Guerra que vivi, mas não vi

Acho que estar em um país em guerra não é algo que muita gente planeje para as férias, ou para vida. Se me perguntassem antes, eu nunca diria que aos dezessete anos já teria conhecido um abrigo antiaéreo e obedecido toque de recolher, mas aconteceu de, em julho de 2006, eu estar em Israel quando o país entrou em guerra com o Líbano.

Um pouco de contexto: meu tio e primos moram lá, em um kibutz perto de Nazaré, no norte do país, a umas 2 ou 3 horas da fronteira com o Líbano. Meses antes um amigo antigo também tinha se mudado para Tel Aviv, e eu estava lá visitando todos eles. No dia 12 de julho de 2006, o Hezbollah, um grupo paramilitar do Líbano, sequestrou dois soldados israelenses que tinham base na fronteira e se seguiram 34 dias de guerra. Os detalhes a internet pode te contar. Leia mais

Sou feminista em cima da cadeira

Ainda no prólogo, intitulado “O pior aniversário de todos os tempos”, Caitlin Moran aponta sua maior inspiração para o título do livro Como ser mulher: “Quando Simone de Beauvoir disse: ‘Ninguém nasce mulher; torna-se mulher’, ela não sabia nem a metade.”. E é isso que a autora passa a demonstrar, a partir de um ponto de vista muito pessoal e pouco acadêmico: que nascer com o duplo cromossomo XX não significa intuir prontamente todas as implicações do que é ser mulher.

Eu já tinha encarado o livro de Moran algumas vezes na livraria (a capa é vistosa: o rosa com verde chama a atenção, bem como o “rasgo” iconoclasta, que revela uma ilustração clássica de uma operária, supostamente escondida atrás de uma pin-up, da qual restou apenas a porção dos peitos), mas nunca o folheara – ou lera suas orelhas. 1 Sabia apenas que era um dos primeiros livros publicados pela Editora Paralela, selo da Companhia das Letras voltado a títulos mais comerciais e de entretenimento. Leia mais

  1. Ok, isso soou de um jeito estranho.

Na cola de Jack, o Estripador

“Como diria Jack, vamos por partes…”

Esses dias, por razão de uma pesquisa realizada no trabalho, me lembrei dessa piadinha mórbida. Buscava uma reportagem na Folha de São Paulo de 1988, escrita por Leão Serva, sobre um roteiro turístico que tinha como atração principal os caminhos de Jack, o Estripador.

Senti até um calafrio ao ler a matéria inteira: turistas vão a Londres visitar as ruelas e becos mais inóspitos do bairro de East End só para ver os lugares por onde passou o serial killer mais famoso, quiçá, da história. Leia mais

A Ilha da Estrela Solitária

“Eu prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras.”

Quem disse isso foi a presidente Dilma Rousseff. Lembrei dessa frase ao ler os periódicos da última semana que, para a minha surpresa, noticiavam uma revolta para com a presença da blogueira cubana Yoani Sánchez aqui no Brasil.

Para quem não sabe (apesar de, a essa altura, acreditar que todos saibam), Yoani ficou conhecida mundialmente por seu blog, Geração Y, que utiliza para criticar o regime da “ilha” – codinome que usa para se referir a Cuba. Leia mais

TOC do Tuca: Cinquenta tons de cinza

(Essa coisa de ter uma coluna mensal é uma benção e uma maldição. A parte da benção é que dá tempo de ter uma ideia e desenvolvê-la ao máximo. O lado ruim é que não dá pra falar sobre tudo: tipo, sobre o trailer que vi umas 15 vezes num dia desses e que tenho visto diariamente desde então; ou sobre uma lista de leituras que vi na internet e que tenho seguido à risca; ou sobre um hábito meu desde criança, que poderia ser acompanhado de um “Manual prático de bons modos em livrarias”; ou sobre como a última coluna da Vanessa Barbara mexeu demais comigo; ou sobre o tipo de sociedade que fez um guri na minha timeline apagar, depois de poucos segundos, um desabafo em que se assumia gay. Divago. Abaixo, o texto sobre o qual passei o mês pensando.) Leia mais

Jogos Vorazes e o feminismo

O diálogo (abaixo), que se dá entre uma senhora e sua neta na extinta série Commander in Chief foi citado por Anita Sarkeesian em um de seus vídeos. Gostaria de dizer que a moça é conhecida tão somente por discutir em seu canal do YouTube, Feminist Frequency, diversas questões sobre a representação de gêneros e minorias na cultura pop. Gostaria muito. No entanto, sua aparição no Guardian, no Wired, no Salon e no Jezebel foi devida à trollagem em massa sofrida após ela pedir ajuda num site de crowdfunding para a produção de uma série de vídeos sobre estereótipos femininos em videogames. Leia mais

Desafio – Autoras de literatura contemporânea brasileira

Ok, não sou desenhista. Deal with it.

