Crítica: ‘House of Cards’ – sobre poder e lealdade

em 14 de março de 2014

Informações

  • Título: House of Cards
  • Diretor: David Fincher, entre outros
  • Roteiro: Beau Willimon, entre outros
  • País: EUA
  • Ano: 2013-
  • Elenco: Kevin Spacey, Robin Wright, Kate Mara, Michael Kelly, Kristen Connolly, entre outros

[CONTÉM SPOILERS]

Fazia tempo que não ouvia falar de Kevin Spacey. Confesso minha desinformação, se tivesse continuado conectado às séries como costumava ser teria adiantado meu prazer e este texto em pelo menos um ano. Na verdade, já há certo tempo ouço falar de House of Cards, mas foi apenas após a aparição de Kevin no Oscar e sua hilária expressão na famosa selfie da Ellen que decidi assisti-la, preenchendo meu desanimado Carnaval. Pois bem, aqui estou, assistindo House of Cards sem conseguir parar, completamente aficionado por Frank Underwood.

Com influências de A Arte da Guerra, de Sun Tzu, e Shakespeare (Ricardo III e Macbeth), essa série original do Netflix, criada por David Fincher e Beau Willimon, inspirados no romance de Michael Dobbs e na versão britânica da BBC, conta a escalada de poder do congressista Frank Underwood (Kevin Spacey), após ser recusado ao cargo de Secretário de Estado no governo democrata de Garrett Walker (Michael Gill). Tendo sua esposa, Claire (Robin Wrigth), como principal aliada, o casal mira seus objetivos tendo a lealdade como princípio moral e o pragmatismo como característica principal. Recheada de frases excepcionais (algumas delas destacadas neste texto), a trama transcende a política ou o dinheiro e trata mesmo é do irrefreável desejo pelo poder:

O poder é muito parecido com o mercado imobiliário. Resume-se a localização, localização, localização. Quando mais perto você está da fonte, mais alto é o valor de sua propriedade.

O próprio autor, Beau Willimon, apressou-se em afirmar1 que a obra não é sobre política, mas sobre poder, e tampouco tenta emular o cenário real de Washington. Não é para menos, qualquer declaração de inspiração na vida real seria um escândalo: não apenas corrupto, Frank Underwood é manipulador, coopta e chantageia parlamentares e jornalistas, é “dono” de alguns funcionários mais importantes do governo e, como a cereja do bolo, assassina seus inimigos mais perigosos. Oficialmente não há políticos assim – nem ao menos Frank, que encena um convincente papel de honesto e comprometido diante do eleitorado e da mídia. Até o presidente dos EUA, Barack Obama, já se pronunciou, dizendo-se fã da série e pedindo aos fãs que não revelassem spoilers via Twitter. Frank (Francis para os íntimos), com a genialidade de Spacey e frases mordazes, tornou-se um novo ícone da dramaturgia:

Para nós que ansiamos pelo topo da cadeia alimentar, não pode haver piedade. Há apenas uma regra: cace ou será caçado.

Tendo o espectador como testemunha, com quem dialoga o tempo inteiro, numa deliciosa quebra da quarta parede, o congressista traça seu caminho para o poder com muita ambição e nenhum senso de arrependimento. Sentimentos são fragilidades. Estamos lidamos aqui com o tipo de cara que recusa até mesmo comemorar seu aniversário. Não pense, contudo, que isso reverbera em falta de profundidade. Todos nós somos feitos de um lado racional e outro emocional e cada situação requer uma dose dessas partes. Os roteiristas sabem muito disso e já são bem calejados para falhar nesse ponto. Frank está mais para um psicopata do que para um arquétipo. Ele não é um louco, apenas um mostro. Sua complexidade é tão profunda que aparece até no terreno da sexualidade, com uma suposta bissexualidade. Sua esposa, Claire, está para ele assim como Lady Macbeth esteve para Macbeth quando este sujou suas mãos com o sangue de Banquo.

[Frank sobre Claire] Eu amo essa mulher. Eu a amo mais do que tubarões amam sangue. 

