Luiz Biajoni, da marginalidade literária às prateleiras tradicionais

em 9 de setembro de 2013

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Ele foi recusado por 16 editoras. Sim, 16 editoras. De fato, a vida da grande maioria dos aspirantes a escritores nunca foi fácil  nem para os que hoje são reconhecidos e considerados renomados , e para o jornalista e escritor Luiz Biajoni não foi diferente. Em seu caso, seria menos ainda, já que o título de sua primeira prosa soava um tanto quanto constrangedor. Tratava-se de Sexo anal – uma novela marrom (2004/2005).

Sim, era exatamente esse o título que ostentava sua primeira obra de ficção, uma trama pornô-policial, como o escritor a define, onde uma jovem jornalista descobre o prazer através do sexo anal, e é escalada para cobrir ao lado de um experiente jornalista de casos policiais um homicídio envolvendo estupro.

Sexo anal apresenta momentos cômicos, que oscilam entre a pornografia e o grotesco (uma versão contemporânea, eu diria, da prosa marginal do João de Minas), onde tudo é explicitado, sem meias delongas, em uma linguagem simples e ágil de meandros rocambolescos.

O livro fazia referência ao considerado jornalismo marrom, um tipo de imprensa que se restringe apenas a fatos de natureza sanguinária, temas escabrosos e demasiadamente sensacionalistas. No entanto, não convenceu nenhum dos editores que o escritor procurara para que, de fato, viesse a ser publicado. O jeito então foi disponibilizá-lo de modo gratuito na internet. O resultado: mais de 20 mil downloads, fazendo de Luiz Biajoni um fenômeno literário da rede. Sendo citado e elogiado por jornalistas, blogueiros e leitores do país.

 

            “Eu tinha acabado de botar o livro para download gratuito no meu blog e aconteceram milhares de downloads. Uma pequena editora paulistana quis publicar e fez uma edição pequena, em formato pocket. Enquanto tudo isso acontecia, tive a ideia de fazer um livro meio que oposto a “Sexo Anal”, aproveitando alguns personagens. A editora paulistana lançou este também, mas fechou em seguida”, relatou Biajoni em entrevista exclusiva concedida para o site Posfácio.

 

O tal livro era nada mais, nada menos que Buceta – uma novela cor de rosa (2006).

Quanto à reação dos familiares, o escritor paulista nascido em Americana respondeu:

 

 

“Os livros resultaram em algum incômodo no começo, mas depois todos se habituaram. Minha filha mais velha tinha 13 anos quando “Sexo Anal” saiu. Com 15 eu deixei que ela lesse, desde então ela é minha grande leitora, colaboradora, dá palpites. Minha mãe queria que eu escrevesse livros normais. Mas…”

 

Após as duas novelas pornô-policiais, Biajoni publicou Virgínia Berlim – uma experiência (2007), que teve uma tiragem mínima de 250 exemplares rapidamente esgotados, e trazia consigo um CD com canções de músicos como Lou Reed, Nick Cave, entre outros, a fim de sonorizar um breve relato  uma experiência , em primeira pessoa, de um homem e do seu envolvimento com uma jovem colega de escritório.

Embora menos esteticamente esdrúxulo que os seus dois primeiros livros (a começar pelo título), sua terceira novela não deixou de ser um projeto irreverente, embora o escritor o tenha definido na própria entrevista como “uma inconsequência”.

Uma inconsequência que merecia ganhar uma nova edição, pois o livro, de fato, é muito bom. Como poderia classificá-lo? Ágil, misterioso, sedutor e cinematográfico. Daria um belo curta-metragem.

 

            “Só acho que vale a pena se for para fazer algo novo, fresco, original. Se for para copiar, chupar, não vale. Foi difícil achar o tom, não usar jeitão sacana do Nelson Rodrigues ou as bossas linguísticas do Rubem Fonseca, mas acho que eles são minhas duas referências. Gosto de grande narradores, com sabor realista e níveis de leitura, e não gosto de cabecismo, de intelectualismos vazios. Gosto de literatura pop, mas só para ler: quando comecei Nick Hornby imperava e eu me esforcei para não fazer igual, para não fazer citações pop ad infinitum”, disse Biajoni com relação aos seus livros.

 

Quando perguntado sobre quando descobriu o talento para a ficção, o escritor respondeu:

“Quando acabou o segundo casamento e eu não tinha nada a perder. Quando você tem que trabalhar, cuidar de filhos, fazer compras, tourear a TPM da esposa, etc, fica difícil escrever. Quando me separei, tive tempo para escrever. Depois que casei de novo, procuro esse tempo. Por sorte, minha esposa é compreensiva e me apoia, deixando que eu me ausente para escrever.”

 

A excentricidade descomedida de sua prosa chegou às mãos do diretor Marcelo Laffitte, que buscava exatamente um livro de ficção brasileiro à la mode Biajoni de ser. E foi com a leitura de Sexo anal que surgiu o convite para que o autor escrevesse um romance inspirado no filme que o diretor terminava de produzir  tratava-se do premiado Elvis e Madona (2010), que relata a história de amor de uma travesti e uma lésbica.

“Laffitte leu Sexo Anal e me mandou um e-mail. Nos falamos por telefone, ele me passou o roteiro e me instigou a escrever o livro. Como os personagens eram interessantes e dialogavam com meu universo, aceitei o desafio. Quis escrever um livro que desse a impressão que o filme é que tinha sido inspirado nele, e não o contrário. Como Laffitte deu carta branca, criei a história pregressa dos dois personagens e mudei o final do livro. Vinguei todos os autores que tiveram seus livros modificados por cineastas inescrupulosos”, relatou com bom humor o escritor.

O romance Elvis e Madona – uma novela lilás foi publicado pela editora carioca Língua geral, no mesmo ano de exibição do filme, marcando a estreia de Biajoni nas livrarias.

Sobre o que lhe motiva a escrever ficção, Biajoni afirmou: “Contar boas histórias, histórias que divirtam o leitor, que gerem um bom papo entre amigos depois. E que resultem em livros que permaneçam, que possam ser lido por gerações e provoquem questionamentos. Fiquei feliz quando soube que “Sexo Anal” estava sendo discutido em cursos de jornalismo. Não gosto de livros escritos para que escritores leiam: tem que atingir público, gente.”

Ainda na entrevista o escritor adiantou que fechou uma parceira com a editora Língua Geral, a mesma de seu último romance, que republicará, em novembro deste ano, seus dois primeiros livros (até então considerados marginais), com um novo trabalho de edição e revisão, e que virão reunidos com o inédito Boquete – uma novela vermelha, formando assim uma descomedida trilogia; para a alegria de seus leitores que terão Sexo anal, Buceta e Boquete, tudo em um único pacote, digo, no mesmo livro. Que maravilha!

5 comentários para “Luiz Biajoni, da marginalidade literária às prateleiras tradicionais

  1. Sou fä desde sempre e agora mais orgulhosa! Para algo os lugares comuns se tornaram comuns, teve sentido qdo alguém disse pela primeira vez sobre o gosto que dá as coisas batalhadas.

  2. Resumindo os livros do Biajoni em uma palavra: geniais.
    Tive o prazer de ler todos eles e o digo por experiência própria, Biajoni nasceu para polemizar e faz isso com destreza através da escrita.

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