Entrevista com Braulio Tavares

em 16 de agosto de 2010

Braulio Tavares nasceu em Campina Grande (Paraíba), em 1950. Reside no Rio de Janeiro desde 1982. Cursos (incompletos) de cinema (Universidade Católica de Minas Gerais) e Ciências Sociais (Universidade Federal da Paraíba). Tem mais de vinte livros publicados, incluindo romance, conto, ensaio, poesia e literatura de cordel.  Os títulos mais recentes são: Freud e o Estranho: contos fantásticos do inconsciente (antologia, Casa da Palavra, Rio de Janeiro, 2007), ABC de Ariano Suassuna (perfil biográfico, José Olympio, Rio, 2007), A Pulp Fiction de Guimarães Rosa (ensaio, Marca de Fantasia, João Pessoa, 2008), Contos Obscuros de Edgar Allan Poe (antologia, Casa da palavra, 2010). Pesquisa a história da literatura fantástica do Brasil, tendo editado para a Fundação Biblioteca Nacional a compilação bibliográfica Fantasy, Fantastic and Science Fiction Literature Catalog (1992).  É membro desde 1990 da Science Fiction Research Association, sediada nos EUA.

1) O que torna uma ficção cientifíca atraente ao público?

Assim como a literatura mainstream, leitores diferentes procuram coisas diferentes na FC.  Uns gostam do que ela tem de fantástico, de impossível, de extraordinário; outros gostam do que ela tem de racional e científico.  Uns gostam de FC em grande escala, envolvendo inúmeros planetas, sistemas solares e civilizações, contando sagas ao longo de séculos; outros gostam de histórias centradas num pequeno núcleo de personagens comuns que estão vivendo um momento espantoso.  E assim por diante.

2) Quais produções literárias nacionais e internacionais da contemporaneidade você indicaria?

Livros estrangeiros traduzidos recentemente: Os três estigmas de Palmer Eldritch e Valis, de Philip K. Dick (apesar de serem dos anos 1970, são mais contemporâneos hoje do que quando foram escritos); Nevasca de Neal Stephenson, ambientado numa realidade virtual inspirada nos games; Reconhecimento de padrões de William Gibson, que para muitos não é FC, mas para mim é. Dos autores nacionais, indicaria o romance de Fábio Fernandes Os dias da peste, um pesadelo informático no Brasil do futuro; e as coletâneas (dois volumes) Os melhores contos brasileiros de FC de Roberto de Sousa Causo, que dão um panorama geral da FC entre nós.

3) A literatura já alcançou o máximo de suas invenções?

Nunca. Isso é impossível.  A literatura é uma resposta cultural, coletiva, à experiência humana.  Ela não “evolui”.  A literatura de hoje não é mais “avançada” do que a do tempo de Shakespeare, e a do ano 2500 não será mais “evoluída” do que a nossa.  Será diferente, e pronto.

4) O que é mais difícil: prosa ou poesia? Poesia ou música?

Eu faço todas essas coisas com o mesmo grau de dificuldade ou facilidade, mas acho que não sou um caso típico.  Tipicamente, os grandes poetas não são grandes prosadores, ou pelo menos não fazem na prosa algo à altura do que fazem na poesia, e vice-versa.  Jorge Luís Borges e Machado de Assis escreveram boa poesia, mas não ao nível de sua prosa.  Drummond escreveu boa prosa, mas não ao nível da sua poesia.  Talvez somente os talentos medianos se sintam igualmente à vontade nas duas áreas.

5) Em tempos de internet é inevitável perguntar: a cultura pop na globalização virtual é realmente acessível a todos, levando em conta que existem diversas rupturas, opiniões e conceitos? De que maneira isso pode ajudar as pessoas a adquirir e aprofundar conhecimentos?

Nada no mundo em acessível a todos.  O livro impresso, que existe há 500 anos, ainda não é acessível a todos.  Água potável e esgotos ainda não são acessíveis a todos.  A prática de esportes não é acessível a todos.  Como imaginar que a cultura eletrônica venha a ser?  Ela vai se expandir aceleradamente, como agora, depois vai reduzir esse ritmo e continuar se expandindo a uma taxa mediana, no futuro.  Vai virar algo como a água encanada ou a luz elétrica – que, ainda hoje, não são para todo mundo, e sim para quem pode pagar, e para quem vive numa região capaz de fornecê-las.

6) O que faz você se interessar por uma banda ou músico? Existe uma regra?

Não há uma regra, em geral gosto de um som parecido com o de alguém de quem já gosto.  Não sei definir bem, certas texturas de som me atraem, as letras são muito importantes, ritmo bem marcante (mas não repetitivo).  Percebo melhor as melodias do que as harmonias.  Meu ouvido musical é limitado.  Admiro e aprecio blues e jazz, mas gosto mais do blues porque é mais simples.  Gosto das formas tradicionais: o samba, o forró, a música de raiz, como se diz hoje.  Melodia, ritmo e letra são importantes.

7) Para você, o que representa ganhar um Prêmio Jabuti?

Uma vitória importante, principalmente pelo peso que tem num currículo, numa apresentação à imprensa ou a outros escritores.  Há um consenso de que a pessoa que ganhou o prêmio tal é uma pessoa diferenciada.  Mas não se deve escrever pensando em prêmios.  Não é como no futebol, onde o objetivo é ganhar o campeonato.  Um prêmio literário só deve começar a ter importância no momento em que a gente o ganha.  Antes, não – respeita-se, aplaude-se quem ganhou, mas não se deve perder tempo pensando nisso.

8 ) Porque ainda há tanta resistência a Literatura Fantástica? Ou isso é algo mais falado do que concreto? No Brasil é diferente?

Não devemos ficar preocupados com resistência, porque ninguém é obrigado a gostar de nada.  Eu não sou obrigado a gostar de romances de faroeste ou de contos psicológicos existencialistas.  Cada literatura deve buscar sua audiência.  Se alguém acha, sinceramente, que a literatura fantástica é uma forma inferior de literatura, eu não discuto.  Simplesmente mudo de assunto.  Não sou proselitista, não quero “converter os gentios”.

9) Quais referência você busca no mundo ao criar uma ficção?

Não sei, não tenho um método.  Como crítico sou muito racional e explicativo, mas como ficcionista prefiro escrever sem pensar de onde aquilo está vindo.  As idéias surgem, eu passo um longo tempo articulando mentalmente uma história e tomando notas, e às vezes consigo sentar e escreve-las.  A maior parte das histórias se dissipa sem que eu chegue a escrevê-las.  Mas não me inspiro em pessoas reais ou fatos reais, acho que a maioria das minhas idéias vem dos livros, e não da vida fora dos livros.  Mas nunca parei para analisar meus textos do modo que analiso os textos dos escritores que admiro, como Borges, Poe, Guimarães Rosa, etc.

10) O que você pensa das bandas que estão despontando no cenário brasileiro atual?

Não acompanho muito.  A maior parte das bandas que vejo divulgadas por aí eu nunca ouvi.  Por uma questão de proximidade e amizade, conheço o trabalho de algumas bandas nordestinas.  Mas não ouço música contemporânea.  Gosto de ouvir música de 30, 40, 50 anos atrás.  Não tenho o propósito de estar bem informado, estar em dia.  Ouço para me divertir.

10 1/2: “entre a poesia e a pinga…fico com a poesia, cujo efeito nunca passa”.

A equipe agradece a atenção de Braulio Tavares

 

2 comentários para “Entrevista com Braulio Tavares

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