Uma colcha de retalhos

em 27 de julho de 2015

Não é que eu odeie efemérides. Apenas as considero totalmente desnecessárias de um modo geral. Pensando bem, na verdade, elas são uma manobra para lá de pobre para conseguir uma certa audiência para um veículo de comunicação. Usar a data de morte, de aniversário, de primeiro lançamento – sem ser com números redondos – não faz lá muito sentido para mim. Eu sou hipócrita. Usei e abusei, reutilizei e reciclei efemérides mil, contudo posso acusar minha pouca idade para dizer: considerava legal resgatar essas datas como uma forma de celebrar a memória de um ídolo.

Outra coisa que vejo se espalhando pelos quatro cantos da internet são marcas utilizando datas para criar algum post de trocadilhos ou mesmo de “homenagem”. Se antes datas como Dia dos Pais, Dia das Mães e Dia das Crianças eram alvos fáceis para propagandas de um mês, dois até, pelo menos ficávamos nisso. As datas fora do eixo comercial (dia do datilógrafo, dia do radialista, dia da comunicação…) são muletas para aleijados criativos. Me desculpem, mas é verdade. Pior, já fui vítima explorada por superiores insistindo que esses atalhos fáceis para preencher vácuos eram não somente necessários, mas estritamente importantes.

Dito isso, venho por meio dessa coluna de recluso – não quero me adiantar, mas explico em breve – falar sobre a minha surpresa no último dia do escritor (25/7): receber o derradeiro livro de Enrique Vila-Matas lançado no Brasil (Não há lugar para a lógica em Kassel, Cosac Naify, R$47,00).

Quando comecei a ouvir falar desse livro, pelo menos ao que me recordo, foi durante seu processo de tradução pelas mãos do Antônio Xerxenesky. Não vou me ater aos detalhes da conversa. O que me espantou não foi essa coincidência cósmica de um livro chegar no dia do escritor e eu, justamente um escritor conhecido como blogueiro e, dizem por aí, com uma vida secreta de ghost-advertising-writer (i.e. redator publicitário), ter recebido um exemplar se há tempos não apareço por aqui para dar o ar da minha graça.

Pois é, não houve um acidente em que perdi minha memória ou fui sugado por enlatados americanos, ou mesmo fiquei sem tempo para ler e escrever. Longe disso.

Eu, na verdade, me tornei o blogueiro recluso.

Antes conhecido como um verdadeiro Party Rice dos eventos literários pela Pauliceia dos escritores brancos de classe média, eu realmente me isolei dos eventos. Depois virei recluso sem me escrever. Sou apenas um zombeteiro aparecendo em discussões esporádicas sobre como serão conduzidas as postagens por aqui. Culpo a ideia de lançarem uma continuação de O sol é para todos. Porque aí falam sobre Harper Lee e sua reclusão, falam sobre Thomas Pynchon e a reclusão, falam sobre Salinger e, tan tan tan, a porra da reclusão.

Não sou um antissocial. Aliás, sou sociável até demais. Contudo, o mundo literário tem me dado preguiça. Não das pessoas, que são ótimas com certeza. Tampouco porque os lançamentos estão ruins (saudades barquinhos de tapioca). Ser “recluso” se tornou algo natural.

Poderia falar sobre a Flip desse ano e a febre niilista que tomou conta da minha psique durante um pré-almoço na praia.

“Na antessala ninguém é niilista.” 1

Quem atribuiu esse título de niilista foi a Isadora ou a Lívia, não lembro qual delas teve esse insight, mas aceitei de bom agrado. A conversa para um dos poucos dias em que fez sol em Paraty foi sobre a morte, o instante que separa o último suspiro de vida e o arremate final. Nesse devaneio, levantei a questão de ser “chato” morrer dormindo, perder o único instante, a única certeza, que temos na vida.

Era minha primeira vez na Costa Oeste dos EUA e resolvi caminhar no domingo de folga. Esse pensamento niilista tomou conta de mim enquanto andava entre Santa Monica e Venice, para apreciar o famoso pôr do sol.

