O realismo nos Estados Unidos iniciou-se em meados do século XIX, e representou para a literatura norte-americana a introdução de novos ares e novas questões, que vinham para contemplar na ficção os problemas que eram enfrentados na arena histórica daquela sociedade. Como historiador que sou, não consigo pensar em realismo sem pensar, concomitantemente, num espectro de transformações em curso na sociedade estadunidense, desde as estruturas econômicas e políticas até a cultura e a vida prática do cotidiano. Acho difícil considerar que a simultaneidade cronológica dos dois fatos seja mera coincidência.

Algo similar pode ser dito a respeito do naturalismo, que no rastro do realismo também passou a fazer parte da literatura norte-americana do período, em especial por conta da influência que Zola passara a exercer sobre a literatura francesa e europeia na segunda metade do século XIX. Precisamente nessa “zona de influência” e nesse decurso histórico é que encontramos o escritor Frank Norris (1870-1902).

Filho de uma classe abastada o suficiente para enviá-lo à Europa na década de 1880, Norris conheceu o naturalismo de Zola quando de seus estudos na Inglaterra e na França. As proposições literárias dos livros do escritor francês exerceram influência marcante em Norris, que, ao voltar para os Estados Unidos, dedicou-se a interpretar e retratar a vida social estadunidense através dos pressupostos estilísticos e filosóficos naturalistas. A partir dessa abordagem, que não deixou de carregar a tradição vitoriana em sua linguagem e urdidura, Norris foi um dos escritores pioneiros da escola naturalista nos Estados Unidos, feito que lhe valeu o alcunha de “o Zola americano”.

É sob a sombra do naturalismo que encontramos o romance McTeague – Uma história de San Francisco, publicado em 1899. O livro conta a história de McTeague, um prático de dentista que, por uma série de infortúnios envolvendo a ganância e a avareza – tanto de si como dos outros e do ambiente em que estavam –, acaba por cair em desgraça se tornando um assassino. O romance é considerado uma obra exemplar do estilo naturalista, especialmente pelo seu retrato do homem como um ser que, embora “domesticado civilmente”, continua sendo atormentado – não raro dominado – por instintos animalescos e bestiais, suposta conjunção de sua genealogia evolutiva com o fatalismo do meio em que vive.

A sinopse e a leitura apresentadas acima, embora cubram áreas e questões importantes da obra, estão longe de a explicarem ou fornecerem uma exegese digna e ampla o suficiente para contemplar sua riqueza. Justamente nesse ponto é que a presente resenha gostaria de insistir.

Quando escrevi, alguns parágrafos acima, que não considero coincidência o fato de o realismo e o naturalismo terem surgido num contexto histórico de profundas mudanças na sociedade estadunidense, o fiz porque o romance McTeague serve muito bem como elemento empírico a fornecer a base para uma análise que queira sustentar tal opinião.

O protagonista McTeague é um sujeito gigante. Tem uma cabeleira loura a lhe encimar a cabeça, mandíbula saliente e cenho projetado o suficiente para chamar a atenção – traços que em tempos frenológicos como foram as últimas décadas do século XIX, insinuam algo de moralmente primitivo em sua persona. Ele havia sido um mineiro que aprendera o ofício odontológico seguindo o prático de dentista que eventualmente aparecia na cidadezinha onde morava. A partir disso ele começou a exercer a profissão apesar da falta da formação acadêmica especializada, e conseguiu ascender à condição de possuidor de um pequeno consultório, onde também dormia e habitava.

O protagonista era amigo de Marcus Schouler, um sujeito de ideias subversivas que trabalhava numa fábrica de arreios e insinuava cortejos em direção a uma prima sua, Trina, filha de um negociante de San Francisco. Esses três personagens formam, minimamente, a base sobre a qual se apoia boa parte do romance. O elemento que falta é justamente o conflito, o qual aparece quando, tendo desistido Marcus do cortejo de Trina em favor de McTeague, descobre que a prima havia ganhado cinco mil dólares na loteria.

