A Ilha da Estrela Solitária

em 8 de março de 2013

“Eu prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras.”

Quem disse isso foi a presidente Dilma Rousseff. Lembrei dessa frase ao ler os periódicos da última semana que, para a minha surpresa, noticiavam uma revolta para com a presença da blogueira cubana Yoani Sánchez aqui no Brasil.

Para quem não sabe (apesar de, a essa altura, acreditar que todos saibam), Yoani ficou conhecida mundialmente por seu blog, Geração Y, que utiliza para criticar o regime da “ilha” – codinome que usa para se referir a Cuba.

Depois de algumas (20) tentativas de deixar o país, Yoani conseguiu permissão do governo cubano para vir ao Brasil dar um milhão de entrevistas e apresentar o documentário Conexão Cuba-Honduras, em que participou a convite do diretor baiano Dado Galvão. Ou, pelo menos, esse era o seu intuito.

Em alguns lugares, como Feira de Santana (Bahia), a blogueira não conseguiu fazê-lo por causa de manifestantes que, em defesa de Cuba, silenciaram Yoani porque …por que mesmo?

Como jornalista, cursando Relações Internacionais e cidadã parte de uma democracia, fiquei muito impressionada com a reação desse setor da esquerda. Calar uma dissidente? Pelo bem de Cuba? Sob qual pretexto?

Vejam bem, apesar do sobrenome americano, não sou dessas pessoas que tem Cuba como a pária do mundo. Acho que o país alcançou níveis sociais invejáveis através de suas políticas públicas. Pelo que dizem por aí (e eu acredito ser verdade), os sistemas cubanos de educação, saúde e esportes são exemplares e deixam muita, mas muita democracia no chinelo.

Dito isso, hemos de convir que um dos piores defeitos do governo Castro é a repressão; “capenga” ou não, é uma repressão característica de um regime socialista que fere direitos [civis] básicos . Porque uma delas resolveu colocar a boca no trombone e adquiriu notoriedade internacional por isso, deve ser considerada agente da CIA, uma infiltrada, ou uma imperialista disfarçada de “Maria-mijona”? Ora, ora.

O que me assusta não é a defesa ou solidariedade à ilha da estrela solitária; nem a fantasia que envolve a CIA me assusta (a gente vê de tudo nesse mundo mesmo). O que choca, nessa recepção calorosa, é a agressividade, os puxões de cabelo, a intolerância a uma pessoa pela sua crítica. E, o que é pior, a partir de um imaginário totalmente romantizado. Como disse brilhantemente Francisco Ferraz, professor de Ciência Política da UFRGS, é típico do ser humano viver grandes episódios [como a Guerra Fria] “vicariamente, como leitores curiosos ou espectadores distantes, que podem escolher o que, quanto, quando e como desejam incorporá-los à sua vida”.

Mas por que o ser humano ainda vive episódios como a Guerra Fria? Que coisa mais ultrapassada, atacar uma dissidente por ser, como disse Ferraz, uma das últimas personalizações desse momento histórico.

Minha sugestão, a quem achar que vale a pena: vamos projetar essa energia, toda a famigerada opinião pública, para lutar pelo fim da repressão a Julian Assange; ou, se a luta é sócio-ambiental, para combater Belo Monte; para que a cidade seja para todos; para que mendigos parem de ser mortos; por moradia e comida; por diversão e arte; por democracia; pelo barulho da imprensa. Em suma, pela liberdade.

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