Flip is for Fitzgerald

Tem uma hora que a gente precisa se sentar e conversar: essa é a hora.

A frase anterior – e algumas das seguintes – foram escritas ainda em Paraty, quando pensei que teria paciência de ficar escrevendo na Casa Posfácio, enquanto a Flip tresloucava lá fora. O resto foi escrito em São Paulo, Curitiba, Recife e, por fim, concluída na praia de Tamandaré – sua publicação depende do wifi de uma sorveteria. De tão adiada, o editor recomendou que a coluna fosse guardada para a semana de aniversário do site. Obedeci. Leia mais

Jogando livros no Teste Bechdel

Saímos de 2014, mas 2014 não saiu da gente. Pouco depois de publicar meu último texto da hashtag #leiamulheres2014, me foi sugerido escrever sobre o Teste Bechdel. Como o teste já era familiar para mim desde que descobri o canal do YouTube Feminist Frequency – há dois vídeos específicos sobre o tema –, eu já conhecia suas regras. Para passar nele, um filme: Leia mais

Ressaca Literária

Basta seguir duas ou três editoras no instagram – ou ter amigos para os quais sua principal característica é “ser um leitor” – e pronto: você está prestes a aprender compulsoriamente novas palavras e expressões que farão parte do seu dia a dia. As pilhas de romances recém-adquiridos são justificadas pelo tsundonku crônico e as pessoas passam a ser elogiadas de forma inusitada (“Miga, você está tão livro hoje!”). Por vezes, uma imagem resume toda a aflição de não ter com quem comentar uma leitura.no fandom Leia mais

Ficando Longe do Fato de Estar Perto Demais de Tudo

Para uma pessoa completamente desorganizada, eu, às vezes, aprecio uma certa ordem no mundo, alguma confluência de fatores, uma sensação leve de que, talvez, quem sabe, exista algum tipo de orquestração do universo. Por exemplo, eu gosto de festas temáticas. Ou de quando você aprende uma palavra nova, ou descobre uma banda, e de repente ela está em todos os lugares. Tem um nome específico, esse efeito, eu só não me lembro qual é. Leia mais

Enjoo Matinal

Todo dia de manhã gostaria que fosse como o dia anterior. Todo dia de manhã gostaria que não tivesse raiado o dia. E todo dia de manhã gostaria de não ver ninguém de manhã, de tarde ou de noite. Quase todo dia na manhã penso na inspiração que me carregará por todo dia. Todo dia de manhã deixo passar pela ressaca da noite anterior. Todo dia de manhã eu desejo que o dia não se repita. Mas todo dia de manhã eu desejo que todo dia seja igual. Todo dia de manhã me pergunto do futuro e todo dia de manhã não quero pensar no futuro. Todo dia de manhã eu me preocupo, mas todo dia de manhã não calculo. Todo dia de manhã é todo dia de manhã, igual e diferente, de novidades velhas e velharias novas, das mesmas conversas ou pensamentos. Todo dia de manhã eu tenho preguiça. E todo dia de manhã quero fazer algo para mudar de vida. Toda manhã eu enjoo em pensar nas náuseas de amanhã. Todo dia de manhã mulher ou menina. E toda manhã de neblina gosto de recordação. E quando a madrugada ainda não é dia, mas todo dia com você quero compartilhar um dia, uma cama, uma vida. Todo dia de manhã vivo de amor. Mas todo dia de manhã penso que não dá. Todo dia de manhã tento lembrar o que toda a noite antes de dormir me faz pensar. Todo dia de manhã já dei um tapa. Todo dia de manhã já dei um beijo. Todo dia de manhã passo a mão pela barriga. Todo dia de manhã me preocupo em não me preocupar e todo dia de manhã continua com todo dia de tarde e todo dia de noite. Todo dia, de manhã ou de noite, sou ser humano com meu currículo completo: mesquinha, metida, egocêntrica, alterada, louca, altruísta, de bem com a vida, decidida, mal humorada, bem humorada, musa, vivida, perdida, mãe, irmã ou filha, aprendiz, professora, escritora, amante, senhora, senhorita, esquecida, lembrada, saudade, despedida…

Como salvar um ano ruim

Como medir o ano? Essa pergunta intrigou tanto civilizações antigas – que ajudaram a montar os calendários que usamos – quanto Jonathan Larson, o compositor do musical Rent. Mas como contar o ano?

