresentar também como cronista em publicações no site Vida Breve, chegou a vez de Rogério Pereira lançar-se na ficção com a publicação de Na escuridão, amanhã (mencionado pelo jornalista que aqui escreve na lista das melhores leituras de 2013 do Posfácio), um projeto literário de mais de uma década, que chegou finalmente às livrarias no final do último ano, editado pela Cosac Naify.

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“Talvez tenha sido um jeito de me sentir menos escravo nesse mundo sufocante” – entrevista com Luiz Felipe Leprevost

Luiz Felipe Leprevost é poeta, ficcionista, ator, dramaturgo, músico e agora sócio de um novo selo independente curitibano chamado Encrenca: Literatura de Invenção, pelo qual publicou no final de 2013 seu mais recente livro, Salvar os pássaros. A obra é um arsenal de narrativas ficcionais desprovidas de um formalismo estético, onde a linguagem é a grande força ancorada em seus textos, que, se o autor não gosta que sejam apontados como herméticos, soam, em alguns momentos, no mínimo desconcertantes. De fato, o efeito de Salvar os pássaros se completa muito mais quando lido em voz alta do que em silêncio.

Neste projeto ficcional de breves narrativas experimentais e de seio metalinguístico, as vozes orquestradas de suas personagens aparentam, muitas vezes, querer expandir seus discursos quase como num ápice histérico de loucura ou devaneio, ou como se estivessem vomitando as próprias vísceras, desfigurando o senso comum, onde a palavra, a frase e o verso recriam novas formas de significação inaugurando um novo mundo onde a criatividade sem limites de seu autor se faz valer, sem que se abandone seu traço poético — este explicitamente entranhado nas páginas de sua antologia.

Em entrevista exclusiva ao Posfácio, Luiz Felipe Leprevost falou sobre o seu novo livro, o selo Encrenca e suas experimentações estéticas com a linguagem. Leia mais

“Minha dificuldade sempre foi compreender o que estava fazendo” – entrevista com João Paulo Vereza

         Quem pôde ler a coletânea de narrativas nem muito longas, nem muito curtas, intitulada Noveleletas, publicada pela Record em 2013, deve ter ficado embasbacado ao saber que o seu respectivo autor tratava-se de um jovem de 33 anos, natural do Rio de Janeiro, mas que atualmente mora em São Paulo, onde trabalha como redator publicitário, e que de longe teve uma vida que se pode considerar tipicamente interiorana. Do contrário, João Paulo Vereza é um rapaz da cidade grande, que mostrou em sua primeira obra de ficção um estilo expressivamente marcante para fabular estórias, que lhe foram merecidas o máximo de dedicação com a linguagem, exclusivamente a qual o autor se propôs a trabalhar.

Com Noveleletas reacende-se a chama de grandes nomes da literatura brasileira regionalista, como Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Murilo Rubião, Ariano Suassuna entre outros. Abusa do risco, embora mostrando com enorme desempenho e segurança seu potencial para com o gênero pouco trabalhado em nossa prosa contemporânea, ao construir um universo temático cheio de suas peculiaridades linguísticas corroboradas à fusão do folclore, ao culto religioso, à sobreposição de elementos poéticos e à mistificação do real potencializada num traço que protagoniza a verve de um povo invisível para muitos, mas que se encontra presentemente nas veias de nossos brasis afora — no real ou no imaginário brasileiro —, através de uma cidade fictícia interiorana, elencada por suas respectivas personagens de nomes como Chorume, João Fode-Bode, Mané-Cotó, seu Zonato e Beto Esqueleto. O resultado foi o Prêmio Sesc de Literatura 2012/2013, na categoria Contos, que concedeu-lhe a publicação numa editora nacional de grande circulação no mercado, além de elogiosas críticas adquiridas por veículos da imprensa no segmento literário. Leia mais

Entrevista com Fabrício Corsaletti sobre Quadras Paulistanas

Recentemente, Fabrício Corsaletti, residente em São Paulo, lançou pela Companhia das Letras seu livro Quadras paulistanas juntamente com Andrés Sandoval, responsável pelas ilustrações da obra. O poeta é também autor de Esquimó (2010), que contém poemas de forma e temática variadas, indo da nostalgia da terra natal (Santo Anastácio, no interior paulista) até a solidão amorosa, sempre com certa auto-ironia.

Na obra recém-lançada, Corsaletti, que também é cronista da Folha de S. Paulo, se aventura na descrição de sua cidade atual sob uma mesma forma, a popular quadra, para os mais diversos fins. Não se trata de uma mera descrição no sentido científico, é claro. São textos literários que frequentam um espaço, uma lacuna entre a crônica e a poesia. Vemos a crônica quando o autor observa as figuras e os pequenos acontecimentos da metrópole em seus momentos de província, como Manuel Bandeira ao tratar das cidades históricas mineiras em Crônicas da província do Brasil. Leia mais

“O mundo literário segue sendo acentuadamente patriarcal e falocêntrico” – entrevista com Monique Revillion

Monique Revillion, este é o seu nome. Uma escritora natural de Porto Alegre, nascida em 1960, e que desde pequena revela-se uma apaixonada pelos livros, embora tenha começado a escrever tardiamente, segundo ela. Contudo, sua estreia nas letras, depois dos quarenta, com Teresa, que esperava as uvas (Geração Editorial), concedeu-lhe o Prêmio Açorianos de Literatura 2006, nas categorias Contos e Livro do Ano.

