Memórias beatniks

em 16 de junho de 2014

Informações

  • Autor: Diane Di Prima
  • Tradutor: Ludimila Hashimoto
  • Editora: Veneta
  • Páginas: 216
  • Ano de Lançamento: 2013
  • Preço Sugerido: R$ 24,90

Creio já ser do conhecimento de um número bastante expressivo de leitores aquela discussão sobre as várias camadas que formam a obra literária e como o mesmo livro, lido por pessoas diferentes, pode “funcionar” de formas distintas  alguns, inclusive, chamam isso de “leitura criativa”. Sem querer me embrenhar numa senda relativista cuja “liberdade” não costumo apreciar, gostaria de tecer algumas considerações sobre o livro Memórias de uma beatnik, da poetisa Diane Di Prima, sublinhando como diferentes dimensões de leitura, ou formas de encarar a obra literária, modulam a forma como se pode fruí-la.

Um mínimo conhecimento sobre a trajetória literária e existencial de Di Prima é essencial para que se possa ler as páginas de Memórias de uma beatnik de uma maneira em que não as tratemos como um diário ou conjunto de rememorações aleatório. Ou, pelo menos, para que não o tratemos “somente” enquanto construção semi-autobiográfica, de caráter profundamente pessoal.

Para compreender aquelas notas memorialísticas para além do seu conteúdo propriamente dito, se faz necessário que elas sejam situadas dentro do universo de experiências que é a matéria-prima da consciência e do ato literário de Di Prima. Do contrário, as memórias têm um quê de aleatório e tipificante, pois carregam naqueles traços mais característicos da cultura e do modo de vida beatnik, limitando-se a construir uma trama solta em torno dessas questões.

Se as memórias forem localizadas num momento específico, num conjunto de nexos biográficos, literários e históricos, a leitura é qualitativamente diferente. Aqueles apontamentos ajuntados em forma de narrativa se redimensionam, expressam mais do que seu significado imediato, ganham um sentido simbólico, um sentido que se aprofunda na medida em que estabelece diálogo com a vida de Di Prima e com o que foi o movimento beatnik.

Se ponderarmos sobre algumas das situações presentes no livro, é possível perceber como opera essa modificação de perspectiva e de fruição.

Em diversos momentos Di Prima narra suas peripécias sexuais, notáveis quantitativa e qualitativamente falando. A prosa da qual ela se utiliza para narrar essas relações está longe de ser primorosa, de modo que a narrativa pela narrativa não tem grande valor transcendental em si, pois não carrega nenhum twist idiossincrático nem qualquer exploração de sentido mais profundo  como a literatura de Anais Nïn, por exemplo.

Contudo, se compreendermos essa narrativa como a trajetória de uma poetisa beatnik, que cultivou uma vida sexual intensa num ambiente em que esse comportamento se tornava uma prática subversiva, pois se rebelava contra uma ordem moral chamada de “careta” ou de “quadrada”, a memória deixa de ser somente uma nota pessoal, tornando-se algo a mais do que isso. Ela informa sobre o pensamento de Di Prima, sobre a forma como viveu sua vida dentro de um mundo concreto, tornando possível ao leitor compreender que seu ato era mais do que uma entrega carnal somente, mas uma abertura experimental que se plasmava também para os domínios do sexo. E tudo isso como parte de um movimento histórico mais amplo, que englobava a contracultura e as contradições do american way of life, para citar somente dois exemplos.

A criação poética de Di Prima, por conta da qual ela se tornou conhecida, é outra dimensão dessa mesma experimentação presente na sua condução dos assuntos sexuais. É possível perceber que, conhecendo as memórias e o que elas dizem sobre as experimentações sexuais de Di Prima, pode-se construir nexos com o próprio ato de criação poética da autora, interpretando-os dialogicamente.

Porém, se ficarmos restritos às situações narradas no livro de memórias, essa noção será diluída, senão perdida. Ela ganha sentido na medida em que se podem encontrar e entender os nexos que a conectam com a vida do poetisa, dando-lhe raízes e ramificações, um solo e um firmamento, uma concretude histórica de maior envergadura.

A prosa funcional de Memórias de uma beatnik é, de certa forma, uma tentativa de transformar fragmentos de um diário em uma narrativa mais ou menos coerente. Isso faz o livro soar um pouco estranho, pois a poesia de Diane Di Prima se caracterizava justamente por ansiar algo muito diferente disso, se não o oposto. Em seus versos há uma vontade libertária que faz de cada palavra uma tentativa de transcender, de ser mais do que aquilo que é possível captar de imediato, na superfície, ao rés do texto. Num dos versos de Paracelsus isso fica bastante evidente:

Extraia
o piche, a grudenta
substância
coração
das coisas (tradução livre)

Algo parecido ocorre com os versos finais de Canção de ano novo budista, em que a vontade por criação e transcendência assume uma visualidade plástica peculiar:

na aurora confrontou Shiva, a fria luz
revelou os “mundos nascidos da mente”, e tão simplesmente que
eu os observei propagar-se, transbordando,
ou, simplesmente, um espelho refletindo o outro,
e então quebrei os espelhos, você já não estava à vista
nem propósito algum, fitei essa nova escuridão
os mundos nascidos da mente fugiram, e a mente desligou-se:

uma loucura, ou um começo? (tradução livre)

Torno, pois, à colocação que abriu esse texto: dependendo da forma de encarar a leitura de Memórias de uma beatnik, ela pode se tornar uma rememoração que “finda nela mesma”, ou um conjunto de situações que extrapola as amarras da significação individual e ajuda a entender o que é a poesia de Di Prima e algumas das aspirações mais instigantes dos beatniks. Em outras palavras, o livro pode “funcionar” como uma forma de conhecer a vida material e prática da poetisa no cotidiano para tentar entender como ela chegou a criar poesia como criou, é uma oportunidade de encontrar o DNA existencial de sua poesia.

Se encararmos o livro como documento histórico e biográfico, ele certamente tem muito a contribuir, a elucidar e a enriquecer, tanto para si quanto para além dele. Se encararmos como uma leitura “em si”, ele acaba dilacerado de alguns de seus sentidos mais rascantes e prolíficos. A conclusão parece  mas só parece  tautológica: assim como a vida de Di Prima ajuda a compreender suas memórias, suas memórias também ajudam a compreender sua vida.

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