Saramago, Pessoa e o diálogo histórico-literário

em 24 de maio de 2013

Informações

  • Autor: José Saramago
  • Tradutor: -
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 416
  • Ano de Lançamento: 1988
  • Preço Sugerido: R$ 65,00

Até onde a obra literária dialoga com a história? Essa pergunta tem sido respondida de diversas – e antagônicas – formas de acordo com diferentes opiniões, pontos de vista, campos, tempos e ideias envolvidos. Há quem argumente que o escritor dialoga somente com sua própria individualidade. Há quem busque sustentar que todas as leituras são válidas. Há, também, quem sustente que, sendo a literatura fruto do trabalho do homem e existindo ela – e o homem – no tempo e no espaço, ela é inescapável e irremediavelmente social e histórica.

Quem já tenha lido alguma resenha minha sabe que eu faço parte desse terceiro grupo.

Reconhecendo a brevidade de meus estudos nesse sentido, me abstenho de construir juízos mais categóricos ou afirmações mais teóricas a esse respeito, mas gostaria de manter a interrogação inicial como um elemento constituinte desta resenha para que uma das questões principais do livro em questão, O ano da morte de Ricardo Reis, possa ser contemplada minimamente pela exegese aqui levada a cabo.

Colocações preliminares devidamente introduzidas, procedamos ao cotejo do romance do português José Saramago publicado em 1986. O personagem principal, ficcional que é, não é invenção de Saramago, mas sim do poeta, também português, Fernando Pessoa. Ricardo Reis é um dos pseudônimos de Pessoa, um de seus alter egos, se assim preferirmos. Ao contrário de sua persona original, Ricardo Reis não faleceu em 1935, mantendo-se vivo num ano crucial para a história portuguesa, europeia e mundial: o ano de 1936.

Consciente dessa insólita sobrevivência, e utilizando o potencial literário – e, porque não dizer, filosófico – dessa oportunidade, Saramago resolve acompanhar os passos de Ricardo Reis e contar sua história através de um romance que investiga sua existência no mundo conturbado de meados da década de 30.

A Guerra Civil Espanhola, os preparativos da Segunda Guerra Mundial em curso, a ascensão e consolidação dos totalitarismos, todos esses são emblemas que esboçam o vulto de 1936 para a história da humanidade. Mais do que o arrolar de fatos e eventos, no entanto, a historicidade desse período é narrada por Saramago com minúcias, especialmente aqueles acontecimentos que concernem a vida cotidiana e a vida pública de Portugal. A construção do regime salazarista, a nomeação dos ministros, os preparativos militares, a sanção de leis, a regulamentação dos ofícios, as manobras políticas, fragmentos e mais fragmentos dessa história sombria são desfiados por Saramago em seu romance.

Embora alguns fatos funcionem como emblemas e marcos, o escritor português dá conta de perscrutar-lhes em seus desdobramentos cotidianos, isto é, da forma como eles vieram a alterar o dia a dia das “pessoas comuns”. Para isso é que diferentes personagens vão entrando em cena, a arrumadeira Lídia, por exemplo, encontra sua vida a transformar-se tanto pelo seu contato com Ricardo Reis, quanto pelo incerto destino de seu irmão, um soldado da Marinha cujos ideais infaustamente diferem dos ideais salazaristas.

1936, portanto, mais do que um ano a localizar-nos cronologicamente frente à história, é a construção de um determinado processo, um processo que encontra-se manifesto tanto na intrincada condução das relações internacionais quanto no fortalecimento do fascismo e da direita, na constituição do ideário nacional até a intimidade da vida cotidiana. O ano da morte de Ricardo Reis, no entanto, não é uma obra historiográfica, mas uma obra que se vale de uma reconstrução historiográfica para deslindar outros aspectos de seu protagonista, o médico e poeta Ricardo Reis.

