Foi após ter lido O sagrado e o profano que me interessei pelas obras e pelas reflexões de Mircea Eliade. Depois de ter adentrado nos domínios de suas discussões a respeito da herança sacra que recebemos do homo religiosus, percebi que as obras de Eliade tinham importantes e interessantes contribuições para compreender as práticas e culturas das sociedades primitivas e, por contraste, as nossas próprias. A passagem de um momento a outro – do contexto antigo ao atual, com todas as transformações nas práticas religiosas – é o que instigou Eliade a escrever Mito e realidade.

Não se trata de um livro que busca compreender o mito somente em sua época de ouro, na Antiguidade; mas um livro que, além de fazer isso, é capaz ainda de acompanhar a evolução e as transformações do mito, mesmo que seja sua degradação. A obra de Eliade acompanha o desenvolvimento histórico das sociedades onde o mito floresceu, investigando a maneira como ele foi sendo reelaborado e reinterpretado por diferentes pensadores em diferentes contextos sócio-culturais. E eis que, conquanto nas fissuras, Mito e realidade dialoga com a História de forma mais próxima.

O diálogo do autor com a história das religiões é intenso, e se alterna com as análises voltadas à “lógica interna” dos mitos, buscando compreendê-los a partir de um ponto de vista mais geral. A recorrência a exemplos – muito frequente, aliás – vem como base empírica sobre a qual ele busca estabelecer apreensões teóricas. Portanto, a alusão aos mitos gregos, às lendas hindus, aos mitos de origem latino-americanos, às canções rituais havaianas etc., são componentes de uma tentativa – muito sólida, diga-se de passagem – de construir uma leitura geral dos mitos, ainda que respeitando suas especificidades.

Precisamente esse diálogo entre as apreensões teóricas e os exemplos empíricos constantes é que faz com que Mito e realidade seja tão rico e tenha tanto a dizer para pesquisadores da área ou de fora dela. A análise que Eliade dá aos mitos busca encará-los não como fábulas ou ficções pura e simplesmente, mas sim da forma como as sociedades primitivas os encaravam: como realidade. Esse é um dos pontos centrais do livro: para os povos primitivos, as histórias míticas não eram fábulas morais, mas eram a própria história do mundo, sua criação e sua existência factual.

Desse fato deriva a importância crucial dos mitos para toda a dinâmica social dos povos antigos: conhecer os mitos e seguir seus ensinamentos era participar da realidade, i.e., tomar parte na existência, estar vivo. Conforme escreveu o próprio autor: “O mito é considerado uma história sagrada e, portanto, uma ‘história verdadeira’, porque sempre se refere a realidades. (…) o mito se torna o modelo exemplar de todas as atividades humanas significativas.” (p. 12)

Com tal encarar dos mitos, Eliade indica a que veio, mostra como o estudo dos mitos não é um colecionismo de historietas nem um “curiosismo” intelectual, mas sim um importante capítulo do pensamento humano e uma das chaves para a compreensão da história das sociedades antigas. Os mitos, como modelos exemplares e a própria “história” para aqueles povos, são construções complexas, tradições orais que dizem respeito à coletividade na medida em que eram vividas e revividas cotidianamente nos âmbitos mais diversos da existência.

A profusão de exemplos evidencia o árduo processo de pesquisa do autor, e torna sólidas suas asserções, preenchendo-as de significado humano. A recorrência mais pujante é o mito cosmogônico, o ato criador por excelência. É nele que repousam boa parte das crenças e dos rituais descritos nos mitos, pois voltar ao início e dialogar com a realidade daquele tempo – o tempo mítico – é estabelecer relação com o sagrado e reviver a experiência primordial. Isso fica evidenciado no caso dos curandeiros, por exemplo: para restabelecer a saúde de seus pacientes, eles procuram a origem da doença, construindo a história do mal para então, conhecendo-o, erradicá-lo. O mesmo se dá com a construção de uma casa ou o estabelecimento em um território: é preciso reviver o mito cosmogônico para fazer retornar o tempo mítico e sacralizar o lugar ou a construção.

Desse conjunto de práticas e crenças que surge a concepção de “tempo circular”, que Eliade discute como central na cultura dos povos primitivos. Se trata do eterno retorno, a crença que as sociedades antigas cultivavam acerca da possibilidade de fazer com que o tempo recomeçasse do zero, trazendo, por conseguinte, a era mítica dos primórdios do cosmos. Essa visão de mundo entrou em xeque com o desenvolvimento da filosofia grega e sua crescente racionalização, e se consolidou com a linearidade de tempo cristão – tudo isso dentro das tramas da história humana.

Mircea Eliade traça essa evolução buscando compreender o que pareceu ser a decadência dos mitos, mas que foi, como ele afirma em Mito e realidade, a degradação do mito e consequente permanência residual dos arquétipos e elementos míticos nas mais diversas criações da sociedade moderna, desde o cinema e as histórias em quadrinhos até os contos populares e romances, todos eles embebidos nas remotas – porém vivas – histórias míticas do passado.

ELIADE, Mircea. Mito e realidade. Tradução de Pola Civelli. São Paulo: Perspectiva, s/d.