A blogosfera literária adora desafios, aparentemente. Ainda que, num primeiro momento, eu tenha torcido o nariz até para o nome (acho que desafio tem um tom mais de “situação ou grande problema a ser vencido ou superado” do que de “chamamento para qualquer modalidade de jogo, peleja, competição etc.”), depois percebi que eles têm uma função importante: a de tirar o leitor de sua “zona de conforto”. Afinal, é mais fácil continuar lendo obras de estilo semelhante àquelas que nos agradam do que experimentar coisas novas.

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Gatos Empoleirados – Bloomear

Adoro bloomear pelas ruas da pauliceia chuvosa e nebulosa desde os minguados meses de junho e julho de 2009, quando encerrei a leitura de Ulysses. O motivo para começar a me interessar por James Joyce foi Os Infiltrados, de Martin Scorsese. Esse filme de 2006, que rendeu a Scorsese seu primeiro Oscar de Melhor Diretor em 2007, fala sobre o domínio da máfia dos descendentes de irlandeses em Boston – não julguem, só me interessei sobre a União Soviética após assistir Rocky IV. Parece banal, mas quando Jack Nicholson diz “Non serviam.” e o menino Colin – que na versão adulta é interpretado por Matt Damon – responde “James Joyce”, um estalo bizarro me tomou de assalto. Nunca corri atrás do autor, nem sequer me interessei por ele e do nada um interesse é plantado e se desenvolve ao longo de dois anos – primeiro pesquisando sobre a Irlanda e depois sobre o autor em si. Leia mais

A internet é um campo de batalha: camerawar.tv

Um homem com uma câmera preenche a tela. Olhos colocados no viewfinder – câmera de vídeo – indicam o uso do aparelho como uma arma, uma potente ironia que remonta à máxima godardiana: “para ver é preciso filmar”. A tensão sonora e o super-close anunciam sem cerimônias: “This is a new cinema…” Leia mais

Confundindo livros

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“Mas esse livro aqui não é sobre isso. Os livros não são sobre ‘vida real’. Os livros são sobre outros livros” (p. 38, A trama do casamento)

(Antes de tudo, um aviso: este texto não é uma resenha de A trama do casamento, de Jeffrey Eugenides. Ainda estou me aproximando da metade do livro.)

Uma das coisas que mais me perguntam é “o que você anda lendo?”. Em dias normais, eu geralmente cito uma lista de três ou quatro livros que se alternam em minhas mãos. Ultimamente, meu cérebro tem pifado por alguns segundos antes que eu consiga dar a resposta: leituras para resenhar, para o mestrado, para preparação da cobertura da FLIP, para um adequado convívio social e para o prazer exclusivamente pessoal têm se acumulado. Nesses casos, eu normalmente respondo algo como “Agora mesmo eu estou lendo isso…” e mostro a capa; depois, prossigo com um “Mas se for tentar me lembrar de todos os livros que comecei recentemente, pffff…”. Leia mais

Bibliomania – As boas e velhas listas

Faz parte da “natureza” das listas serem polêmicas. Isso se dá, entre outras coisas, por conta daquela máxima – que não lembro de onde veio – de que “cada escolha é uma renúncia”. Por esse motivo, os autores de listas são obrigados a inserirem elementos e deixarem outros de lado. Em que pese a subjetividade desse autor, critérios vários orbitam em torno da feitura da lista, desde afinidades pessoais e enquadramentos nacionalistas até bairrismos e, porque não dizer, caracteres “ideologizantes” no sentido mais lato do termo.

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Bibliomania – Leitura bordejante

Faz parte do ato de ser um leitor possuir hábitos arraigados de leitura, e uma das partes mais legais disso é justamente compartilhar um pouco delas: suas manias, cacoetes e costumes relacionados a livros e à leitura. A idéia dessa série de artigos é justamente relatar as idiossincrasias bibliófilas de cada um, promover o diálogo entre as diferentes opiniões sobre livros e leitura, e, porque não dizer, conhecermos um pouco mais sobre os hábitos leitores de cada um, uma vez que todos temos certos “procedimentos” que regem nossa leitura.

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