Eu acredito que a literatura tem, sim, uma função. Não acho que ler bons livros faça de alguém uma pessoa melhor, nem que seja razoável julgar uma pessoa pelos livros que ela lê ou deixa de ler, nem que o mundo se tornaria pior se a literatura desaparecesse de um dia para o outro. Mas não ser imprescindível não é sinônimo de não fazer nenhuma diferença. E eu acredito, sim, que a literatura faz diferença – uma diferença que transcende o (restrito) universo de leitores de ficção.

Tentarei explicar por meio de um exemplo: o que faz Nova York parecer para mim, que nunca a visitei, uma cidade muito mais interessante do que Dubai? E não falo aqui de estética, mas do que alguns chamariam de “espírito da cidade”. Certamente tem a ver com a extensa tradição de romancistas (e também de cineastas, de artistas plásticos…) que exploraram a primeira à exaustão em suas obras ao longo de séculos, algo que não se repete no caso da cidade árabe. As imagens que herdamos desses romances, contos e filmes interferem sobre a realidade desses lugares e a maneira como o interpretamos. São, afinal, as narrativas, sejam elas expressas em obras de arte ou não, que conferem a cada região uma atmosfera psicológica específica. E o mesmo acontece com as nações: cada uma herda e reinventa seu senso histórico a partir das narrativas de sua tradição. Isso não morreria sem a literatura – a tradição pode ter sua base no relato oral –, mas se caracterizaria de uma forma distinta.

Isso tudo se aplica no caso de nações já existentes; a questão se torna ainda mais complexa quando tentamos compreender a importância das narrativas e, mais especificamente, da literatura na criação de uma nação que ainda não existe. Foi esse o desafio que o angolano Pepetela se propôs ao escrever Mayombe, seu primeiro romance, publicado em 1980 e que, agora, está sendo reeditado no Brasil pela Editora Leya.

O foco de ação em Mayombe situa-se no cotidiano de uma célula de guerrilheiros ligados ao Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), organização militar e de orientação marxista da qual o próprio Pepetela fez parte nos anos 1970, que combateu os colonizadores portugueses durante a Guerra de Independência de Angola. Ao longo do romance, alterna-se um narrador em terceira pessoa e depoimentos de alguns dos personagens guerrilheiros, cada um com uma voz própria cuidadosamente construída. Pouco a pouco, o leitor vai se familiarizando com o momento histórico atravessado pelo país africano durante o seu processo de separação de Portugal.

No entanto, o maior adversário dos guerrilheiros não parece ser o colonizador propriamente dito, mas os conflitos existentes entre eles mesmos. A escassez de alimentos, a desorganização burocrática, as discordâncias ideológicas, os desentendimentos surgidos a partir de relacionamentos em crise – tudo serve para alimentar a intolerância étnica e ressaltar as diferenças culturais e de origem dos combatentes. Assim, os gestos de traição histórica protagonizados por cada uma das etnias presentes no grupo, muitas vezes estimulados de maneira estratégica pelos portugueses, sobrepõem-se sempre à então ainda inexistente identidade nacional angolana.

Mas se, por um lado, os colonizadores foram responsáveis por incitar esse tipo de desentendimento durante décadas, é também graças à sua influência que os combatentes encontram uma ferramenta para superá-lo. A coesão do grupo surge a partir da condição comum de oprimidos, e seus debates se dão na língua do ocupante – a única comum a todos eles, que têm como primeira língua aquela falada por suas etnias.

Assim, o emprego da língua em Mayombe assume um caráter revolucionário, refletindo o esforço do autor em contribuir para a criação de uma identidade nacional em Angola. Os guerrilheiros sabem que a superação do tribalismo deve passar pela criação de uma via comum de comunicação entre suas várias etnias. Porém, se sua identidade enquanto grupo surge justamente da oposição ao colonizador, como adotar a sua língua, ela própria uma herança colonial?

Surge então a necessidade de se criar uma língua tipicamente angolana. Uma língua que não negue a herança colonial, por ser ela parte fundamental da formação do país enquanto nação, mas que possa se apropriar dessa herança e subvertê-la, agregando a ela um repertório de palavras e estruturas tipicamente africanas. Esse processo criativo não seria possível, ao menos não de forma natural, no uso cotidiano, mas pode ser realizado de forma plena no contexto de um romance – e Pepetela parecia ter isso em mente ao escrever Mayombe. É a linguagem literária em uma de suas facetas mais revolucionárias.

O enredo do livro também se contamina por essa ânsia de transformação,  desencadeando-se em um crescente contínuo. Desde o início, fica claro para o leitor que a única resolução possível para a situação dos guerrilheiros (e para a narrativa) é o combate direto com o inimigo. Nos momentos de maior tensão, cercados pela floresta que empresta o nome ao livro, os membros do MPLA deixam de lado suas dissidências e se unem em torno do interesse comum pela independência do país. Renegam suas origens étnicas e se dispõem a morrer lutando contra os tugas – não como kimbundos, kikongos ou membros de outra tribo, mas como angolanos.

 

Querem hoje que eu seja tribalista! De que tribo, pergunto eu. De que tribo, se eu sou de todas as tribos, não só de Angola, como da África? Não falo eu o swahili, não aprendi eu o haussa com um nigeriano? Qual é a minha língua, eu, que não dizia uma frase sem empregar palavras de línguas diferentes? E agora, que utilizo para falar com os camaradas, para deles ser compreendido? O português. A que tribo angolana pertence a língua portuguesa?

 

 

É uma abordagem utópica, mas de forma alguma ingênua. Tanto é que Pepetela encontra o momento exato para interromper a narrativa do romance, excluindo de sua obra as inevitáveis desilusões que o futuro traria ao grupo de guerrilheiros, ao Movimento e à população angolana. Em Mayombe, não há espaço para a trágica Guerra Civil que sucedeu à Guerra de Independência, tampouco para o fracasso do projeto de implantação do socialismo do MPLA, um fracasso cujos indícios já aparecem ao longo do livro. Apesar de seu tom, o texto não se propõe a constituir um documento histórico; dedica-se antes à criação de um passado utópico que servirá de referência para as gerações futuras. Na literatura, há espaço de sobra para as utopias – e não me parece haver melhor ponto de partida para uma nação.