Mostra de SP: Dia 3

em 21 de outubro de 2014

Uma boa parte da graça da Mostra são filmes que você não sabe de onde vêm, para onde vão, por que estão ali. O tipo de filme que jamais chegaria até o espectador de outra maneira, seja pela nacionalidade absurda ou uma forma pouco consumível.

Sete Dias em Outro Lugar – Marim Karmitz é o fundador da lendária MK2, produtora francesa que ganha retrospectiva nessa Mostra. Nesse filme de 1969 é possível vê-lo em uma outra posição: a de diretor.

Karmitz é sem dúvida um nome menor na Nouvelle Vague, e seu filme vem quando Godard já havia abandonado o movimento e seguido para um formalismo nos moldes da vanguarda soviética. Ainda assim, há aquele certo charme irresistível do período: o preto e branco granulado, o anti-herói, a experimentação formal em planos longos e ritmo contemplativo.

A Mala do Amor e da Vergonha – Parte ficção, parte documentário, parte até mesmo vídeo-arte, o filme reconstrói a relação (que o espectador nunca sabe se é real ou fictícia) de Jean e Tom a partir de fitas que eles gravavam um para o outro nos anos 60. Apesar de bastante experimental, o filme envolve; é fácil se ver emaranhado nas história do casal e curioso quanto ao que realmente está acontecendo.

A narrativa se desenrola devagar, sutil, a voz viva e animada dos amantes construindo todo um mundo.

Dois Dias e Uma Noite – É possível que Jean-Pierre e Luc Dardenne não consigam fazer um filme ruim mesmo que se esforcem. Dois Dias e Uma Noite é um drama íntimo, conciso, que começa morno e vai crescendo, ganhando força dramática e filosófica.

É um drama moral e um retrato da intimidade. É também, como todos os filmes da dupla, sobre o constante esfacelamento das relações humanas frente às comerciais, mas ninguém tem a mesma capacidade de passar esse tema da esfera abstrata para o centro da vida real.

Leviatã – Se ano passado foi a Mostra dos filmes gregos, esse parece ser o ano dos russos. Há uma boa quantidade de filmes do país, todos mostrando um vigor narrativo que não se via desde os primeiros tempos de Sokurov.

A dimensão da corrupção na Rússia é muito propícia a histórias em que não há saída e o enclausuramento do personagem provoca cada vez mais angústia no espectador. Andrey Zvyaginstev retoma temas do cristianismo russo e costura-os com a paisagem desolada e hostil. A Rússia é, desde sempre, hostil e poderosa narradora. Os filmes que vem de lá nesse ano têm respeitado essa tradição.

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