É bastante provável que você já tenha ouvido falar, especialmente se teve aulas de literatura no colégio, dos romances de José Lins do Rego que formam o chamado “Ciclo da cana-de-açúcar”. Se não da série como um todo, pelo menos do livro Menino de engenho (1932), que se tornou rapidamente uma obra cara não só a uma porção de escritores como também um dos títulos mais famosos do cânone brasileiro.

Um dos pontos em comum entre os livros que formam o ciclo em questão, bem como as obras mais famosas de José Lins do Rego, é o palco onde se desenrolam suas histórias: o sertão nordestino, com aquela imagem e aqueles elementos que tantas e tantas vezes foram cantados, descritos, escarafunchados e transformados em prosa, poesia, canções, dramas e histórias. José Lins do Rego, aliás, foi um dos escritores que mais urgentemente se voltou aos problemas da região e que mais sensivelmente soube transformar em literatura aquela aridez a um tempo tão sofrida e tão humana. Ele nascera nesse meio e fora ali criado, não sendo uma surpresa, portanto, que as terras de sua infância se tornassem também a pátria de sua literatura.

Mas Água-mãe, o livro sobre o qual essa resenha se detém, possui um ponto peculiar nesse sentido: foi o primeiro livro que José Lins do Rego escreveu que não se passa nas calcinadas terras do sertão, mas sim em terras cariocas. O escritor se mudara para o Rio de Janeiro em 1935 e, com alguns anos de vivência naquela nova realidade, encantado e interessado nos homens que era, soube muito bem conhecer e descrever aqueles sujeitos do Rio, criando em Água-mãe, romance publicado em 1941, um retrato de alguns deles, com suas mazelas, alegrias, sonhos, anseios, problemas e dissabores.

Mudou a paisagem e mudaram os homens, mas os argutos e sensíveis olhar e pena de Lins do Rego permaneceram os mesmos, apesar da desconfiança com que alguns olharam essa incursão em território literário até então intocado.

O romance se passa quase todo às margens da lagoa da Araruama, em Cabo Frio, Rio de Janeiro. É lá que encontramos a salina Maravilha, onde moram Dona Mocinha, mulher destemida e prática, que junto com uma tutora, cria e ensina seus filhos Lúcia, Luís e Laura. Vivem uma vida sem grandes luxos nem facilidades, que lhes curte os espíritos e lhes ensina virtudes.

Nas margens da Araruama mora também a família do Cabo Candinho, homem duro e de poucas palavras, que pesca camarão e que vive com sua esposa, Sinhá Antônia, sua mãe, a velha Filipa, e seus filhos, Joca, Lourdes, André, Maria das Dores e Julinho. A dinâmica da casa é, a exemplo da salina vizinha, inflexível nas exigências do trabalho da pesca, na educação dos filhos e nas conversas travadas.

As duas famílias possuem em comum, além das condições apertadas, um medo tremendo da casa azul que se encontra em outra das margens da lagoa, medo esse que também acossa os pescadores da região. O espectral imóvel, abandonado por uma família outrora abastada cujo destino poucos conhecem além das lendas que a circundam, jaz em meio a um matagal, com paredes descascando e animais a lhe tomarem os aposentos. Os pescadores nem sequer atrevem-se a usar o atracadouro da propriedade.

A primeira parte do livro se detém, basicamente, sobre o cotidiano dessas famílias, em torno das venturas e desventuras que enfrentam. É contada a história da trajetória militar do Cabo Candinho, a história da paixão de Joca por futebol e seu promissor futuro no esporte, o dia a dia das aulas de Laura e Lúcia, em casa de Dona Mocinha e assim por diante. O ritmo é deliciosamente lento, as histórias são contadas por Lins do Rego como se fossem “causos” desfiados sob a sombra de uma mangueira num dia tépido em que os corpos se deixam enlevar na lassidão enquanto o espírito acompanha a construção de cada um dos personagens em suas idiossincrasias.

