Um lugar na sua cabeceira

em 20 de fevereiro de 2014

Eu quero ser o livro favorito de alguém. A coisa que eu mais desejo é sim ser o queridinho de uma pessoa, aquele que você vira a página com a ponta dos dedos pra não machucar as folhas. Mesmo que por um mês, só até a próxima leitura ou sendo eterno enquanto o parágrafo de clímax durar. Quero que alguém releia um trecho meu e me feche, olhe pro horizonte e fale ao vento seu equivalente pessoal e impactante de “caraio”.

Esse desejo é cabreiro. Literatura é a coisa mais sobrenatural de que se tem notícia. É a sua estadia em outra pessoa. Coisa mais forte que possessão, porque não há padre que tire a letra dali. A palavra que sai de você é a que chega no leitor. É uma loucura.  É extasiante. É maravilhoso – e um pouco psicótico – você ter o poder de ressoar na cabeça de alguém.

Mas ainda não basta. Tem que ter essa pegada física do livro. O leitor tem que ver e tocar cada uma das suas linhas, passar o dedo nelas. Carregar o seu peso. Você vai andar com ele no ônibus apertado, vai contar a história no seu ritmo particular. Vocês vão jantar juntos. Ele vai sonhar com você enquanto você o observa ali da cabeceira. E vai ser foda (e um pouco psicótico, novamente).

Conheci gente que escreve sobre todo tipo de coisa,  isso considerando apenas os últimos meses em que participei da Oficina de Criação Literária do Marcelino Freire. Essas pessoas falam sobre o Homem Contemporâneo e a Cidade Grande, o Homem Contemporâneo e o Amor poliamor meio amor complicado amor, o Amor e o Amor, O Tudo e o Nunca Mais, o Contemporâneo e a Metáfora bonita e bem empregada, O Parnasiano impecável e acima de tudo.

Eles são bons. Muitos deles são estrondosamente bons. Bons pro mercado? Foda-se. Bons para serem os best sellers brasileiros? Vai saber. Agora, certamente bons pra serem o livro favorito de alguém. Isso eu digo que sim. Todo mundo que tem uma história pra contar tem esse potencial.

Talvez nenhum deles, e mesmo eu, jamais termine um livro. Outros, que já publicaram, talvez não publiquem nunca mais. Pode ser que a gente acabe contando pra sempre, num balcão de bar, sobre o projeto que está engavetado “mas que vai sair um dia quem sabe”. Com esse destino mental piscando na minha cabeça durante a última semana, fiquei desesperada.

Terminada a oficina, percebi que o meu problema, e o de muitos  outros  amigos, é o medo da responsa, de simplesmente não ter o que falar na escrita, ou ser uma grande fraude e então ser recusada por todas as editoras do mundo, do universo e além. Também tinha o pavor de alguém gostar e pedir por mais e eu não ter. Ainda tenho pânico toda semana quando publico aqui. Vivo com isso toda vez que alguém me conta ou manda mensagem me elogiando. Imagine então quando escrevo na pretensão de ser um livro, ou pior, o livro favorito de alguém. É um medo que trava.

Minha sugestão pra mim mesma e para todos os que são um pouco psicóticos e desejam um lugar na cabeceira é, pelo amor de tudo, façam algo. Escrevam pras editoras e, se recusados, se autopubliquem. Se faltar verba, imprimam vocês mesmos com a impressora da firma, em uma noite de ousadia, e vão vender/doar seus exemplares no vão do Masp ou na ponte da Flip. Se tempo for o problema, usem panfletos, micropapéis. Escrevam à mão e mostrem pra um desconhecido.

Façam algo. Eu não preciso dizer sobre os grandes autores de todos os tempos que começaram assim, porque nós não queremos ser grandes autores. Queremos ser o livro favorito de alguém. Precisamos encontrar essa pessoa.

Robert Bréchon já disse: “Os escritores profissionais, cujo trabalho é instruir, informar ou divertir, dirigem-se hoje a um ‘público-alvo’, talvez depois de feito um estudo de mercado. Mas os outros, os autores de obras de criação pura, de livros inúteis, os poetas? Por que, para quem escrevem?”. Vamos escrever pra ser em qualquer outro lugar que não o nosso corpo. Para qualquer outra pessoa que não nós mesmos.

10 comentários para “Um lugar na sua cabeceira

  1. Sensacional! Pode escrever sem medo que tem tudo pra ser o livro preferido de alguém! Aquele de cabeceira mesmo! Parabéns!

    • Ingrid, belo texto. Esse cara sou eu! Leia meu livro: ADLER, o paraquedista. Posso lhe enviar pelo correio. O Arthur Tertuliano já recebeu um exemplar. como ele está sem tempo, quem sabe você lê o dele. Falei isso porque o correio está de greve. É verdade, Ingrid, eu fiz o que você sugeriu no texto. E, mais, fiz aos sessenta anos de idade. Para lhe homenagear, este pequeno e singelo poema: “PALAVRAS, elas nascem de quimeras e ideias, de contrastes e coincidências, dos limites do meu físico e da amplitude da consciência. As palavras, as palavras e o tempo me devoram.” Ingrid, grande alma, grande abraço! sucesso!

    • Ingrid, fiz mais ou menos o que o teu belo texto sugere. Publiquei meu primeiro livro aos 60 anos de idade. A emoção é indescritível e me tornei, por um bom tempo – ainda não me recuperei totalmente -, alguém como um pai ou avô de primeira viagem: coruja e se achando. Aos poucos retorno ao meu normal. Mas, custe o que custar, e se depender só de mim, publico outros futuramente. Grande texto, o seu, parece nascido de uma grande alma.

  2. Antes de escrever, fiquei cerca de meia hora ou mais encarando a tela do computador, pensando, repetindo para mim mesma “O que vou dizer? A moça já disse tudo por mim! Tudo! Não me sobraram palavras! E agora?” E agora? Como vou explicar? Sinto exatamente tudo o que você sente, mas na mesma medida – provavelmente, porque sou mais jovem e mais confusa e completamente perdida de mim mesma. Desde que eu me lembro, sempre guardei só para mim esse sonho – essa sina – de querer ser o livro preferido de alguém, de qualquer um, até mesmo da minha mãe querida que jamais me negaria o seu amor. Porém, como você escreveu lá em cima, às vezes, o medo é maior do que os nossos sonhos. Não deveria ser. Mas, já o é. Por isso, eu acho, a gente, essa espécie de escritor comunista utópico, vai escrevendo aos poucos, umas linhas em um blog e outras tantas aculá, até o medo passar. Ou o sonho se tornar maior do que o medo. Seja lá o que vier primeiro.

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