A sós

Semana passada resolvi jantar sozinho. Não cogitei chamar ninguém, de verdade. Há mais de cinco anos eu não realizava tal ritual, se é que posso chamar assim, e essa tem sido uma das escolhas mais acertadas dos últimos meses. Sei que parece uma espécie de isolamento do mundo. Longe disso. É uma forma que encontrei para fazer as pazes com meus próprios pensamentos – o que é irônico pois cada vez mais ouço o quanto tenho uma contração no rosto que denuncia quando penso demais e, pior, tenho essa péssima mania de perder o fio da meada conversando com pessoas e sozinho também.

Escolhi um bistrô perto de casa com luz baixa, geralmente bastante movimentado, e pedi o prato de sempre, o vinho de sempre e me pus a permanecer em silêncio e tentei evitar ao máximo observar as pessoas fixamente – jamais negarei o quanto eu gosto de fazer isso, mas talvez seja um assunto para outro dia. Passei por diversas fases de inanição, de olhar fixamente para um ponto nada interessante até fazer os movimentos inconscientes de mexer na taça para ver o vinho “chorar” ou cutucar meu garfo sem uso até então. Em outros tempos eu levaria um livro para me acompanhar e me distrair antes do prato chegar. Dessa vez foi diferente, eu não queria uma distração, um disfarce para mostrar que gostaria de estar sozinho. Leia mais

Cartas de Babel

Se existe algo que se assemelhe a um mito fundador da tradução é a história da Torre de Babel: a menção bíblica a uma torre que foi construída tão alta que D’us resolveu não permitir que fosse completada, descendo para confundir os idiomas humanos – que, até então, falavam todos uma só língua. Existem inúmeras fontes e adendos para história, em tratados exegéticos rabínicos, em livros bíblicos apócrifos e até mesmo algumas versões distintas em fontes islâmicas.

No livro do Gênesis a história é mencionada muito brevemente, em uns poucos versículos, mas nessas outras fontes fica bastante claro que a construção dessa torre (possivelmente uma zigurate) tinha o objetivo de desafiar D’us. Leia mais

Não toca

O telefone não toca mais. Não toca. Você espera ansioso, aflito, mas lânguido. Pronto para dar um salto de um susto anunciado. Mas ele não toca. Desliga a campainha para sentir apenas a vibração, mas não vibra, não acende, não pisca. O telefone está intacto, você, paralisado. As pernas repuxam de fadiga, estão se movimento para cima e para baixo – inquietas – e o telefone não toca. Repassa e questiona o que disse anteriormente, se fora rude ou amável, se escolheu cada palavra de forma correta para construir sentenças, ora memoráveis, ora vulneráveis e todas com uma única vontade – maior e mais intensa do que a vontade de que o telefone toca. Mas ele não vai tocar. Você sabe disso. Quer acreditar nisso. Quer se negar a aceitar que, talvez em dado momento, ele te surpreenda de verdade e toque. Você se distrai com lembranças aleatórias e rememora sorrisos. Leia mais

Te leio, te furo

Esqueça.

Sim, esqueça.

O que você aprendeu com Sibila Trelawney e suas borras de café nas aulas vespertinas de Hogwarts, a dedução aguçada de Sherlock para descobrir como um sujeito se barbeia à luz da lua. Simplesmente esqueça a cartomante de Assis ou Lispector. A quiromancia tradicional de séculos. Esqueça o terapeuta de 250 reais por sessão. Você não é Tony Soprano.Uma barata não será tua guia espiritual. E esqueça porque não vou aconselhá-lo a olhar para dentro de si para encontrar a si mesmo e o que fazer com o seu futuro. Muito menos encarar olhos nos olhos no espelho e descobrir que eles não têm fim.

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#leiascifi2015

Você já pode tê-la lido em uma ou outra coluna minha, em um ou outro comentário aqui no Posfácio. Pode ser que você a tenha visto no meio de uma lista da Taize, em legendas da Simone no Instagram, no Twitter ou na página de uma editora no Facebook. Há alguns meses venho brincando com a ideia do #leiascifi20151. Hoje foi o dia escolhido para seu lançamento oficial.

Resumidamente, venho por meio desta informar que, em 2015, já me comprometi a ler ficção científica. Serão pelo menos 12 livros, um para cada mês do ano: uma quantidade que, suponho, devo dar conta2. Leia mais

  1. Uma das inspirações é clara: o #leiamulheres2014 – projeto que acompanhei e que algumas pessoas estenderam para 2015.
  2. Com muito menos – apenas um título – você já começa a participar do Desafio do Livrada, do meu brother Yuri.

Eles só veem camelos: o colonialismo na ficção

Imagino o que diriam os marcianos se pudessem ter acesso a tudo o que foi escrito a seu respeito nos livros de ficção científica. Provavelmente discordariam de Edgar Rice Burroughs, se não ao todo, ao menos quanto à “raça verde” que aparece nos relatos de John Carter como um conjunto de selvagens sem cultura nem arte. Aposto também que nossos vizinhos se ofenderiam com as frequentes insinuações, desde H. G. Wells e Olaf Stapledon, de que pretendem invadir a Terra (vamos concordar que o contrário seria muito mais provável). Os marcianos, coitados, são grandes incompreendidos da literatura.