Leal, sóbria, inviolável. Assim é Claire, fascinante na interpretação de Robin Wright, sumida desde Forrest Gump (1994) e que retorna já vencendo o Globo de Ouro de Melhor Atriz Dramática. Sua personagem controla uma ONG ambientalista que também serve aos esquemas de seu marido. Seus personagens são interdependentes, parceria fundamental para atingir o objetivo maior. Claire não é apenas confidente de Francis, como sua grande incentivadora. O casal partilha todos os segredos, até mesmo os cigarros à janela nas madrugadas insones, menos a cama: na primeira temporada, nenhuma cena de sexo entre os dois, apenas beijos rasos e raros. “Eu te amo, Francis. E acho que nós devíamos dizer mais isso um para o outro” – ela diz para um marido desatento, que relaxa com seu hobby secreto: jogar videogame, sobretudo jogos de guerra.

O caminho para o poder é pavimentado com hipocrisia, e casualidades.

A metáfora é do poder que se dá pela inescrupulosa construção de um castelo de areia (ou de uma casa de cartas, se preferir), frágil e perigoso. Há sempre a ameaça de tudo ruir ao mais leve sopro. Sua manutenção se dá pela mão forte de um líder, custe o que custar. Felizmente a obra não nos pede, nem nos apresenta, saídas fáceis ou resultados clichês. Frank se envolve com uma parceira de negócios na primeira temporada e isso é clichê, mas de modo geral o desatar dos nós são sempre inesperados e os dramas se adensam uniformemente. Não é um crescendo, é um tom sempre alto. Trata-se, obviamente, de uma série séria e muito inteligente, que não menospreza sua audiência – justamente o oposto, brinca com ela, fazendo dela cúmplice de seus crimes.

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Kate Mara, Robin Wright e Corey Stoll, impecáveis em papéis secundários

Essa inteligência não fica apenas na dramaturgia, mas perpassa todo o processo de criação e distribuição. Dentre suas inovações está o lançamento de uma só vez de todos os episódios da temporada, que nos EUA aconteceu em 1° de fevereiro de 2013. David Fincher justifica2 : “A audiência cativa se foi. Se você dá às pessoas esta oportunidade de assistir tudo em um dia, há motivos para acreditar que elas vão fazer isso” – se na essência do Netflix está a atenção às demandas dos novos tempos, House of Cards abraça literalmente essa proposta e dá ao público a chance de vê-la quando melhor lhe aprouver.  Beau Willimon3: “Este é o futuro, streaming é o futuro. A TV não será TV daqui a cinco anos … todos estarão streaming”.

A democracia é tão supervalorizada. Estou há um passo do Presidente sem ter recebido um só voto.

Com trabalho técnico requintado, a série conta com a fotografia soturna já marcante dos filmes de Fincher, que até agora assumiu a direção de apenas dois episódios. Dentre os diretores convidados, já estiveram Joel Schumacher, Jodie Foster e até a protagonista Robin Wright. A trilha sonora impactante é de Jeff Beal. Entre os eficientes coadjuvantes da primeira temporada estão Kate Mara, irmã de Rooney Mara, protagonista da versão americana de Millennium, dirigida por Fincher; Michael Kelly como um fiel assistente; e Corey Stoll, como o congressista cocainômano e alcoólatra Peter Russo.

Eu rezo para mim e por mim.

Assim, House of Cards realça a migração dos roteiros mais requintados, do Cinema a outros formatos, seja televisão ou internet. A série junta-se a Mad Man, Homeland, Downton Abbey e até a recentemente encerrada Breaking Bad, com histórias sólidas e protagonistas fascinantes e nem sempre heroicos. Na primeira temporada, de treze episódios, House of Cards foi indicada a quatro Globos de Ouro, levando um, e nove Emmys, levando três. Um sucesso merecido, cuja a segunda temporada saiu em 14 de fevereiro de 2014 na Netflix. Veja… quando quiser.

Eu não vou mentir para você. Eu desprezo crianças. Pronto, falei.

 

  1. Em entrevista a Miguel Branco, do Jornal I, em 3 de Março de 2014, disponível aqui
  2. ABELE, Robert (2013). Playing With a Neck Deck. Directors Guild of America. Visto em Wikipedia, em 09 de março de 2014
  3. idem

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