Tempos de fratura

em 13 de junho de 2013

Informações

  • Autor: Eric Hobsbawm
  • Tradutor: Berilo Vargas
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 360
  • Ano de Lançamento: 2013
  • Preço Sugerido: R$ 39,50

A morte de Hobsbawm no ano passado certamente foi uma perda inestimável não só para a historiografia como também para os debates sobre a contemporaneidade. Basta olhar a vastidão de sua obra e, mais do que isso, seu olhar certeiro sobre a constituição histórica de nosso mundo para se ter uma ideia da colossal contribuição de Hobsbawm para a compreensão e crítica da realidade. Desde a Revolução Francesa no final do século XVIII até os confusos primeiros anos do século XXI, a trajetória humana foi meticulosamente investigada pelo historiador inglês.

Diante dessa respeitosa carreira de pesquisador e analista da história humana é que a coletânea de ensaios Tempos fraturados aparece. O subtítulo indica as áreas e temas mais abrangentes desses escritos: cultura e sociedade no século XX. Embora sejam temas passíveis de uma vastidão de abordagens e concepções, Hobsbawm segue firme na linha analítica que seguiu ao longo de toda a sua produção, o marxismo.

Os textos reunidos no livro são palestras, artigos, ensaios e resenhas construídos ao longo de um período considerável, de modo que refletem a longa preparação da escrita de Hobsbawm e também a férrea sabatina à qual o autor os deve ter submetido.

O apuro das interpretações de Hobsbawm com relação aos diversos temas e assuntos dos quais o livro trata mostra como os escritos de Marx, ainda que oriundos do longínquo século XIX, possuem uma atualidade assombrosa. O desenvolvimento da sociedade de consumo de massa, quando vista sob a ótica marxista, surge não como a simples consolidação de um modelo econômico, mas como uma experiência humana – histórica e social, portanto – que se estende sobre os mais diversos rincões da vida, tanto em suas circunvoluções estruturais quanto em seus desdobramentos práticos.

Assim, delineia-se uma abordagem lúcida e erudita, que sabe muito bem qual peso dar aos eventos históricos e as apreensões humanas em relação a eles. Hobsbawm não é dado a abstrações teóricas para explicar eventos humanos, precisamente porque afastar-se da materialidade prática da natureza deles é obscurecer ainda mais o caótico emaranhado que os constitui. Embora saibamos que existem poderosos argumentos teóricos a orientar suas abordagens, eles somente transparecem no texto à medida em que a pesquisa de situações práticas – a empiria – vai fazendo-os necessários.

O resultado disso é um texto leve mas dotado de uma poderosa carga de análise, calcada na erudição de Hobsbawm e em seu notável talento de perceber os pontos nevrálgicos de qualquer assunto que analise, ao invés de somente conjeturar em torno deles.

Uma das questões que se apresentam como centrais para a compreensão da argumentação do autor em relação à cultura e à arte no século XX – além do advento da sociedade de consumo de massa –, é a concepção de arte existente no século XIX, no que Hobsbawm chamou de “civilização burguesa europeia”. Compreender a maneira como aquela concepção de arte foi posta em xeque por outra é uma das tarefas primordiais do leitor para adentrar nas discussões de Hobsbawm.

A arte do século XIX permanece como um parâmetro para o cotejo da arte do século XX. Aquela se modificou porque o “(…) desenvolvimento de sociedades nas quais uma economia tecnoindustrializada imerge nossa vida em experiências universais, constantes e onipresentes de informação e produção cultural – de som, imagem, palavra, memória e símbolos – é, historicamente, inédito.” (p. 14) Ou seja, trata-se de um fenômeno histórico recente, que continua se desdobrando de maneira que nossas interpretações sejam sempre acopladas à historicidade proximal delas próprias.

Ao falar do tipo de cultura que havia no século XIX, o historiador escreve que ele “(…) consistia essencialmente num cânone de ‘obras’ individuais de aceitação geral, criadas por artistas incomuns de grande habilidade e, idealmente, de gênio (…) E esse corpus de arte superior não era para ser simplesmente desfrutado, mas absorvido com emoção estética e espiritual, pelo indivíduo-cidadão (…)” (p. 182) Havia, portanto, um tipo diferente de cultura como parte de um todo sócio-histórico em que não somente eram distintos os artistas, mas também o público.