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Menos livros, mais leituras

Aprecio o primeiro mês de cada ano. Mas não sou o tipo de pessoa que aproveita a época para fazer um plano de promessas a serem cumpridas. Gosto de pensar que tenho 12 meses à disposição para todas as novas ideias que quiser ou precisar executar.

Para 2015, no entanto, abri duas exceções. A primeira promessa que fiz foi voltar a escrever com regularidade a minha coluna no Posfácio (Oi, pessoas queridas!). E a segunda, relacionada aos meus livros, ocorreu mais por constatação e necessidade. Descobri, após um breve levantamento, que li 30 livros em 2014. Uma boa média, considerando minhas atividades maternas e profissionais. O que me assustou foi que percebi que, das três dezenas, apenas sete (7!!) foram livros impressos. O restante foi lido no Kindle. Isso me levou a outra descoberta: 2014 deve ter sido o ano em que comprei menos livros físicos nos últimos 20 anos (contrariando algumas pesquisas que apontaram queda na venda de livros digitais e preferência pelos impressos). Comprei apenas três livros no ano passado (não estou considerando nesta conta os livros ganhos – ganhei bastante coisa, fator que também deve ter contribuído para a diminuição nas compras). Leia mais

Flip is for Fitzgerald

Tem uma hora que a gente precisa se sentar e conversar: essa é a hora.

A frase anterior – e algumas das seguintes – foram escritas ainda em Paraty, quando pensei que teria paciência de ficar escrevendo na Casa Posfácio, enquanto a Flip tresloucava lá fora. O resto foi escrito em São Paulo, Curitiba, Recife e, por fim, concluída na praia de Tamandaré – sua publicação depende do wifi de uma sorveteria. De tão adiada, o editor recomendou que a coluna fosse guardada para a semana de aniversário do site. Obedeci. Leia mais

Jogando livros no Teste Bechdel

Saímos de 2014, mas 2014 não saiu da gente. Pouco depois de publicar meu último texto da hashtag #leiamulheres2014, me foi sugerido escrever sobre o Teste Bechdel. Como o teste já era familiar para mim desde que descobri o canal do YouTube Feminist Frequency – há dois vídeos específicos sobre o tema –, eu já conhecia suas regras. Para passar nele, um filme: Leia mais

Ressaca Literária

Basta seguir duas ou três editoras no instagram – ou ter amigos para os quais sua principal característica é “ser um leitor” – e pronto: você está prestes a aprender compulsoriamente novas palavras e expressões que farão parte do seu dia a dia. As pilhas de romances recém-adquiridos são justificadas pelo tsundonku crônico e as pessoas passam a ser elogiadas de forma inusitada (“Miga, você está tão livro hoje!”). Por vezes, uma imagem resume toda a aflição de não ter com quem comentar uma leitura.no fandom Leia mais

Ficando Longe do Fato de Estar Perto Demais de Tudo

Para uma pessoa completamente desorganizada, eu, às vezes, aprecio uma certa ordem no mundo, alguma confluência de fatores, uma sensação leve de que, talvez, quem sabe, exista algum tipo de orquestração do universo. Por exemplo, eu gosto de festas temáticas. Ou de quando você aprende uma palavra nova, ou descobre uma banda, e de repente ela está em todos os lugares. Tem um nome específico, esse efeito, eu só não me lembro qual é. Leia mais

Enjoo Matinal

Todo dia de manhã gostaria que fosse como o dia anterior. Todo dia de manhã gostaria que não tivesse raiado o dia. E todo dia de manhã gostaria de não ver ninguém de manhã, de tarde ou de noite. Quase todo dia na manhã penso na inspiração que me carregará por todo dia. Todo dia de manhã deixo passar pela ressaca da noite anterior. Todo dia de manhã eu desejo que o dia não se repita. Mas todo dia de manhã eu desejo que todo dia seja igual. Todo dia de manhã me pergunto do futuro e todo dia de manhã não quero pensar no futuro. Todo dia de manhã eu me preocupo, mas todo dia de manhã não calculo. Todo dia de manhã é todo dia de manhã, igual e diferente, de novidades velhas e velharias novas, das mesmas conversas ou pensamentos. Todo dia de manhã eu tenho preguiça. E todo dia de manhã quero fazer algo para mudar de vida. Toda manhã eu enjoo em pensar nas náuseas de amanhã. Todo dia de manhã mulher ou menina. E toda manhã de neblina gosto de recordação. E quando a madrugada ainda não é dia, mas todo dia com você quero compartilhar um dia, uma cama, uma vida. Todo dia de manhã vivo de amor. Mas todo dia de manhã penso que não dá. Todo dia de manhã tento lembrar o que toda a noite antes de dormir me faz pensar. Todo dia de manhã já dei um tapa. Todo dia de manhã já dei um beijo. Todo dia de manhã passo a mão pela barriga. Todo dia de manhã me preocupo em não me preocupar e todo dia de manhã continua com todo dia de tarde e todo dia de noite. Todo dia, de manhã ou de noite, sou ser humano com meu currículo completo: mesquinha, metida, egocêntrica, alterada, louca, altruísta, de bem com a vida, decidida, mal humorada, bem humorada, musa, vivida, perdida, mãe, irmã ou filha, aprendiz, professora, escritora, amante, senhora, senhorita, esquecida, lembrada, saudade, despedida…