“Se vem, vem; se não vem, não vem”, entrevista com Horacio Castellanos Moya

em 2 de agosto de 2013

Informações

  • Autor: Horacio Castellanos Moya
  • Tradutor: Antônio Xerxenesky
  • Editora: Rocco
  • Páginas: 112
  • Ano de Lançamento: 2013
  • Preço Sugerido: R$23,50

Escritores descontentes porque seus livros “não foram bem compreendidos” constituem um fenômeno comum, geralmente associado a uma série de características negativas: imaturidade, insegurança, mediocridade. O escritor hondurenho Horacio Castellanos Moya não faz parte deste grupo. Mas, se o fizesse, seria um caso muito particular: ele teria razão.

Em 1997, Moya publicou Asco, seu terceiro livro, por uma pequena editora de El Salvador, país no qual viveu entre os 4 e o 23 anos de idade (até 1979, quando o cenário político conturbado motivou-o a se autoexilar no Canadá). Com pouco menos de cem páginas, o romance surgiu como um mero exercício de linguagem, no qual o autor buscou simular o estilo adotado pelo escritor austríaco Thomas Benhard em O Náufrago.

No livro de Bernhard, o narrador empilha uma série de duras críticas à sociedade austríaca. Da mesma forma, o personagem de Moya desqualifica os mais diversos aspectos da vida na capital El Salvador, abordando coisas tão distintas como as suas universidades, a cerveja local e a desfiguração do espaço urbano em razão da especulação imobiliária. É uma narrativa repleta de repulsa e mal-humor. Nem mesmo as pupusas, prato típico do país, foram poupadas.

Nas palavras de seu autor, Asco não almejava ser mais do que uma “catarse brincalhona”. Mas nem todos os salvadorenhos o compreenderam assim: logo após a publicação, Moya foi jurado de morte devido às críticas presentes no livro, vendo-se obrigado a cancelar uma viagem que faria ao país. Passados 15 anos, Asco finalmente ganhou uma tradução para o português (é o primeiro romance do autor lançado no Brasil). Por e-mail, Horacio Castellanos Moya concedeu uma entrevista exclusiva para o Posfácio, na qual nos conta mais sobre a história e a repercussão do livro.

 

Pode parecer estranho falar de um livro tantos anos após a sua primeira edição, mas talvez isso lhe possibilite uma visão mais clara de sua repercussão. Como você situa Asco no contexto de sua obra?

HCM: É um livro atípico no contexto da minha obra. Em primeiro lugar, porque se trata de um exercício de imitação e, portanto, obedece a diretrizes estilísticas muito particulares; em segundo lugar, pelo tipo de reações extremas que provocou em El Salvador. Além disso, é o meu livro mais lido no país.

 

Asco é o resultado de uma tentativa de escrever simulando o estilo de Thomas Bernhard. Por que a decisão de escrever assumidamente sob a sombra de outro autor?

HCM: Tudo foi muito espontâneo. Eu me sentia intoxicado pela leitura de alguns dos livros de Bernhard, e comecei a escrever o texto como uma espécie de catarse brincalhona, para tirar de mim a voz pegajosa de Bernhard. Não sabia para onde estava indo, nem se daria certo; tampouco me propunha a escrever um livro. Tinha umas vinte páginas prontas e supunha que era um texto fadado à lixeira. Mas, de repente, ele cresceu e se transformou no que é. Ainda assim, ficou engavetado por quase dois anos até que eu pensasse em publicá-lo. 

 

E como foram as etapas seguintes de sua carreira de escritor? Como você fez para deixar essa influência para trás, se é que foi necessário algum esforço?

HCM: Bernhard ficou em Asco, esse já foi o meu esforço para me livrar dele; é um autor que não releio. E as etapas de minha carreira não são muito claras para mim, porque nem sequer tenho certeza de que a minha forma de escrever constitui uma carreira, no sentido do escritor profissional que precisa escrever diariamente, não importa o que aconteça, e precisa produzir livros para agradar a um público. Não é o meu caso. Se vem, vem; se não vem, não vem. 

 

É bem conhecido o fato de que você foi ameaçado de morte por causa da publicação de Asco. Isso impactou de alguma maneira seus livros posteriores, ou influiu na sua maneira de escrever?

HCM: Escrevi livros muito mais pesados. Mas não fico pensando em que tema é mais adequado para um livro de ficção. Não funciono assim. O livro sai de dentro de mim, já com o tema e tudo incluído. Tem que vir de dentro, como uma torrente, como se meu corpo excretasse algo que estivesse me envenenado; senão, não o escrevo. É claro que com os ensaios a coisa é diferente. 

 

Tenho a impressão de que boa parte da raiva em relação ao livro vem de pessoas que não estão habituadas com as convenções literárias. É como se houvesse uma confusão entre a busca do literário e a busca pela verdade. O que você acha disso?

HCM: É você quem está dizendo. Em primeiro lugar, alguns leitores pegaram o livro pela morbidez do que está sendo dito, sem considerar que se trata de um artefato literário, de um entretenimento. Em segundo lugar, acreditaram que as opiniões do personagem são as minhas opiniões, como se o livro fosse um depoimento, e não uma obra de ficção. Mas, enfim, também houve muitos leitores que compreenderam com clareza a natureza do livro. 

 

Hoje em dia você ainda enfrenta algum tipo de problema ao visitar San Salvador?

HCM: El Salvador é um país muito violento. Os problemas que enfrento são os mesmos que enfrenta a maioria de seus cidadãos, que podem ser assassinados a qualquer instante. Mas, para que isso aconteça, você não precisa escrever um livro. É a vida cotidiana.

 

Ainda que seja um trabalho de ficção, o livro parte de sua percepção subjetiva do país à época. Você retornou a San Salvador nos últimos anos? O que mudou desde a publicação de Asco, quinze anos atrás?

 

Vou lá ao menos uma vez por ano. A respeito do que mudou, só posso lhe dizer que, quando estou lá, sempre aparece alguém para me dizer que devo escrever uma segunda parte de Asco.

 

 

Muitos leitores têm seu primeiro (ou mesmo único) contato com a cultura de El Salvador por meio de Asco. O que você pensa disso?

HCM: Estes são aspectos que não estão nas mãos do escritor e que não me preocupam. Não sou funcionário da secretaria de turismo.

 

Mas isso não impede que você nos recomende alguns escritores salvadorenhos!

HCM: Gosto de muitos. O maior de todos é o poeta Roque Dalton, que foi assassinado pelos próprios companheiros de luta (algo que abalou verdadeiramente a imagem do país). Da minha geração, posso citar dois narradores: Rafael Menjívar Ochoa (já falecido) e Jacinta Escudos. E, entre a gente jovem, há Jorge Galán, um poeta muito reconhecido internacionalmente, e bons contistas, como Claudia Hernández e Salvador Canjura.

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