Crítica: ‘Um Toque de Pecado’

em 26 de novembro de 2013

Informações

  • Título: Um Toque de Pecado (Tian zhu ding)
  • Diretor: Jia Zhang-Ke
  • Roteiro: Jia Zhang-Ke
  • País: China / Japão
  • Ano: 2013
  • Elenco: Wu Jiang, Vivien Li, Lanshan Luo

Jia Zhang-Ke surgiu como uma revelação do festival de Veneza em 2006, seu excelente e incômodo Em Busca da Vida ganhou o Leão de Ouro e elogios incondicionais de diversos críticos. A descoberta pelo ocidente foi tardia, o diretor já possuía uma carreira sólida em ficção e documentário e é hoje  provavelmente o nome mais forte do atual cinema chinês (seu maior concorrente, Wong Kar Wai, tem temas e abordagens muito diversos, seu universo sendo Hong Kong mais do que a China continental).

É uma pena que boa parte do trabalho do cineasta siga inédito por aqui, e de difícil acesso mesmo pela internet, porque sua obra aparece como um projeto consolidado e coerente, como a exploração narrativa cada vez mais elaborada de um mesmo tema, um mesmo lugar e uma mesma história. O tema de Jia Zhang-Ke é, muito claramente, a decomposição: de valores, da memória, das narrativas tradicionais e, sobretudo, do ser humano. Seu lugar é a China e sua história a de como o desencontro entre modernidade e arcaísmo criou um lugar fluido cheio de seres humanos desgarrados.

O desenraizamento já era, de forma bastante clara, o tema de Em Busca da Vida, agora, em Um Toque de Pecado, Zhang-Ke o expande, em um filme composto de pequenas histórias e que busca universalizar a experiência que em seu longa anterior era vista sobre a ótica da intimidade. São quatro histórias sobre indivíduos que se veem jogados de um lado para o outro, arrancados do lugar de origem e depois sucessivamente obrigados a mudar novamente, a ponto de, quando retornam ao que deveriam ser suas raízes, já não poderem reconhecê-las.

A constante mudança de lugar, a transformação de milhões de seres humanos em contingente para um desenvolvimento econômico desenfreado, torna-os semimortos. Pessoas sem lar, ou qualquer tipo de laço, incapazes de escapar ao lugar que a gigantesca máquina chinesa lhes confere. Mas Zhang-Ke não está interessado apenas na denúncia simples das atrocidades chinesas, seus filmes são mais do que simples denúncia social do custo humano da China. O que ele aponta, nesse filme de forma mais potente e crua do que nunca, é a falha do sistema, o ponto limite em que um ser humano já não pode ser dobrado.

Além de desenraizados, seus personagens estão no limite. Seus valores, suas crenças, sua personalidade e sua esperança já foram decompostas o máximo possível, e a Zhang-Ke interessa revirar essa massa de sentimentos apodrecidos.  E o limite aparece na forma de violência: a resistência não racional de seus personagens transparece nos atos gratuitos de violência extrema. Uma violência sem motivo, que escapa a qualquer explicação e, no filme, aparece como chocante e surpreendente, mas que, após um olhar mais atento, surge como única opção para as narrativas.

O que o diretor procura nessas histórias é o que anuncia no título: um toque de pecado, uma faísca de mal, de brutalidade e crueldade que impeça seus personagens de sumirem completamente, apodrecerem até a decomposição. Surpreende bastante que ele ainda consiga trabalhar na China, mas sua crítica é tão mordaz quanto sutil. E que ele não enfrente a mesma oposição de artistas mais verbais, mas menos ácidos, como Ai Wei Wei é em si uma crítica ao sistema.

A câmera de Um Toque de Pecado, como seu diretor, não é isenta. Não permanece distante, mas busca, olhares, sorrisos, o close mais chocante de um ato de violência, o sangue que espirra quase como em um filme de artes marciais. E constrói na brutalidade enquadramentos de uma beleza dura, industrial e fria. Há muitos planos abertos, imensos, onde os personagens quase somem em meio a planícies gigantescas ou fábricas infinitas.  Ao mesmo tempo, há muito não dito, a montagem sempre cortando a cena um segundo antes daquilo que, morbidamente, o espectador deseja ver.

A recepção do filme nos festivais internacionais foi efusiva, o ganhador de melhor roteiro em Cannes foi chamado por diversos críticos importantes de uma obra-prima. É certamente um filme forte, cru, absolutamente autoral. Jia Zhang-Ke reafirma seu projeto e seu estilo e consolida-se como autor, provavelmente um dos grandes autores do cinema contemporâneo.

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