Nos romances policiais de Sci-Fi a culpa também não é do mordomo

em 17 de outubro de 2013

Informações

  • Autor: Isaac Asimov
  • Tradutor: Aline Storto Pereira
  • Editora: Aleph
  • Páginas: 302
  • Ano de Lançamento: 2013
  • Preço Sugerido: R$46,00

Por mais que este livro se passe num futuro distópico e Isaac Asimov seja conhecido por suas obras de ficção cientifica, As Cavernas de Aço pode ser classificado como um romance policial clássico. Toda a caracterização do futuro é feita de forma a não forçar um final que dependa das inovações imaginadas por Asimov. O resultado não depende de nenhum milagre tecnológico. Quantos outros mistérios envolvendo robôs se desenvolvem dessa forma?

Neste universo criado por Asimov, a Terra colonizou os planetas próximos e a população terráquea continuou muito próxima do que temos hoje, enquanto os demais se desenvolveram de forma significativa em relação à tecnologia. Os 50 planetas colonizados são prósperos, com grande qualidade de vida para a baixa população e dependem fortemente de robôs, que se desenvolveram para assumir grande parte do trabalho a ser realizado. Já a Terra se tornou um conjunto de gigantescas cidades subterrâneas sem luz natural ou contato com ar puro, com população de quase oito bilhões de pessoas, risco de escassez de comida e resistente à adoção de robôs na sociedade. Os colonizadores se tornam então colonizados, com os planetas, ocupados a séculos atrás, desfrutando de tecnologia e avanços além do que a Terra poderia sonhar. A diferença é visível na qualidade de vida descrita e nos hábitos de cada sociedade. Nosso pequeno planeta se vê dominado política e militarmente pelos demais, com restrições de imigração e interferências no governo.

Asimov inicia a história na Terra, com o detetive Elijah (Lije) Baley. Ele é encarregado de solucionar um assassinato ocorrido em uma vila de Siderais no próprio planeta, tendo por parceiro durante a investigação um Robô, R Daneel Olivaw. A vítima, Roj Nemennuh Sarton, era um cientista Sideral que acreditava na possibilidade de inserção de Robôs na Terra como forma de melhorar a qualidade de vida da população. Sua morte é vista como um ato de terrorismo de grupos extremistas, de modo que Lije deve fazer o possível para evitar um incidente interplanetário. No passado, situações semelhantes causaram ocupações militares Siderais no planeta, o que ainda traumatiza parte da população.

No momento retratado pelo livro a sociedade Terráquea não utiliza mais dinheiro, vive de forma coletiva em cidades de milhões de pessoas abaixo da terra e se organiza de forma altamente hierarquizada. Por não existir mais moeda corrente, o emprego de cada cidadão determina seu prestígio social e seus direitos e privilégios, tais como banheiro privativo, maiores cotas de alimentos e até a possibilidade de poder sentar-se no transporte público. Trabalhadores normais são relegados a refeitórios e banheiros coletivos e habitações que se assemelham a dormitórios escolares. Já aqueles que não possuem emprego ou foram por algum motivo desclassificados são considerados a ralé da humanidade e vivem perto das bordas da cidade próximos do fim das mesmas, o que significa campo e espaço aberto, algo temido e desprezado.

Asimov, em suas outras obras, usou a trilogia (de sete livros) da Fundação para descrever o desenvolvimento da espécie humana ao longo de mil anos, com sua passagem por diferentes sistemas políticos e evoluções sociais. Neste primeiro livro da série Robôs, ele o faz de maneira muito mais sintética, mas não menos competente. Em um ou outro parágrafo, espalhados pelo meio da trama, ele consegue demonstrar as diferenças arraigadas em cada uma das sociedades, incluindo seus preconceitos, costumes e medos. Por mais que o livro se passe em uma distopia muitos séculos à frente, é perfeitamente possível relacionar as impressões e opiniões dos personagens com acontecimentos terríveis que presenciamos no último século.