Essa concepção de arte, típica da civilização burguesa europeia do século XIX, diminuiu consideravelmente no século XX e ainda mais no século XXI, enquanto a cultura de massa assomou como parte de uma nova experiência existencial imersa numa sociedade de consumo cada vez mais ampla e profundamente partícipe do cotidiano das pessoas.

Parte dessas mudanças advém da atuação das vanguardas no início do século XX, as quais, mais do que propor algo novo para modernizar as artes, procuraram demolir o estatuto da arte. O mictório de Duchamp e os dadaístas, por exemplo, contribuíram para borrar de tal maneira o que se entende por “arte” que ensejaram uma relativização do termo e de seu campo, uma vez que se tudo se tornou arte, ao mesmo tempo, nada o é.

Acautelemo-nos, porém, contra simplificações: não se pode impingir todo o ônus das transformações às vanguardas, mas sim – e talvez principalmente – ao desenvolvimento da sociedade de consumo de massa. A multiplicidade de temas e ensaios contribuiu para mostrar as várias facetas que esse processo assume e como ele atua de maneiras distintas. Não se trata somente do problema da arte em si, mas de mudanças profundas ns dinâmicas sociais e nos homens enquanto seres cognoscentes. Cada vez menos a arte é fruto da observação, trabalho e retrabalho de um artista sensível e consciente dos valores típicos da arte – tais como “verdade, beleza e catarse” (p. 14). Cada vez mais a arte se modifica diante das imperiosidades do consumo de massa, sendo crescentemente contabilizada na férrea matemática do capital.

Se trata, sem dúvida alguma, de um processo atual e muito complexo. Se trata de um processo ainda em desdobramento, e que, tendo já uma relativamente longa trajetória histórica, encerra uma crescente complexidade que não se vê contemplada em abordagens unívocas ou simples demais. As discussões presentes nos demais ensaios da coletânea servem também para deslindar outras facetas desse panorama de mudanças. Os ensaios sobre Pop art ou sobre Art nouveau, por exemplo, são belos exemplos de leituras historiográficas sobre a arte, mas também interpretações que tocam na questão central que conduz a coletânea como um todo.

Tempos fraturados, como o título indica, fala sobre um tempo em que as discrepâncias são o elemento de unidade virtual. O “breve século XX” tem mais essa faceta descoberta e explorada, e as conclusões e interpretações construídas a partir dela reforçam o caráter histórico singular que Hobsbawm denominou como sendo o da “Era dos extremos”: tanto acontecendo em tão pouco tempo, e com tamanha disparidade em seu caráter e em sua natureza.

2 comentários para “Tempos de fratura

  1. Poxa, acho o título desse livro um barato… E é bom saber que os temas por ele tratados são temas dos quais me interesso — caso contrário, a leitura poderia vir a contragosto.

    Gostei também do título do seu texto. Achei que você fez uma intertextualidade muito boa com o livro do Hobsbawn a partir de um detalhe pequeno. É como se, no âmago dos Tempos Fraturados, existisse um Tempo de Fratura, isto é, um tempo onde a Fratura é o mais evidente.

    • Pode comprar sem medo, Mavericco, é um livro muito bom e muito acertado no tom e na construção dos argumentos. Além do mais, uma vida inteira de erudição, pesquisa e escrita não resultam em coisas pequenas, ainda mais em se tratando de um sujeito tão sábio quanto o Hobsbawm.

      Ele estabelece chaves analíticas e eixos de interpretação que, por mais que tenham de conviver com o fratura factual, organizam o pensamento e guiam a percepção da raiz dos problemas. Ele se centra não no fato de que o processo não encontra-se totalmente desdobrado para que possamos entendê-lo em sua plenitude, mas sim nos fatos que, até agora, apresentam solidez epistemológica o suficiente para que possamos neles se apoiar.

      A recorrência de termos como dissolução, liquidação, fragmentação, atomização, desagregação, destruição e, agora, fratura, mostra como essa unidade tem se tornado um problema de grande envergadura na contemporaneidade. A escolha do Bauman pelo ‘líquido’ como metáfora possível da situação atual é também significativo nesse sentido, as coisas parecem ser fluidas ou etereas demais para que possamos retê-las nas mãos. Uma das melhores coisas é que Hobsbawm fala disso tudo sem se deixar seduzir pelo fatalismo.

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