O mundo dos pesadelos de Lovecraft

em 10 de outubro de 2013

por Humberto Schubert Coelho

Para os jogadores de roleplaying games Lovecraft é o criador de Cthulhu. Para os fãs de Sidney Sheldon é o grande inspirador de seu autor favorito. Para a geração de escritores de estórias fantásticas da primeira metade do século XX é a figura mais original do século. E para o leitor de hoje, infelizmente, o criador do gênero horror cósmico já não desponta como fenômeno diferenciado ou digno de nota frente a inúmeros outros escritores hoje aclamados como Somerset Maugham, Bulgákov, James Joyce, Machado de Assis, Thomas Mann ou até mesmo seu amigo mais popular, Robert Howard. Embora cada um destes autores tenha se assemelhado a Lovecraft em certo sentido, embalados pela época que viu o nascimento da psicologia ao lado de um surto de espiritualismo místico, todos eles souberam moderar suas paixões oníricas o bastante para que se adequassem ainda a uma sociedade que mantinha certos “limites”, ou ainda – uma interpretação que sinceramente prefiro – não mergulharam tão profundamente nos mistérios da mente subliminar a ponto de perderem a quota suficiente de sanidade e juízo que é cobrada para cruzar o pórtico da terra dos sonhos e pesadelos.

Howard Phillips Lovecraft (1890-1937) foi o estereótipo do escritor de suspense, horror e fantasia macabra. Franzino, de saúde debilíssima, melancólico, colecionador de transtornos mentais coroados por pesadelos que quase o chegavam a matar, tinha tudo para oscilar entre uma vida disfuncional e a poesia depressiva de início do século.

Sua infância foi marcada (e devastada) pela internação do pai em sanatório quando ele tinha apenas três anos de idade. Como o pequeno fosse gênio prodígio, capaz de memorizar muitos poemas desde esta idade, autorando os seus próprios a partir dos cinco ou seis e percorrendo os tomos de astronomia, mitologia, química e história romana enquanto as demais crianças aprendiam a ler, não lhe escapou da consciência funda e sensível o martírio da mãe, que não podia se sustentar sozinha, e do próprio pai, de quem ouvia apenas as notícias mais tristes até a morte deste, quando Lovecraft contava nove anos.

Aquela era, no entanto, uma época em que, apesar de toda a depressão pairando na cultura, os sofrimentos atrozes produziam mais artistas, cientistas e líderes do que rebeldes sem causa ou jovens desiludidos. E frente aos ataques de fraqueza e febre que quase lhe furtavam a vida, ele sabia sublimar as sombras da morte com uma grande série de protagonistas dispostos a assumir o lugar de seu criador.

Na verdade, a morte é um resultado que a maioria destes personagens, afligidos pelos mesmos pensamentos e sonhos que seu autor, até mesmo se lamentavam por não alcançar, sendo muitas vezes preferível em comparação à existência torturante vivida por aqueles que eram amaldiçoados com uma quantidade excessiva de conhecimento sobre a alma humana.

Escreveu somente o que viveu, e viveu de acordo com o que escrevia, o que é de espantar em se falando de um autor de ficção fantástica.

Sua vida tristonha, conturbada e assombrada por pesadelos que o levavam às raias da loucura, tinha tudo para terminar como a do amigo de correspondência Robert Howard, com a tragédia do suicídio, ou arrastar-se entre problemas de saúde e crises depressivas, como a de seu maior ídolo, Poe. Lovecraft, contudo, era um homem raríssimo, feito da rígida fibra moral dos otimistas, o que o capacitava para uma vida relativamente estável, e tendo a imaginação povoada por fantasmas só conhecidos dos pessimistas.

Como outros autores do período, sua Weltanschauung reunia fortes traços do esoterismo dos anos 1900 a 1940, com referências veladas à reencarnação, possessões por espíritos ou “outras forças”, alienígenas, civilizações perdidas, malditas e esquecidas, cidades escondidas no Himalaia ou no Quênia, e todos aqueles elementos que tão bem inspiraram Indiana Jones e outros mitos mais populares.

É um dos autores maiores – senão pela maestria da língua ao menos pela consciência de época – do período mágico que reúne Freud, Nietzsche, as descobertas no Egito, as pesquisas em metapsíquica e parapsicologia, o fortalecimento da antropologia, as primeiras intuições sobre o monomito, boatos de lulas gigantes, yetis e serpentes de trinta metros na Amazônia… Um momento em que tanto o autor quanto o leitor de obras de ficção parava aterrado diante de estórias obscuras e se perguntava seriamente se não eram reminiscências de outras vidas, intuições transmitidas às mentes humanas por forças maiores ou “apenas” inspirações que mais tarde se revelariam compatíveis com as mais novas descobertas arqueológicas ou psíquicas. Um momento em que escrever era tudo exceto inventar.

Os sonhos e o horror cósmico

Como diletante profundamente culto que dispensava a mera ideia de encontrar um emprego convencional que o pudesse sustentar, capaz de sonhar sagas inteiras faladas apenas em latim e ávido leitor do que havia de mais recente em praticamente todas as ciências humanas, Lovecraft não poderia deixar de produzir sua própria visão filosófica independente, e mesmo que ela fosse bastante similar ao que então se produzia academicamente, guarda também dimensões originalíssimas e dignas de estudos especializados.

É difícil dizer sequer se se trata propriamente de uma filosofia, psicologia ou uma forma leiga de expressar a natureza do mundo e da mente, mas o fato é que as teorias de Lovecraft sobre o universo espelhavam total e incondicionalmente o mundo inteiramente “alienígena” de seus contos.