Porém, como ainda não terminei a leitura do Vila-Matas que tenho em mãos, gostaria de indicar a todos o meu livro favorito do ano até aqui: O gigante enterrado, de Kazuo Ishiguro. O autor do irrepreensível Não me abandone jamais, uma ficção especulativa maravilhosa imbuída de um drama existencialista de primeira – já escrevi sobre ele aqui, mas considero um dos meus textos mais fracos, dado que é difícil resenhar sobre o livro a) porque a parte sci-fi, se explicada, estragaria grande parte das surpresas do livro; b) é um texto pobre se comparado à grandeza da narrativa. O que posso falar sobre Não me abandone jamais é: uma das melhores personagens femininas descritas por um homem (não entrarei na polêmica surgida na Flip sobre literatura feminina).

Voltando ao gigante. Ishiguro vem com essa fantasia – abominada pela Ursula K. Le Guin – que rejeita a famigerada jornada do herói, em que os personagens sofrem de uma perda de memória causada por uma névoa. Acompanhamos um casal de idosos com muitas certezas incertas em uma busca pela aldeia de seu filho – do qual pouco lembram também. O autor não foge das convenções, ou seriam clichês?, do gênero e, talvez, por isso tenha sido criticado duramente por ser superficial no quesito fantasia. A narrativa é lenta e entrecortada, e seu clímax, não tão arrebatador quanto de Não me abandone jamais, é comovente.

Aconselho, e é claro que é de graça, que quem quiser se aventurar, vá sem medo, mas antes dê uma lida em A última névoa, de María Luisa Bombal. Esse título martelou na minha cabeça quando comecei a ler O gigante enterrado. Talvez seja só a palavra névoa mesmo.

Para quem não está com vontade de uma fantasia, que tal um realismo fantástico? A hora dos ruminantes eu ganhei do Daniel Falkemback no meu aniversário. Acabei perdendo o timing para escrever sobre essa fábula de José J. Veiga, mas, meus caros amigos, é um belo livro. A reedição vem com prefácio de Antonio Arnoni Prado e é uma leitura à parte.

E como não se encantar com esse primeiro parágrafo:

 

A noite chegava cedo em Manarairema. Mal o sol se afundava atrás da serra – quase que de repente, como caindo – já era hora de acender candeeiros, de recolher bezerros, de se enrolar em xales. A friagem até então continuada nos remansos do rio, em fundos de grotas, em porões escuros, ia se espalhando, entrando nas casas, cachorro de nariz suado farejando.

 

A pacata cidade de Manarairema será tomada por invasões de homens, cachorros e bois. Assustados de início, os moradores passam a se acostumar com os visitantes. Todos esses invasores chegam com ar superior e ignoram os moradores. Dominam o espaço, fazem o que bem entendem e a população se mostra indignada, mas nada fazem quando percebem que qualquer reação acarretaria em violentos confrontos. Uma alusão à ditadura militar? Pode ser. O livro foi lançado lá em 1966 e contemplaria ainda o comecinho do período “ame-o ou deixe-o” do Brasil, brasileiro.

Não à toa, esse era um dos livros de cabeceira do grande Guimarães Rosa.

Fato curioso: Guimarães Rosa tentou anos a fio entrar na Academia Brasileira de Letras e quando assumiu seu posto, com aquele discurso de posse maravilhoso, estava em seus últimos suspiros – morreu três dias depois. Enquanto isso, José J. Veiga recusou ingressar na ABL.

Como estou na parte dos conselhos, assisti ao documentário da Netflix What Happened, Miss Simone? e me debulhei em lágrimas. Apesar de no começo parecer um daqueles recortes musicais, em que música e depoimentos se misturam – e não o deixa de ser. Nina Simone impondo suas opiniões sobre liberdade e preconceito, espelhando uma tristeza intrínseca de uma vida cheia de altos e baixos, não dão brecha aos corações de pedra com essa trajetória marcante.

A minha história pessoal com Nina Simone começou em meados de 2004 ou 2005, se não me falha a memória, logo após assistir a Antes do Pôr do Sol, filme de Richard Linklater que continua a história iniciada em Antes do Amanhecer e se encerra com Antes da Meia-Noite. Nos momentos finais do filme, Celine (Julie Delpy) conta como foi ver um show de Miss Simone. Dois anos depois, minha namorada da época me emprestou um CD da Nina, que quase não devolvi tamanha a paixão despertada em mim.

Após ver esse documentário é possível acreditar que Nina Simone realmente colocou um feitiço em todos nós.

O melhor para encerrar essa colcha de retalhos, costurada por assuntos desconexos, quem sabe, é uma bela música da musa Nina:

  1. Exploradores do Abismo, Enrique Vila-Matas

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