Enquanto tudo isso se passa, Ricardo Reis, que habitara o Brasil por alguns anos, volta a Portugal às vésperas desses eventos, e passa a fazer, involuntária e quiçá inconscientemente, parte dessa realidade em metamorfose. Ele se hospeda no Hotel Bragança e toma parte em seu cotidiano: faz suas refeições ali, compõe alguns de seus versos ali, trava contato com alguns hóspedes, faz-se amigo de alguns funcionários do lugar, etc.

Reis sonda as oportunidades de se estabelecer profissionalmente pela cidade. Busca um lugar para iniciar um consultório ou algum trabalho em que possa empregar os conhecimentos de seu ofício hipocrático. Tendo o hotel como base, ele passa os dias fora, à busca, e é no quarto desse hotel que ele recebe a inesperada – mas nem por isso menos ilustre – visita de Fernando Pessoa, o qual, embora morto, não havia ainda deixado esse mundo, pois, segundo ele, tem-se nove meses antes de nascer, tem-se mais nove depois da morte também.

Situando os leitores no tempo e em um específico estado de coisas, processo que ocorre concomitantemente ao desenrolar da trama individual de Reis, Saramago vai entabulando o diálogo entre as duas realidades. Se esse recurso narrativo não é uma novidade, não se pode dizer que ele não se revista de outros significados quando o personagem em questão é um alter ego de Fernando Pessoa.

É sabido que o poeta português tinha como um de seus ideais a dedicação à introspecção e ao mergulhar na própria individualidade. Do ponto de vista da poesia, essa jornada rumo ao âmago possui grande potencial, uma vez que a transcendentalidade, a autodescoberta e o lirismo não raro são vistos juntos. Está aí a própria poesia de Pessoa que não me deixa mentir.

Se abordarmos a questão de um outro ponto de vista, no entanto, o mergulho para dentro acaba por obscurecer certas questão “de fora”. A introspecção, embora não esteja fora do mundo externo, se volta a explorações não tão diretamente ligadas a ele. Fernando Pessoa cultivava uma concepção de poesia e literatura que não se devotava – pelo menos não imediatamente – aos problemas que comumente encontramos no cerne de vários livros de Saramago, como Levantado do chão, por exemplo.

Eis, então, a profundidade significativa da construção de Saramago: ele põe Ricardo Reis – cultivador da contemplação interior – diante dos dilemas de seu tempo, isto é, do “mundo externo”! O pragmatismo da realidade, com o caráter crucial de seus eventos e dramas, põe-se, como o abismo de Nietzsche, a olhar no olho de Reis. Não de volta, mas por primeiro. A introspecção e o contemplativo reduto interior é posto à prova, testado contra a cotidianidade da vida, diante da tessitura comum da existência.

Acautelemo-nos, contudo, contra dicotomias! Os tropos e a retórica podem obnubilar a compreensão do leitor: Saramago tem tato e sensibilidade o suficiente para não se deixar seduzir – e nem a seus leitores – pelas interpretações simples e acusações levianas. Pondo Reis diante da porção prosaica e palpável da realidade, o escritor não está a sugerir a ingenuidade do poeta, mas está, sim, a dissertar sobre a historicidade das coisas, entre elas a da literatura. Entre o cunhar das preciosidades poéticas de sua lavra, Reis se vê às voltas com a arrumadeira Lídia, com a estranha mazela de Marcenda, com o crescimento da vigilância salazariana e com os expedientes comuns que juntos constituem a própria natureza do cotidiano e da vida prática.

Ambas as dimensões, a arte e a vida, não são hierarquizáveis, não são iguais e nem se negam, elas existem concomitante e dialeticamente, constituindo-se uma a outra na cadência das intempéries e da bonança dos movimentos da história e dos homens nela entranhados, como sujeitos e agentes. Num exercício de ousadia e de muita sensibilidade em seus cotejos, Saramago faz jus aos louros que até hoje lhe são endereçados.

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