“O mundo literário segue sendo acentuadamente patriarcal e falocêntrico” – entrevista com Monique Revillion

em 17 de dezembro de 2013

Monique Revillion, este é o seu nome. Uma escritora natural de Porto Alegre, nascida em 1960, e que desde pequena revela-se uma apaixonada pelos livros, embora tenha começado a escrever tardiamente, segundo ela. Contudo, sua estreia nas letras, depois dos quarenta, com Teresa, que esperava as uvas (Geração Editorial), concedeu-lhe o Prêmio Açorianos de Literatura 2006, nas categorias Contos e Livro do Ano.

Tanto em seu primeiro quanto ao mais recente livro, O Deus dos insetos (Dublinense), é notório nos contos de Revillion uma escrita vigorosa, madura, delicada e paradoxalmente pungente, apresentando um caleidoscópio de sensações que nos afunila ao mais intrínseco e latente da condição humana. Trabalha sobre uma linha tênue de ficção que se mistura entre a prosa poética e intimista, longe dos floreios desnecessários e de uma escrita que, muitas vezes, por este terreno, possa soar, para muitos, pretensiosa e demasiado hermética.

A construção de seu universo temático, que é múltiplo, nos comove e ao mesmo tempo nos repele por registrar a violência e, sobretudo, a solidão de que todos nós, por algum momento, podemos estar acometidos. Suas estórias falam sobre os nossos silêncios interiores, que poucos escritores conseguem concatenar com grande perfeição no terreno das palavras.

Embora sua feminilidade obviamente apareça explícita, sua escrita foge de qualquer catalogação piegas daquilo que poderíamos classificar de uma literatura propriamente dita feminina. Monique Revillion isola o caos cotidiano e nos aproxima, através de suas personagens — homens, mulheres, velhos, jovens e crianças —, de nós mesmos e de uma realidade crua que está a nossa volta — muitas vezes às cegas de nossos olhos.

Deus dos Insetos só confirma o que fora mostrado no conjunto primoroso de breves e profundas estórias apresentadas em sua primeira antologia de contos: uma escritora de maestria, tornando-a um dos nomes de destaque entre as grandes prosadoras da literatura contemporânea brasileira.

Em entrevista exclusiva para o Posfácio, Monique Revillion fala sobre seu processo criativo, suas referências literárias, a preferência em escrever contos e o preconceito que algumas escritoras ainda enfrentam dentro da literatura.

Quando surgiu o interesse pela literatura e, sobretudo, a descoberta pessoal desse lado artístico voltado para a escrita?

 

M.R.: Comecei, como muitos, a escrever diários, poemas e fragmentos ainda na infância. Mas era, é claro, algo despretensioso, embora eu sempre tenha tido um fascínio pela literatura, pelos livros e pelos escritores. Freqüentava a biblioteca de minha escola e me sentia em um templo, com todos aqueles livros, o silêncio, a ordem, tantas vozes encadernadas a serem descobertas. Meus primeiros textos estruturados, formatados na forma de contos ou de poemas mais maduros, escrevi já adulta, com meus filhos já crescidos. Descobri, então, um grande prazer em escrever, são momentos de muita entrega, de canalização de uma imensa energia, mas eu terminava um texto e não fazia ideia se o que eu produzia tinha algum valor.  Por muito tempo, fui enchendo gavetas e pastas de computador, até que me entusiasmei a participar de uma oficina literária, quando comecei a mostrar meus escritos, a participar de concursos, soltar meus textos no mundo. E foi assim que tudo começou.

 

Em seus dois livros, tanto em Teresa, que esperava as uvas quanto no mais recente O Deus dos insetos, o que mais me chamou a atenção foram as temáticas trabalhadas, que oscilam entre a delicadeza e a pungência. Há sempre um aniquilamento do bem estar da vida cotidiana. Como se ao pararmos para analisar o mundo em seus pequenos aspectos, por alguns instantes, encontrássemos dentro desse caos exterior uma solidão tal que estivéssemos sempre sujeitos a ter que conviver com ela ou ingeri-la. Como chega essa inspiração tão minuciosa em escrever estórias que mesclam diferentes realidades, onde a introspecção, a solidão, a ruptura e a tristeza estão sempre atreladas?