O sentimento dos Terráqueos em relação aos Robôs e aos Siderais é muito próximo do fascismo. Tudo o que está errado na Terra é atribuído de alguma forma a eles, mesmo que pela simples presença ou existência. São os Robôs que tomam os empregos dos Terráqueos, são os Siderais que impedem o desenvolvimento ao interferir na Terra e impedir a migração aos seus planetas. Sempre há medo e ódio misturados quando as sociedades interagem. Grupos Medievalistas, que acreditam que a Terra seria perfeita sem alguns avanços, ganham espaço e atraem seguidores ao promover a violência e quebra de Robôs ao argumentar que os mesmos representam ameaça e perda de prestígio a todos os humanos. E, como prestígio e emprego são as moedas de troca para garantir alguns confortos básicos, instalam medo e revolta na população.

Em um trecho logo no início do livro, uma mulher tenta comprar sapatos em uma loja e é atendida por Robôs. O que se segue demonstra de forma clara o sentimento da população Terráquea em relação aos mesmos:

 

 – Olhem só. Ele chama aquelas coisas de homens! Qual o problema de vocês? Eles não são homens. São ro-bôs! – Ela destacou cada sílaba. – E vou te dizer o que eles fazem, caso você não saiba. Eles roubam os empregos dos homens. É por isso que são protegidos pelo governo. Eles trabalham em troca de nada e, por causa disso, famílias têm que morar lá nos abrigos e comer purê de levedura cru. Famílias decentes e trabalhadoras. Nós quebraríamos todos os robôs, se eu fosse chefe. Estou te dizendo!(…) Vim aqui esperando ser atendida por um humano. Eu sou uma cidadã. Eu tenho o direito de ser atendida por humanos.

 

Troque “robôs” por “imigrantes”, por exemplo, e temos como resultado um trecho assustador. E aí está o talento de Asimov: caracterizar em um parágrafo, de forma indireta, todo o estado atual de uma sociedade, seus preconceitos e medos.

O mesmo observamos do outro lado, com os Siderais:

 

– Em Aurora é possível haver tricentenários. (…) Nossa taxa de natalidade é baixa e o aumento da população é rigidamente controlado. Nós mantemos uma taxa definitiva robô/homem destinada a manter o indivíduo com maior conforto. É óbvio que as crianças passam por cuidadosos exames em busca de defeitos físicos e mentais antes que se permita que se desenvolvam.

 

O que para eles é algo lógico, corriqueiro e necessário para uma boa vida em sociedade é para os Terráqueos (e para nossos padrões atuais) simplesmente eugenia.

Mesmo sendo um livro escrito a mais de 50 anos, a mensagem central sobre os perigos do ódio entre parcelas da sociedade e os perigos que este traz a todos possivelmente se manterá atual. Em todas as épocas da humanidade foram observados preconceitos e alguns graus de xenofobia. Asimov nos mostra que a humanidade pode evoluir em alguns aspectos, mas algumas coisas infelizmente apenas mudam de foco, sem jamais deixar de existir.

Outro ponto a notar é que, assim como em outros livros de Asimov, a presença de personagens femininas é quase nula. Temos apenas a esposa de Lije na trama como personagem feminina significativa na Terra. Em relação aos Siderais, as mulheres são descritas de forma idealizada em relação à beleza, sempre mencionando que nunca são vistas fora de seus planetas.

Sendo este o primeiro livro da série e já se mostrando tão bom, é animadora a perspectiva do lançamento dos outros títulos pela Aleph aqui no Brasil.

Um comentário para “Nos romances policiais de Sci-Fi a culpa também não é do mordomo

  1. Um livro médio para o bom, um preço razoável e um autor consagrado e nunca datado !
    Já o tinha lido há décadas, mas agora tem seu momento neste século e merece uma revisita e uma relida.
    Muito legal o texto que li acima, e qualquer um terá sua dúvidas sanada por tais comentários a favor de Asimov, o meu mais querido morador ilustre de minha biblioteca pessoal de FC – ótima aquisição!
    Uma literatura para o século e bem vindo livro reeditado no Brazyl…valeu!!!

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