A partir do desenrolar desse evento, toda a história muda, pois Marcus se arrepende de ter desistido de sua corte a Trina, McTeague e Trina se sentem materialmente seguros o suficiente para casar, e, talvez a mais desconcertante das transformações, Trina começa a sucumbir a uma avareza desmesurada. O elo que une os personagens é, como bem notou o diretor Eric Von Stronhein em sua adaptação de 1924, a ganância pelos cinco mil dólares e os desdobramentos dessa para o estado de coisas no qual eles se encontravam até então. A preocupação pecuniária passara a consumir-lhes os pensamentos noite e dia.

A amizade de Marcus e McTeague, que não fora abalada nem mesmo pela possibilidade de um triângulo amoroso, esmoreceu diante do súbito enriquecimento de Trina. As preocupações da última com relação aos juros e dividendos de seus cinco mil dólares passou a ocupar parte central de sua vida. McTeague, por sua vez, embora não fosse atraído diretamente pelo dinheiro, se indispôs com o amigo e com a mulher por conta das mudanças que se operaram por obra do dinheiro.

Norris consegue amarrar bem o enredo e conduzir outras tramas paralelas, como a do romance velado do velho Grannis e da Srta. Baker, ou da história do judeu Zerkow e da empregada Maria Macapa. A sucessão de eventos prepara os cenários e as situações para extrair-lhes expressividade e potencial simbólico posteriormente, como quando o leitor, após saber que McTeague muito almejava um dente de ouro para servir-lhe de tabuleta para o consultório e que o havia ganhado da antiga Trina, depara com a cena onde é obrigado a se desfazer do bem para evitar tocar nos preciosos cinco mil dólares que sua esposa tão ciosamente guarda.

As várias tramas, contudo, revelam significados concentrados em torno da questão central de McTeague, que, antes de uma venalidade fatal do homem – bem ao gosto dos naturalistas –, procura mostrar como a natureza bestial do homem vem à tona diante das circunstâncias que assim lhe impulsionam. A pergunta – que torna dúbia a intensidade do naturalismo de Norris – é: o homem é naturalmente vil, ou se torna vil porque as circunstâncias o pressionam a tornar-se vil? Se é a combinação dos fatores que forma a imagem de homem apresentada por Norris, então o rótulo “naturalista” dá conta de explicar a complexidade de tal retrato da realidade histórica?

Nesse sentido, ainda, cabe retomar o argumento inicial dessa resenha: a não coincidência do desenvolvimento do realismo e do naturalismo naquelas condições sócio-históricas. Tomando como pressuposto que uma das marcas centrais de McTeague é a exploração de Norris acerca da ganância, não se reveste de outro sentido o texto e sua análise de homem ao se saber que o final do século XIX foi o momento histórico em que o capitalismo monopolista instaurava suas bases na economia e na sociedade estadunidenses? Não cresce em sentidos e significados a obra literária saber que o avanço do capitalismo monopolista significou para muita gente o aumento da preocupação com o dinheiro visto que ele passava cada vez mais a ser um elemento de status e mesmo de sobrevivência? Que o “espírito” do capitalismo – para usar os recursos descritivos de Max Weber – passava cada vez mais a ditar regras de conduta e de comportamento dentro de condições objetivas de mudança?

Por mais que essas questões careçam de um aprofundamento que as esmiúce e lhes ampare em apontamentos e argumentações, creio que a ideia geral esteja minimamente expressa. Ainda que seja difícil sustentar que McTeague não é um romance naturalista, acredito que querer reduzi-lo a isso é agir de maneira errada. Não é a realidade que deve se encaixar na teoria, e sim a teoria que deve se desdobrar para dar conta de explicar a realidade, contemplando sua complexidade e sua natureza caótica.

Antes de um exemplo do que o naturalismo teve de mais ingênuo – seus determinismos ou a sustentação mais ou menos consciente de um darwinismo social –, creio ser McTeague uma subversiva leitura de seu tempo e das contradições da sociedade em que foi gestado.