Tanto em seu primeiro quanto ao mais recente livro, O Deus dos insetos (Dublinense), é notório nos contos de Revillion uma escrita vigorosa, madura, delicada e paradoxalmente pungente, apresentando um caleidoscópio de sensações que nos afunila ao mais intrínseco e latente da condição humana. Trabalha sobre uma linha tênue de ficção que se mistura entre a prosa poética e intimista, longe dos floreios desnecessários e de uma escrita que, muitas vezes, por este terreno, possa soar, para muitos, pretensiosa e demasiado hermética. Leia mais

“O grande problema da internet é que ela tende à superficialidade, à fragmentação”, entrevista com José Castello

Sem dúvida, ele é um dos mais importantes nomes do jornalismo literário brasileiro. Ao longo de mais de trinta anos de carreira, esteve em contato com grandes figuras do universo das letras, trabalhando em diferentes veículos da imprensa carioca e paulista (atualmente dividido entre os jornais O Globo, do Rio de Janeiro; e Rascunho, de Curitiba, em acordo com ambos os veículos).

Sua estreia como escritor sucedeu em 1993 com a primeira biografia escrita sobre o poeta e músico Vinicius de Moraes, intitulada Vinicius de Moraes: o poeta da paixão (Companhia das Letras; Prêmio Jabuti de Literatura), e desde então não parou mais. Ao todo já foram mais de nove títulos publicados, dentre eles: João Cabral de Melo Neto — O homem sem alma (Rocco), Inventário das sombras (Record), Fantasma (Record), Literatura na poltrona (Record) e Ribamar (Bertrand Brasil; Prêmio Jabuti de Literatura), que transitam entre os gêneros: crônica, ensaio e ficção. Leia mais

“Continuamos caminhando pro precipício, sabendo que estamos indo pra lá” – Entrevista com Bernardo Carvalho

São vinte anos de carreira e onze livros de ficção, todos publicados pela Companhia das Letras – um de contos, dez romances. Onze também é o título do primeiro romance de Bernardo Carvalho, escritor premiado com a maior parte dos mais prestigiosos prêmios dedicados à literatura em língua portuguesa. Jabuti? Ganhou. Portugal Telecom? Ganhou. APCA? Ganhou. São Paulo? Finalista. A coincidência numérica 1 leva o leitor comum – que se aventura pela primeira vez a entrevistar um dos autores pelos quais é meio obcecado – a perguntar-lhe sobre relações entre o novo romance 2 e suas obras anteriores.

O autor não poderia ter correspondido melhor às expectativas.

Eis a entrevista. Leia mais

  1. Um pouco forçada, diga-se de passagem. Há ainda outro livro dele, editado pela PubliFolha, composto de resenhas, críticas e algumas ficções: O mundo fora dos eixos (2005). Não sendo este um livro de ficção per se, omito-o.
  2. A resenha sobre Reprodução sairá em breve.

“O grande desafio é ampliar o interesse do público pelo tema sem banalizar o conteúdo” – Entrevista com Laurentino Gomes

Em 1808, ele falou sobre a chegada da família real portuguesa nesta terra mãe gentil – ainda que colônia, decadente pela pobreza, pelo analfabetismo e pela mão de obra escrava – de palmeiras e bananeiras chamada Brasil; em 1822, chegamos à sua independência às margens do Rio Ipiranga pelo príncipe regente Dom Pedro I; e em 1889, por fim, a saída da Monarquia para se tornar República – porém, ao contrário da própria data consolidada para a proclamação, o país só foi oficialmente tornar-se uma legítima República em 16 de novembro daquele ano, não no dia anterior.

Se História até então era um dos assuntos, dito por alguns, pouco valorizados por uma grande parcela da população brasileira, o jornalista e escritor Laurentino Gomes mostrou que eram percepções um pouco equivocadas, ou se não, de que faltava, ao menos, alguém que escrevesse um livro de História que despertasse realmente o interesse, não apenas dos aficionados pelo assunto, mas por aquela já dita parcela, que provavelmente passou de ano nas provas escolares à base do decoreba, quando não da própria cola. Leia mais

“A literatura brasileira contemporânea não resiste às mazelas da sociedade brasileira, mas as reproduz.” – Entrevista com Ricardo Lísias

Ficção ou autoficção? É a pergunta que muitos leitores e críticos literários têm se feito ao debruçar-se nos últimos livros publicados de Ricardo Lísias. Ele, por sua vez, nega seu suposto autoficcionismo, e diz algo que, soberanamente, faz todo o sentido no conceito estético de sua prosa, remetendo-me a esta conclusão: de que independente se os fatos ocorridos na vida íntima do escritor são usados (ou inspiram) em sua produção literária, logo quando registrados para o papel, todo um determinado senso de uma “possível legitimidade com os fatos reais” se dissipa, de alguma maneira, numa flexão metamórfica entre o terreno do “real” e o “ficcional”, uma vez que a captação do “factual”, dos segundos e minutos efêmeros que sempre sucedem a um novo episódio de nossas vidas, mesmo num livro de memórias, não exibe a mesma projeção do que já se foi.

O que foi é fruto de estória – com E ou H, como quiser –, porque mesmo buscando a fidelidade da coisa em si, ela naturalmente se perde com o “não tudo” que foi capturado. Principalmente quando há outras personagens envolvidas. Nesse sentido, é muito fácil perceber que sobre o olhar dos outros algumas percepções do tempo e espaço podem parecer distintas de quem toma a voz protagonista para interpretá-las, ainda que dentro de um mesmo contexto. E a realidade, não diferente da literatura, venhamos e convenhamos, é para lá de complexa e subjetiva.

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