O que você faria para obter a beleza e a juventude eterna? Quão importante são essas coisas? Para Dorian, elas são tão importantes quanto sua alma e valem assassinato, mentiras e o que mais for necessário.

Dorian é um jovem inglês que desfruta de estonteante beleza. Um dia, quando conhece Lord Henry, por intermédio de um artista amigo seu, descobre que cedo ou tarde seu maior encanto, a beleza,vai deixá-lo. Descobre que vai envelhecer, que a gravidade e o tempo agirão sobre sua face, que os privilégios proporcionados pela juventude não durarão para sempre e que ele nada pode fazer quanto a isso. Chora, se revolta e tanto inveja a imagem num dos seus quadros, quadro para o qual serviu de modelo e onde estará para sempre jovem, que acaba conseguindo que o retrato cumpra o triste destino em seu lugar. Dorian permanecerá jovem para sempre e todo o peso do tempo, da dor, do sangue em suas mãos irão repousar não sobre ele, mas sobre a imagem na tela que ele mantém escondida, horrorizado demais para conseguir encarar seu verdadeiro eu.

O Retrato de Dorian Gray foi um dos últimos livros que li. Quase tão interessante quanto o único romance de Oscar Wilde, é sua própria biografia. Wilde foi crítico voraz da hipócrita sociedade inglesa de sua época, com seu puritanismo e futilidades. Partidário do Hedonismo, algo parecido com o epicurismo de Álvares, Wilde acreditava no prazer e ultrapassava as fronteiras das experiências que sua geração e muitas outras seguintes poderiam tolerar. Acabou sendo preso acusado de homossexualismo e terminou morrendo, em Paris, poucos anos depois de ser solto, com um padrão de vida bem abaixo do que estava acostumado.

Dorian nada mais é do que o reflexo da sociedade moderna. O retrato é para Dorian o que a autocritica é para nós. Passa-se toda uma vida em busca da beleza. Fascinamo-nos com o belo a ponto de nos iludirmos acreditando que é nisso que repousa a verdadeira essência da existência. Repetimos inúmeras vezes, como um mantra, frases otimistas em relação à vida. Empurramos para os becos escuros as faces distorcidas e sujas que nos amedrontam ou incomodam e fingimos que elas não estão lá, até que num dia ou noutro elas vêm nos buscar, nos agarram e arrastam para aquele lugar sem luz, lembrando que existem. É no orgulho onde encontramos nossa miséria e nossas mentiras.

(Esse artigo é uma colaboração do leitor Raphael L. Piaia.)

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