O trigo, o joio e o neorrealismo de Namora

em 10 de fevereiro de 2014

Informações

  • Autor: Fernando Namora
  • Tradutor: -
  • Editora: Círculo do Livro
  • Páginas: 272
  • Ano de Lançamento: 1973 (lançado em 1954)
  • Preço Sugerido: -

Todo o ano alguma grata surpresa nos aguarda em meio às infinitas possibilidades de leitura. Se em um ano descobrimos um Camilo José Cela, no outro viemos a descobrir um João Antonio, e em outro um Mario Benedetti. Independente de serem célebres ou não, o detalhe é que passaram a ser parte da minha alçada de consciência e conhecimento a partir daquela leitura, de modo que mesmo que não seja surpresa alguma que tal autor fosse dono de uma obra singular, se trata de uma surpresa para mim.

Todo esse parágrafo introdutório serve ao propósito de minorar um eventual embaraço que eu possa passar por dizer que uma das gratas surpresas do ano de 2013, para mim, foi a obra O trigo e o joio, do escritor português Fernando Namora. Confesso não saber se o escritor ou o romance são de conhecimento difundido entre leitores brasileiros, mas ao terminar a leitura tive a certeza de que deveria fazer minha homenagem à prosa de Namora, escrevendo sobre ela e tentando levar mais alguém a tirar algum tempo para percorrer as páginas do romance.

A trama não tem nada de extraordinário com relação a cortes bruscos, reviravoltas espetaculares ou virtuosismos tipicamente modernistas. Namora conta a história de Barbaças, Loas, Ti Joana, Alice e Vieirinha de uma maneira linear, indo de um ponto A a um ponto B sem desviar-se nem torcer a linha do tempo, com uma prosa muito bem ponderada e com uma textura vocabular muito bem azeitada. A nós, falantes do português brasileiro, a prosa de Namora tem ainda mais a oferecer, pois o livro mostra aquelas marcas mais “pomposas” do português antigo.

Logo no início do livro somos introduzidos a Barbaças, um vagabundo de vocação que perambula pela região do Alentejo sobrevivendo de trabalhos esporádicos e da boa vontade ocasional. Seu espírito folgazão não permite que ele crie raízes em um trabalho fixo nem que “tome jeito” na vida.

Em seguida, como que num contraste, vemos em meio à poeira Loas, Ti Joana e Alice, a família camponesa que conseguiu um pedaço de terra no Alentejo e que pretende cultivá-lo para se estabelecer. Para tal firma-se uma espécie de contrato verbal com Barbaças: a família de Loas oferece-lhe abrigo e comida em troca de seu trabalho.

A história começa a se mover conforme o plantio e as colheitas vão sendo feitas e conforme as esperanças de melhorias na pequena fazenda vão ganhando corpo. Loas sonha em comprar uma burra para ajudar a levar os feixes de trigo, e Barbaças, que às vezes parece meio abobalhado, concorda e se deixa levar pelas aspirações do patrão e companheiro de labuta. É justamente dessa vontade de comprar uma burra com o dinheiro proveniente do cultivo que surge todo o imbróglio do livro.

Após conferenciarem sobre quem deveria ir à feira do vilarejo para comprar a burra e quem deveria ficar na propriedade para continuar a lida, fica decidido que Barbaças seria aquele que levaria a empresa da compra da burra a cabo. É aí que entra em cena Vieirinha, um malandro dos arredores, que vê no facilmente ludibriável Barbaças a oportunidade de conseguir para si algumas cortesãs para passar a noite.

Dali em diante sucedem-se reviravoltas e o caso da burra de Loas ganha contornos quase surreais, e uma história cada vez mais caudalosa e divertida.

A prosa de Namora é extremamente fluida e gostosa de se ler. Apesar de algumas palavras que não fazem parte do vocabulário corriqueiro do português brasileiro, a narrativa usa de uma linguagem simples, assemelhando-se ao que se costuma designar como “alguém que conta um causo”. Pode-se sentir a admiração semivelada de Namora por aquela gente, pois o escritor investe cada atitude dos personagens de uma beleza singela, uma beleza que encontra na simplicidade dos gestos e pensamentos deles aquilo que tem de mais poderoso.

O trigo e o joio é um livro sobre as gentes do Alentejo, como já deve ter ficado claro a essa altura. É um livro que não quer dar envergadura épica ao dia a dia desses sujeitos, mas sim mostrar como há algo digno de ser contado e cantado naquelas operações que eles cumprem todo o dia, em seu modo de pensar e de conceber as coisas. É justamente por não almejar grandiosidade nem nada transcendental que essa vida carrega algo de inusitado, de misterioso e de fascinante. Namora consegue captar essa aura com uma escritura cadenciada pela quase-fleuma que caracteriza o ritmo de vida dessas comunidades rurais. Falando sobre a obra, aliás, Namora deixa às claras suas intenções: “Gostaria de vos contar coisas dessa gente. Coisas da vila, do Alentejo cálido e bárbaro e dos heróis que lhe dão nervos ou moleza, risos ou tragédia.”

Usando da maturidade que a consciência neorrealista lhe outorga, Namora escreve cônscio das subversões modernistas sem submeter-se a elas. Assim, redescobre personagens que outrora teriam sido alvo do realismo, voltando a eles seus olhos sensíveis, potencializados por tudo aquilo que a literatura e a história tinham experimentado até aquele ponto. Tudo o que decorrera dos tempos realistas até o tempo das vanguardas modernistas serve como lição para que o neorrealismo não seja mais do mesmo. Namora alçou seu nome entre os grandes da literatura portuguesa do pós-guerra através dessa perspicácia.

Espero ter feito a minha parte para que a obra desse escritor possa se tornar mais e mais conhecida do público falante do português de cá, afinal, se há algo de muito particular naqueles sujeitos do Alentejo, isso não apaga aquilo que neles há de universal.

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