Anos-luz Depois: Drummond, o poeta presente

em 13 de julho de 2012

Às vezes acontece de uma experiência te atingir de uma forma tão natural que, por mais que você consiga identificar o momento ou o que aquilo teve de especial, tornam-se necessárias algumas horas, ou mais, para começar a entender o que aconteceu de diferente com você. Foram algumas ocasiões em que eu saí do cinema, por exemplo, sem pronunciar palavra alguma a respeito do filme, dando lugar a um tipo de anseio e estado-existencialista-de-reflexão. O silêncio, de certa forma, marca bastante esse negócio de que algo mudou: é “clic” e depois silêncio, porque alguma coisa ali dentro da sua cabeça está ligando enquanto outras desligam e tudo que se pode fazer é esperar para ver o resultado, sem uma resposta precisa. O mesmo se passou com conversas, viagens, pessoas e com a leitura de um livro, quando, sem entender exatamente as razões, fiquei lendo e relendo alguns trechos de alguma página e depois aquilo ficou perseguindo minha imaginação.

Material para discussão e criatividade não faltaram durante a Flip 2012, e acho que, por mais saudosista precoce que isso soe, vou lembrar de muita coisa que aconteceu por lá. Especialmente algo que está vindo muito à minha cabeça desde que retornei de Paraty, um dos muitos “clics” que tive por lá: a mesa “Drummond – o poeta presente”, que presenciei no início da tarde de domingo.

O objetivo dessa mesa não era só integrar a programação especial do autor homenageado, como também discutir e justificar a sua memória. Acredito que poucos negariam a importância de Drummond para a poesia brasileira, mas, como dizia exatamente a sinopse da mesa no folheto da Flip: “Não é fácil precisar exatamente em que consiste essa importância e de que maneira ela se manifesta.” Acho que essa questão não foi respondida porque simplesmente não é possível saber. O que aconteceu, no entanto, foi o relato das lembranças e “clics” que cada um dos participantes, Eucanaã Ferraz, Carlito Azevedo e Armando Freitas Filho, tiveram ao lerem seu trabalho.

Diferente da maioria das outras mesas, em que autores liam trechos de seus livros, essa começou com a participação de Armando Freitas Filho, em vídeo dirigido pelo Walter Salles, exaltando suas experiências e memórias. Disse, por exemplo: “Você pode se esquecer da letra de um verso, mas levará o sentido dele para sempre.” Comparou também o poeta a um beija-flor por ser algo que fica parado no ar, mas pulsa vida.

Em seguida, o mediador Flávio Moura sugeriu que Eucanaã e Carlito fizessem o mesmo tipo de relato na Tenda dos Autores. Carlito Azevedo prosseguiu, apresentando o poema inédito que fez para aquele momento. Ele, que não publicava nada há 3 anos, começou então a ler Querido Príncipe, que terminava com o seguinte trecho: “Saiba que sempre penso em você, pelo menos sempre que o meu coração cresce assim dez, vinte, trinta metros e explode.”  O poema arrancou aplausos extensos do público. Eucanaã seguiu falando sobre os diferentes prismas do autor: “É escorregadio não porque não quer se deixar ver, mas porque deixa se ver demais. Há sempre sete faces possíveis, muitas conflitantes e paradoxais.”

A única pergunta levantada durante a mesa foi sobre ser drummondiano. O que é ter esse estilo? Para Carlito Azevedo, é estar à altura de sua própria queda. Ele refletiu sobre as quedas e respostas que o poeta teve durante a vida, primeiro quando perdeu um filho que viveu apenas cerca de 40 dias e respondeu com o lançamento de um livro. Depois, ao fim de sua carreira, quando perdeu sua segunda filha e morreu pouco tempo depois: “As pessoas quebram, algumas duas, três vezes na vida. Eu quebrei algumas vezes. Mas, lendo literatura, lendo poesia e mais especificamente lendo Drummond, descobri que quebrar pode ser um aprendizado.” Já para Eucanaã Ferraz, todo poeta e pessoa está à altura da própria queda. O que torna a pessoa drummondiana é ela mesma, pois somente ela sabe o quanto o poeta influenciou o seu trabalho: “É como se fosse um segredo: O Drummond de cada um é secreto.” A mesa foi encerrada com a leitura de poemas do Drummond escolhidos pelos participantes.

Falei, no início da coluna, que esse tipo de experiência é natural. Disse isso porque, nos casos que citei, algo foi agregado, mas é difícil encontrar exatamente o que seja. Isso é natural: sentir que aquela coisa sempre fez parte de você. Não sou vasta conhecedora da obra de Drummond, mas agora tenho um sentimento solidário ao Eucanaã Ferraz, Carlito Azevedo e Armando Freitas Filho. Ler qualquer coisa do poeta, a partir de agora, vai ser diferente para mim e muitos dos que puderam assistir a essa mesa. Anos-luz depois, eu ainda estou aqui, tentando entender isso tudo.

8 comentários para “Anos-luz Depois: Drummond, o poeta presente

  1. Bonito o relato, Dindi…. comentando o início…. sem contar que, quando procuramos a origem de um acontecimento importante em nossas vidas, não raramente inventamos, colorimos, editamos a gênese. Por vezes que as melhores coisas fomos nós que pusemos.

  2. Brigado por compartilhar essas maravilhas: as tuas impressões e o link com o poema lindo do Carlito.

    Pra mim, a frase que resume a mesa foi uma do Eucanaã: “Qual é o seu Drummond?”

    Qual é o SEU Drummond, Dindi?

    • Aaah Tuca <3

      O meu Drummond, hoje em especial, é um que fala:
      "Ei-lo, massa imponente
      e frágil, que se abana
      e move lentamente
      a pele costurada
      onde há flores de pano
      e nuvens, alusões
      a um mundo mais poético
      onde o amor reagrupa
      as formas naturais."

      Mas espero conhecer mais pra ter assim uns outros tantos Drummonds. E o seu?

      • O meu Drummond, em geral, é um que me deixa “sem palavras”. Ou seja, um maldito que só me deixa uma expressão clichê, hahaha.

        Mas o de hoje (e da semana de nostalgia precoce da FLIP) é o de Resíduo.

        De tudo ficou um pouco
        Do meu medo. Do teu asco.
        Dos gritos gagos. Da rosa
        ficou um pouco

        Ficou um pouco de luz
        captada no chapéu.
        Nos olhos do rufião
        de ternura ficou um pouco
        (muito pouco).
        […]
        Se de tudo fica um pouco,
        mas por que não ficaria
        um pouco de mim? no trem
        que leva ao norte, no barco,
        nos anúncios de jornal,
        um pouco de mim em Londres,
        um pouco de mim algures?
        na consoante?
        no poço?
        […]
        Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
        e sob as ondas ritmadas
        e sob as nuvens e os ventos
        e sob as pontes e sob os túneis
        e sob as labaredas e sob o sarcasmo
        e sob a gosma e sob o vômito
        e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
        e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
        e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
        e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
        e sob os gonzos da família e da classe,
        fica sempre um pouco de tudo.
        Às vezes um botão. Às vezes um rato.

  3. Pingback: Solidão no campo, solidão na rua | It's not too late

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