 

M.R.: Creio que carrego traços um tanto melancólicos, embora minha visão de mundo não seja pessimista. Por outro lado, não acredito em realidades planas, na felicidade estática, a vida é turbulência, conflito, e não existe luz sem escuridão. Gosto de mergulhar na maravilhosa complexidade do humano, em suas contradições, esquadrinhar os sentimentos que nos movem; perceber o que há por trás de cada mínimo gesto, descobrir o céu e o inferno de cada um. As pessoas me comovem. Me apaixono pela senhorinha com quem cruzo no supermercado, paraliso o tempo para observar como ela se move, sua hesitação ao puxar assunto com a promotora de vendas de iogurte, me paraliso frente a dor no olhar do sujeito atrás de mim na fila do banco, faço foco no modo com que esfrega as mãos, liga e desliga o celular, me abstraio de mim para perseguir esta alteridade, para estar sob a pele do outro e, com a máxima sinceridade, tentar calçar os seus sapatos. Minha inspiração vem desta vida que brota em todo o lugar, das pessoas com quem troco olhares ou vivências significativas, deste sentir, da emoção que é viver, sendo eu entre tantos outros eus.

 

Mesmo que não seja uma escritora pessimista, você acredita que o ser humano esteja fadado a um certo pessimismo existencial?

 

M.R: Creio que vivemos em uma época sombria, perigosa, de destruição da natureza, de superficialidades, de opressão e violência, ao mesmo tempo em que temos evoluído extraordinariamente em tantas frentes.  Nossas conquistas foram admiráveis, mas temos um grande passivo a ser remediado, incluindo nesta conta as desigualdades de todos os tipos, a alteração do clima, a ausência de direitos humanos básicos para uma grande parcela da população global, a destruição sistemática das bases de sustentação da vida na Terra, entra tantas outras consequências de nossa presença e evolução neste planeta. Apesar dos pesares, ainda confio em nossa capacidade de superação, e que há muito mais pessoas bem-intencionadas do que o contrário. Não acho que o homem de hoje esteja fadado ao pessimismo, mas que ele deveria estar fadado a uma maior consciência de suas escolhas, de sua posição em determinado tempo e espaço, o que já seria um grande começo. É preciso ter esperança, apostar na esperança, ou fenecemos.

 

O Deus dos insetos, que foi publicado este ano pela Dublinense, demorou sete anos desde o seu primeiro livro de contos. Por que esse tempo todo de um trabalho para outro? Você se considera uma escritora perfeccionista como foi o francês Gustave Flaubert?

 

M.R.: Basicamente, demorei tanto tempo pois, infelizmente, não vivo de escrever. E, durante este intervalo, estive ocupada em outras tarefas, obrigações profissionais e projetos. Foram muitas as demandas a atender e não consegui terminar o livro antes.  Só a partir de 2012, ano passado, portanto, passei a ter mais tempo e espaço para a literatura em minha vida, o que foi uma grande conquista, mas que depende de esforços diários para ser mantida. Sobre a segunda parte da pergunta, não sinto em mim esta aflição de um perfeccionismo exagerado… embora eu tenha, sim, meus caprichos. Normalmente, fermento o texto mentalmente, vou agregando ideias para que ele cresça em significado e potência, faço as escolhas necessárias até sentir que ele esteja pronto para ser escrito, mas não faço anotações. Ao sentir a história “pronta”, normalmente sento e escrevo o conto até o seu ponto final. Enquanto escrevo, uso ou descarto o que havia pensado anteriormente, e agrego contribuições que surgem durante a fixação do texto. Este é um momento mágico a ser desfrutado, de liberdade, de criação, quando todos os meus recursos estarão à disposição para honrar aquela história, suas personagens, tentando fazer dela sua melhor versão, dentro de minhas possibilidades. Então deixo o texto decantar por alguns dias e volto a ele para fazer a limpeza de tudo o que não me agrade, do que sobra, do que excede na forma previamente idealizada por mim, para alcançar a inteireza que cada autor cabe dar ao que escreve.