Andam dizendo que 2014 foi um ano horrível. Pudera: morreu uma pá de gente importante e tivemos de nos acostumar às notícias mais bizarras. Chegou a um ponto de que nada mais nos surpreenderia. Leia mais

O que deu para fazer em matéria de #leiamulheres2014

Depois do texto de Luisa Geisler sobre o tema, julguei que não havia necessidade de mais um texto sobre a hashtag. Ela foi lá, pôs os pingos nos ii, citou Elvira Vigna, a pesquisa da professora Dalcastagné e os números do site VIDA, e apresentou alguns dos “elogios” que costuma receber.

Meu favorito é “você não escreve como as outras mulheres”. “Na verdade, eu escrevo como mulher, sim. Você que é babaca mesmo”, é a resposta que tenho pronta.

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Breve Queerlist da Literatura Brasileira Contemporânea

Como não sei o quão familiarizado você está com loucos de palestra, uso um trecho do livro de Vanessa Barbara à guisa de preâmbulo. Leia mais

Sobre homens e ilhas

“Nenhum homem é uma ilha” é um verso da Meditação XVII de John Donne, poeta inglês do século XVI. Também é um dos clichês preferidos da humanidade, repetido há tanto tempo que se torna difícil não acreditar que exista ali alguma verdade. No entanto, é uma tremenda mentira.

Alguns homens são, sim, ilhas. Alguns homens por quem passei eram definitivamente ilhas.

Nem toda ilha é minúscula, perdida e inalcançável no meio da imensidão do atlântico. Nem toda ilha tem por população apenas um pobre náufrago e um índio chamado Sexta-feira. Algumas ilhas são habitadas por cinco mil pessoas e podem ser alcançadas por simples oito horas de ônibus até Angra dos Reis, seguidas de uma hora e vinte em um catamarã. Leia mais

Sobre a utilidade dos dragões

A verdade é que seria muito mais fácil se cada um tivesse o seu dragão. Nada mais de vestibulares, nem empregos, nem dúvidas morais sobre a sonegação de impostos. Nossas vidas seriam repetidas versões do roteiro que aprendemos aos seis anos, a saber: uma caverna escura onde o mal se oculta, uma princesa aos berros (ou “inocente em perigo” equivalente), um sábio conselheiro e uma espada mágica para salvar o reino. Faltaria só emoldurar o final feliz em estilo art nouveau.

Imagine a paz de espírito quando você finalmente retirasse a espada ensanguentada do corpo da criatura destruidora e vil, enquanto o sol brilha e o vento balança seus cabelos. Nos tempos modernos, valeria até uma selfie com o cadáver do monstro ao fundo, a ser vinculada nas redes sociais com frases de autoafirmação como “missão cumprida” ou “quem é o seu rei agora?”.

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Breves notas sobre a diversidade

Ufa. Deu.1

Achei que logo depois de dar, a vida compensaria todo o tempo em que a adiei. Não foi bem assim. 2 Leia mais

  1. Ao menos até a defesa do mestrado, não mexo mais na dissertação tão procrastinada, principal motivo para eu deixar livros pela metade e escrever colunas mais curtinhas (o que inclui esta), aquele texto que só me permitia ficar cinco minutinhos na internet e do qual adaptei um pedacinho para transformar em uma coluna.
  2. Deu um sono. E com ele veio um desânimo. E com este veio aquele desesperozinho de que esse brinquedo não quisesse mais funcionar, desacostumado que estava de que dessem corda nele.

Pela metade

Um livro que eu gostaria de indicar para todo mundo – mesmo para quem viu o filme inspirado nele e o detestou – é Cloud Atlas, de David Mitchell. Não escondo de ninguém – alias, já falei a respeito disso numa ocasião anterior – o fervor quase religioso do meu amor por esse livro.

Adoraria que esta fosse uma coluna para avisar, em primeira mão, que a Companhia das Letras está prestes a lançar o romance no Brasil. Mas não é. Por enquanto, apenas os fãs de Infinite Jest, de David Foster Wallace (devidamente traduzido como Graça Infinita), estão autorizados a suspirarem de ansiedade pelo lançamento em poucas semanas. Quem é da turma do Mitchell, pode aguardar Cloud Atlas lendo Os mil outonos de Jacob de Zoet (que deve chegar às livrarias bem antes) ou apelar para a edição portuguesa, que descobri sem querer fuçando o Instagram dum amigo. Leia mais