Tudo isso é ameaçado, porém, quando o Doutor Eugênio Mafra, patriarca da família Mafra, resolve comprar a mal-assombrada casa azul e fazer dela seu refúgio de férias. O ceticismo e a desconfiança voltam a animar as conversas, os pescadores não acreditam, as crianças começam a inventar histórias e os velhos balançam suas cabeças de maneira desaprovadora: os Mafra estavam mexendo com algo que não deveriam mexer. As histórias sobre o tesouro escondido no interior da casa, sobre a mulher de vestes brancas sob as figueiras e sobre a decadência dos antigos moradores se tornam assuntos das rodas mais uma vez, alimentando toda sorte de lendas e lembranças.

Os Mafra, embora sejam ricos o suficiente para serem muito diferentes das famílias de Dona Mocinha e Cabo Candinho, são muito diferentes dos ricos ex-proprietários da casa azul, pois são representantes de uma nova classe que despontava na sociedade fluminense da época. Dona Luísa, esposa do Doutor Eugênio Mafra, educa as filhas de maneira muito diferente daquela com a qual educa Dona Mocinha suas filhas moças. Paulo, o romancista filho do casal, é um jovem de todo diferente dos rebentos do Cabo Candinho. As brincadeiras das filhas Marta, Luisinha e Helena Mafra destoam dos rudimentares brinquedos da Salina Maravilha. Os costumes e valores que regem suas vidas são profundamente discrepantes daquela rusticidade existencial que governa a vida das casas dos trabalhadores que habitam as outras margens da lagoa Araruama.

Nesse ponto da história, seja pelo potencial dramático e conflituoso encerrado no desenrolar das relações entre as três famílias (a de Cabo Candinho, a de Dona Mocinha e a de Eugênio Mafra), seja pelo conjunto de histórias a orbitar em torno da casa azul, José Lins do Rego já tem em suas mãos uma rica miríade de personagens, situações-limite e questões a explorar. As estruturas da história estão erguidas e solidificadas, basta agora explorá-las em toda a sua eloquência.

Apesar de não estar mais tratando do mundo no qual foi criado, José Lins do Rego não parece um estranho àquela gente que perambula pelas páginas de Água-mãe. Embora às vezes ele pareça hesitar ao tocar em certos temas (como quando resolve explorar os dilemas vivenciados por Paulo quando da publicação de seu livro e a profusão de apropriações que ele sofre) Lins do Rego não vacila quando se trata de criar uma atmosfera de familiaridade em torno dos caracteres mais ordinários da vida da família da salina Maravilha, por exemplo. A tessitura mais elementar, das emoções subjetivas, dos objetos domésticos, dos afazeres cotidianos e dos trabalhos diários, essa Lins do Rego contempla com uma riqueza invejável, compreendendo sua lógica e sua dinâmica de uma forma que atesta seu arguto olhar de romancista como perscrutador da natureza humana mesmo nas suas manifestações mais aparentemente banais.

Com um estilo límpido, de períodos curtos e de poucos e precisos adjetivos, Lins do Rego faz de Água-mãe uma leitura tão agradável quanto fugaz. A grande quantidade de personagens – e, consequentemente, de histórias – não trunca a narrativa. Alternando as histórias individuais e fazendo-as se cruzar na costura da trama, Lins do Rego vai construindo questões de maior vulto, como a ascensão de novas classes na sociedade fluminense, o papel de destaque que pouco a pouco o futebol vai ganhando ou mesmo a simpatia inquebrantável do autor pela rústica e não raro sofrida vida dos trabalhadores, sejam eles pescadores, estivadores, camponeses, costureiras ou fazedores de sola de sapato.

Embora Água-mãe não tenha o destaque que possuem romances já clássicos de José Lins do Rego, tais como Usina (1936) ou Fogo morto (1943), não se pode dizer que ele não possua a marca de sua idiossincrasia e a expressão de seus valores, temas e simpatias, enfim, de seu legado literário, o qual o fez um dos grandes da literatura brasileira.