 

Conversamos antes desta entrevista, e eu usei um termo, obviamente criado por mim, em que mencionei sua literatura como dona de uma “feminilidade enganativa”. Você riu, disse que nunca tinha ouvido ninguém falar sobre o conceito. Irei te explicar. Isso me ocorreu justamente por conta da surpresa que tive ao me deparar com as suas narrativas que apresentam aparentemente uma visão de mundo com uma sensibilidade somente encontrada, pelo menos na grande maioria das vezes, em algumas escritoras femininas, inclusive, lembrou-me, em parte, o primoroso Laços de família, da Clarice Lispector — com suas peculiaridades da vida doméstica iluminadas por epifanias. Porém, essa minha concepção foi se diluindo à medida em que a violência passa a se revelar em seus contos, de forma corrosiva.

 

M.R.: Repensando a expressão e ampliando o próprio conceito subentendido em sua pergunta, creio que toda “feminilidade” é enganativa, porque se pressupõe docilidade, subserviência, ou uma visão doméstica – o reino das mulheres por excelência – limitada pelas suas paredes, de alguém que ignora a amplidão do mundo, suas esquinas e suas faces mais horrendas. Sei que não foi esta a intenção da pergunta e nem tal sentido está implícito nela, mas aproveito a indagação para comentar que é a postura de alguns, que se chocam quando a literatura assume seu poder de dar voz aos marginais, aos loucos, aos desajustados, aos desviantes em geral, desafiando uma acomodação que tenta ignorar suas existências. Assim, se tal realidade me atravessa, será enquanto literatura que tratarei de tentar dar conta dela. Citando apenas um exemplo, no conto “Uma história de M”, do livro Teresa, que esperava as uvas, narro a história de uma menina sem nome, vitima de múltiplos abandonos, e que se prostitui nas ruas de uma grande cidade brasileira… alguma novidade nisto? Infelizmente, nenhuma. Neste caso, e esta foi a minha escolha como autora, achei que a linguagem deveria acompanhar a desoladora trajetória da personagem, não podendo deixar de ser incisiva, para que significado e significante reforçassem o efeito final desejado, mesmo que tirando alguns leitores de suas zonas de conforto.

 

Dentro desse meu levantamento, acima de tudo como leitor comum, gostaria de saber como a escritora enxerga o papel da mulher atualmente dentro da literatura brasileira? Você acha que ainda há um preconceito entre alguns, justamente por acharem, talvez, que ficcionistas femininas escrevam com uma visão de mundo demasiado feminista ou para um público específico (que no caso seria para as mulheres)?

 

M.R.: Creio que há muitas mulheres escrevendo, e muito bem, mas também acho que o mundo literário segue sendo acentuadamente patriarcal e falocêntrico, em todos os sentidos. Simplificando, diria que basta procurar qualquer lista de prêmios ou destaques para observar a discrepância entre o numero de autores homens e mulheres. Obviamente, sei que tal realidade não deriva apenas desta categorização, há muitos outros fatores envolvidos, como sei que o sistema literário não se estruturou independentemente da sociedade na qual está inserido. Pessoalmente, acho que ainda temos muito o que evoluir, sem potencializar qualquer oposição entre o “feminino” e o “masculino, mas valorizando as experiências femininas, permitindo um reconhecimento completo e igualitário à sabedoria do universo feminino, deste olhar, tornando tudo muito mais rico e proveitoso para qualquer gênero e orientação sexual.  Há muitas mulheres trilhando, genuinamente e com imenso talento, este caminho. Outras que não aderiram com a mesma intensidade a qualquer tradição neste sentido. E também autores do sexo masculino sensíveis a esta temática, o que é muito interessante.

 

O que a escritora achou de no Prêmio Nobel deste ano ter sido agraciada uma contista, um feito inédito na história do Prêmio? Você acha que isso ajuda, em termos de mercado, ao conto ser mais valorizado, já que sempre o romance acaba sendo o gênero de maior aceitação entre os leitores?

 

M.R.: Vibrei com a escolha, já sendo fã de Alice Munro, uma habilidosa prosadora especializada em narrativas curtas. Reconhecida como contista, apesar de ter um romance publicado, sua escolha representou também um Nobel para o conto, o que ajuda a valorizar o gênero, certamente. Tenho minhas dúvidas, porém, se tal feito irá influenciar o mercado ou os leitores, hoje tão fechados para o conto. Também me pergunto se, no caso da escolha da academia sueca possuir tal poder de influência, com que velocidade este prestígio se configurará em mais contistas sendo publicados e em mais livros de contos nas prateleiras das livrarias. Como leitora e apreciadora do conto, espero que sim, e em breve.