Recusando-se terminantemente a se considerar um doente mental, interpretou os pesadelos excêntricos que o caracterizaram desde a tenra infância como um estado mental propício à captar a dimensão paralela que provém os sonhos. Os “sonhadores profissionais”, como ele definia o seleto grupo no qual se incluía, seriam aqueles indivíduos dotados de um dom só a muito custo passível de desenvolvimento, que lhes permitia cruzar a barreira tênue que nos separa, gado confuso que somos, do mundo das criaturas ancestrais e muitíssimo mais inteligentes que nos enviam sonhos, e dos quais só suspeitamos quando somos sonhadores experimentados.

Ao afirmar que suas vivências oníricas tinham tão ou mais realidade que a existência objetiva, Lovecraft, mais do que evocar as prerrogativas do artista, está a conectar sua obra com a então recente reflexão sobre o “mundo da vida”, contrapondo-se ao positivismo e ao seu desdobramento psicológico, a psicanálise, que tenta reduzir os sonhos, a imaginação, as existências verdadeiramente subjetivas, a elementos concretos apetecidos, desejados.

Lovecraft era um homem bom, com gosto para a beleza, a dignidade humana e a racionalidade. Não fosse isso e ele talvez não sentisse tão pesadamente as consequências de seus pesadelos. Um homem mais frívolo ou um pervertido os teria adorado, e eles teriam inevitavelmente um aspecto de filmes B, dada a simplicidade da maioria de suas narrativas e o quão constrangedoramente escabrosas tendem a ser as criaturas nelas apresentadas.

O homem pacato e sensível que nutria virtudes mais do que civis, dignas de um idealista, ajudou a emprestar aos seus contos um asco, uma indignação, um quê de terror legítimo diante de sombras que teriam passado despercebidas ou se mostrariam risíveis sob o prisma de uma personalidade mais cínica ou teatral.

Em suma, o que em outras circunstâncias constituiria tão somente o primeiro capítulo de um livro de Sidnei Sheldon, um trailer de filme de possessão capaz de dar um breve arrepio antes de ser esquecido, ganha, sob a pena de Lovecraft, uma dimensão escandalosa. Seus monstros podem até não nos atemorizar, mas despertam em nós o senso que discrimina entre o natural e o bizarro, o plausível e o inaceitável. E esta impressão filosófica, de uma ilegitimidade cósmica, tem prioridade sobre as sensações de angústia, medo e desesperança que costumeiramente caracterizam as estórias de horror.

É, portanto, inteiramente justificada a criação de um novo termo para designar seu estilo: horror cósmico; aquele onde mais importante do que a monstruosidade em si são as implicações filosóficas que sua existência acarreta.

Ao passo que o serial killer (humano, vampiro, espírito…) que nos persegue em um enredo típico ameaça nossa existência pessoal, a monstruosidade lovecraftiana é imediatamente associada à ordem do mundo, tornando-se um precedente para divagações metafísicas.

Se a abominação existe, então somos apenas seu gado. Então nossos valores e princípios não possuem qualquer significado, estando submetidos aos daquela raça superior que nos preda. Então a vida humana não possui qualquer sentido último além de um sonho sonhado por uma colônia de insetos enquanto engenheiros planejam uma terraplanagem. Então…

Com isto se torna compreensível outra característica distintiva e central do estilo de Lovecraft, a insanidade provocada pelo contato com o sobrenatural.

Heróis lovecraftianos não enfrentam monstros, não reagem, não levam um breve susto e se refazem. Eles ou morrem, ou enlouquecem – neste caso presume-se que o monstro não os quis destruir ou seus corpos possuídos pela adrenalina realizaram a fuga sem a participação de suas já destruídas mentes.

As descrições destes processos de ensandecimento são tão primorosas que somente uma mente igualmente louca os poderia conceber com tanta riqueza de detalhe e vivacidade. E como a empatia literária depende em certa medida de uma identidade prévia de caráter, visão de mundo e psicologia, é bem provável que uma dose razoável de insanidade seja pré-requisito para a fruição destas passagens.

Isso está subentendido tanto nos contos quanto nas longas cartas escritas por Lovecraft a seus maiores amigos. O homem “são” não é digno de nota, ele não vale o esforço de uma tentativa de explicação. Só o atormentado, o louco, aquele que sente os arrepios do oculto e tem a certeza de que os espectros de Poe têm vida em alguma dimensão próxima à nossa, mas geralmente só acessível nos sonhos, só a este iniciado estão reservados os segredos mais básicos das mentes cósmicas e dos povos primigênios que habitaram a Terra antes do homem.

O interno dos sanatórios, por sua vez, particularmente o paranoico e o esquizofrênico, é visto por Lovecraft com olhos sabedores, solidários e aflitos. Ele captava já (talvez tenha criado) esta tendência da cultura moderna tão bem sucedida entre os americanos de desconfiar das relações entre o Estado, as sociedades secretas, os alienígenas e as tartarugas das Galápagos. Esta consciência de que os jornais, o diário oficial da União e os professores universitários são os veículos primários da ilusão, enquanto os hospícios, as revistas de contos fantásticos e as tábuas de milhares de anos cunhadas em línguas incompreensíveis seriam as únicas portas de acesso a uma réstia de verdade.

[Mais sobre Lovecraft e suas obras amanhã no Posfácio]

Sobre o colaborador: Apaixonado pela literatura moderna, com destaque para os clássicos que fundaram os vernáculos, os romances do século dezenove e a escrita introspectiva das autobiografias, sermões e tratados psicológicos e filosóficos de veia literária. Paralelamente, tem interesse em contos de fantasia, terror e ficção científica; preferencialmente quando os três gêneros estão reunidos. Procura escrever sobre as angústias humanas, mas sob uma perspectiva idealista acerca da humanidade.

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