O inesquecível “Leite Derramado” de Matilde

em 7 de junho de 2009
leite-derramado-capa1“Quando saísse daqui, eu pretendia pedi-la em casamento, mas ela não me quer mais.”
Chico Buarque, “Leite Derramado”

Em seu recente livro intitulado “Leite Derramado”, lançado em 2009 pela editora Companhia das Letras, o polivalente Chico Buarque conta a história da família Assumpção, narrada pelo personagem Eulálio Montenegro d’Assumpção. O romance de escrita sedutora e fluente é rico por retratar de forma expressiva a realidade da cultura brasileira dos últimos cem anos.

Eulálio se encontra enfermo na cama de um humilde hospital e em meio aos delírios e ao esquecimento, causado pela idade avançada e, provavelmente, pela doença de Alzheimer, tenta passar suas confusas lembranças a uma enfermeira, com quem promete se casar.

De antemão, o que se pode perceber é que o personagem descreve a história de sua própria família, fazendo-se assim uma ligação à vida cotidiana de muitos brasileiros. A obra contada em primeira pessoa confirma ainda mais essa ligação, pois o leitor se sente parte da história e íntimo do personagem, compartilhando a cada página suas lembranças, pensamentos e segredos.

A questão principal em “Leite Derramado” é o amor possessivo de Eulálio por sua esposa Matilde, jovem e bonita, com quem tem uma filha: Maria Eulália. Matilde desperta em Lalinho, (seu apelido de infância), uma paixão avassaladora, transformando seu amor em dúvida, ciúme e egoísmo. Paralelamente às lembranças íntimas do personagem, Eulálio retrata a decadência social e econômica da tradicional família Assumpção: desde seus ancestrais portugueses até seus descendentes humildes, contando a história de seu avô, barão do Império, de seu pai, senador da Primeira República e de seu tataraneto, garotão que só quer curtir a vida. O próprio personagem fala sobre isso: “Pai rico, filho nobre, neto pobre.” (BUARQUE, 2009, p.18).

A vida do personagem é aberta como um leque em menos de 200 páginas, que fazem pensar e questionar sobre nossa própria realidade. O romance também faz refletir sobre assuntos complicados, mas existentes na história brasileira, como a relação poder e subserviência, machismo, desigualdade social e também racial. O autor apresenta ainda temas relevantes ao comportamento humano: egoísmo, paixão, desejo, velhice, traição, rejeição, abandono, depressão, solidão, dentre outros.

Apesar de Eulálio ser marcado pelos sentimentos de posse e ciúme, o personagem reflete sobre esse último de forma a proclamá-lo de peito aberto:

“Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta. O ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe-se a culpa na feiúra.” (BUARQUE, 2009, p. 62).

Dos temas variados que o autor expõe no romance os mais marcantes são o amor pela Matilde, assim como a maternidade e o desaparecimento da mesma. Utilizando-se de uma narrativa não-linear, o autor torna o texto embaraçado:

“Não é culpa minha se acontecimentos às vezes me vêm a memória fora da ordem em que se produziram.” (BUARQUE, 2009, p. 188).

O texto também é caracterizado pela repetição, tornando a leitura um pouco cansativa. Nota-se que Eulálio conta inúmeras vezes os mesmos fatos: o excitante e primeiro encontro com Matilde, as conversas com o francês Dubosc, a relação com sua mãe, o paradeiro de sua esposa e o nascimento do bisneto. O próprio personagem afirma que repete suas histórias:

“Mas se com a idade a gente dá para repetir histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida.” (BUARQUE, 2009, p. 184).

Porém, as lembranças repetitivas de Eulálio, muitas vezes confusas, se tornam tão contraditórias que criam dúvidas e suspenses que prendem o leitor.

O texto de Chico Buarque em “Leite Derramado” é mais informal e, apesar da narrativa elegante, o escritor abusa um pouco da escrita chula o que causa no leitor reações diversas e inesperadas como o riso: “Aí ele me mandou tomar no cu mais o barão, desaforo que nem lhe posso censurar.” (BUARQUE, 2009, p.50). .

Ao ler o livro, não é difícil associá-lo a um romance clássico da nossa literatura brasileira, “Dom Casmurro”, de Machado de Assis. As duas obras são contadas em primeira pessoa e isso faz com que o leitor se sinta envolvido com as histórias. Em “Dom Casmurro”, há a eterna dúvida sobre a fidelidade de Capitu, enquanto no livro de Chico Buarque a dúvida é o verdadeiro paradeiro de Matilde, sentimento vivido pelos personagens principais, respectivamente, Casmurro e Eulálio. A dúvida é o ponto central de ambos os romances, sustentando assim toda a história. Uma das principais diferenças entre eles é que, em “Dom Casmurro”, a história é narrada de forma linear, sendo lógica e cronológica, com início, meio e fim, diferentemente da narrativa de “Leite Derramado”, que possui uma ordem embaralhada.

Finalmente, em sua obra Chico Buarque fala sobre assuntos sérios da nossa sociedade brasileira por meio do relato de um personagem com memória desfalecente, corroído por uma paixão mal vivida e mal compreendida pelo narrador. Enfim, “Leite Derramado” retrata nossa forma egoísta e preconceituosa de enxergar nossa própria realidade.

Sobre o autor: Lilian Gomes mora em Belo Horizonte e é estudante do sexto período do curso de Jornalismo do Centro Universitário de Belo Horizonte (UNIBH).

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3 comentários para “O inesquecível “Leite Derramado” de Matilde

    • Anica, acho que você iria gostar bastante desse por causa do fluxo de consciência ou falta dele do Eulálio. É muito bom tentar acompanhar os fragmentos de sua memória, os saltos e existe um humor esquisito e intrínseco.

  1. Parabéns pela resenha. Procurando na internet críticas e análises do livro, se vê muita porcaria. Há críticas de alto teor ideológico propagados por blogueiros que se dizem anti-ideológicos. É como se tudo que ele fizesse hoje fosse fruto da ideologia do autor da década de 60 e 70. Também há aqueles que gostam de ser do contra, só porque a imprensa como um todo fala bem do livro, ele faz questão de ser do contra: procura um motivo qualquer para falar mal. E o pior, não fala com propriedade: muitas vezes seu argumento é argumento de terceiros (nem leu, sua crítica é a mesma de alguém que ele considera autoridade no assunto). Para omitir uma opinião é essencial ler o livro. Parabéns, na resenha você se expressou com muita propriedade.

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