 

Ter estreado na literatura já sendo premiada te ajudou a se sentir mais confiante a trilhar uma carreira como escritora?

 

M.R.: Sempre tento relativizar críticas e elogios, colocar tudo numa perspectiva o mais realista possível, mas um prêmio funciona, sim, como uma espécie de endosso, um estímulo, o que sempre garante alguma gasolina extra no motor para seguirmos a viagem. Num cenário tão volátil, em uma busca tão instável, é algo concreto a ser colocado no currículo ou na prateleira do escritório, serve como uma explicação à família, mas também é algo a ser esquecido logo após a comemoração. Entre as resenhas elogiosas que meu primeiro livro recebeu, uma veio com um conselho muito sábio, sugerindo que um escritor não deve acreditar nos elogios recebidos, acomodar-se em qualquer suposto mérito, para seguir sendo um escritor. Acredito muito nisso. Assim, valorizo e sou muito grata a toda opinião de leitor, todo comentário de colega, todo elogio e toda a critica, isso tudo alimenta, acolhe, fortalece. Mas também sei que nossos combates mais ferozes acontecem no solitário cotidiano de uma sala fechada, frente a uma tela em branco, desafiadoramente esperando uma nova palavra, outra e outra vez.

 

 Bom, tivemos dois excelentes livros de contos publicados pela nossa respectiva entrevistada, podemos esperar da Monique Revillion ainda um romance? Ou seu prazer mesmo está em escrever contos?

 

M.R.: No momento, ainda não sei. O certo é que costumo formatar, instintivamente, todo relato na estrutura de um conto, é um formato que me encanta e onde me sinto muito confortável também. Ainda não me decidi sobre meus próximos projetos, mas não descarto o desafio de uma narrativa mais longa no futuro. É uma possibilidade, apenas.

 

A escritora tem alguma mania ou ritual na hora de escrever?

M.R.: Só não consigo escrever ouvindo musica, gosto de me concentrar no ritmo interno de cada conto e de perseguir assim a melodia, depois lendo em voz alta o que escrevi para verificar onde saí do tom para recuperar a harmonia do todo.

 

Algum conto de seu último livro que tenha sido mais penoso para escrever?

M.R.: Cada conto tem sua história, suas dificuldades, seu grau de dificuldade. Terminado um livro, não tenho mais noção de qual foi mais trabalhoso, ficando apenas o registro do prazer de ter escrito cada um deles, ou do quanto eu me sinto mais ou menos satisfeita em ter conseguido traduzir e fixar a contento a intenção inicial de cada narrativa.

 

Virginia Woolf, Katherine Mansfield, Sylvia Plath, Clarice Lispector ou Hilda Hilst? E por quê?

 

M.R.: Desta lista, hoje, Katherine Mansfield, pela sutileza, pela delicadeza, pelas epifanias como vislumbres, por Bliss, e por tudo o que me ensinou em literatura.

 

Farei uma brincadeira com a escritora, nunca feita antes em nenhuma entrevista que fiz até hoje, e que pode ser que eu faça em algumas futuras. Terminaremos com a Monique Revillion completando, à sua maneira, um trecho de um parágrafo de um livro, okay? Escolhi Rilke em um de seus primorosos ensaios intitulado A melodia das coisas. A escritora completa com uma frase inventada, formulada na sua cabeça. (risos).

M.R.: Quanta responsabilidade a de interferir em um texto de Rilke! Mas, desafio aceito, vamos lá.

 

“Talvez tenha sido sempre assim. Talvez tenha sempre havido uma grande distância entre uma época e a grande arte que nela surgiu. Talvez as obras de arte tenham sido tão solitárias, como são hoje…”

 

…considerando-se que nascem sempre da sensibilidade e do afeto únicos de um artista, um criador abruptamente deslocado do senso comum, buscando, desesperadamente, a sua mais límpida verdade, a sua mais autêntica voz. E assim, tendo cedido ao fruto proibido, tendo adubado com o próprio sangue a árvore sagrada, termina por ser expulso do paraíso, condenando a si mesmo à incompreensão pela sua necessária e dolorosa ousadia.

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