Crítica: Ninfomaníaca Vol. 2 – A Herege

em 13 de março de 2014

Informações

  • Título: Ninfomaníaca (Idem)
  • Diretor: Lars von Trier
  • Roteiro: Lars von Trier
  • País: Dinamarca, Alemanha, França, Bélgica, Reino Unido
  • Ano: 2014
  • Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Jamie Bell, Williem Dafoe, Uma Thurman, Mia Goth

É difícil discutir contra a decisão de cortar Ninfomaníaca no meio de um ponto de vista comercial; um filme de quatro horas não permite muitas sessões por dia, e muita gente simplesmente não teria paciência de assistir tanta degradação de uma vez só (observem que “muito longo” foi uma das principais reclamações contra O Lobo de Wall Street, um filme consideravelmente mais curto e acessível). Do ponto de vista artístico, entretanto, foi uma manobra desastrosa. O final incompleto da primeira parte foi meio brochante (desculpem; isso não foi intencional, mas eu vou deixar aí), mas o efeito criado pelo período entre as estreias das duas metades foi ainda pior, permitindo uma reflexão e uma formação de expectativas que simplesmente não deveria entrar na equação.

O fato é que existem diferenças claras entre as duas partes do filme. A única coisa sem mudanças significativas é a quantidade de referências a Tarkovski, com a presença de um ícone feito no estilo de Andrei Rublev e um capítulo intitulado “The Mirror,” mas, em geral, Ninfomaníaca Vol.2 é mais longo, mais pesado e consideravelmente menos energético. O que até então parecia um filme que usava a sexualidade para comunicar uma variedade de ideias vai gradativamente se concentrando mais e mais na ninfomania da protagonista, o que (na minha opinião, pelo menos), torna a coisa toda menos interessante. É melhor avisar logo de cara que eu não tenho tanto a falar sobre esse volume, e este texto será consideravelmente menor do que o anterior (podem começar a comemorar).

Não que as disparidades sejam muito radicais. A análise comportamental e o ângulo psicanalítico ainda estão lá, mas com menor ênfase. As digressões continuam, mas em menor número. Personagens ainda respondem diretamente a elementos não diegéticos, como se estivessem assistindo ao próprio filme que estão construindo, mas esses detalhes metalinguísticos se tornam cada vez mais difíceis de justificar. E a invenção formal realmente havia chegado ao ápice no último capítulo da primeira parte; os três que restaram constituem um drama narrado de forma bem mais convencional. Considerando a obra completa, ainda se trata de um filme singular, mas está meio longe de ser a obra-prima que a primeira parte sugeria.

Deve-se entender que essa mudança progressiva tem uma razão de ser. Lars está contando a história que ele quer contar da melhor forma possível. A validade dessa história, no entanto, é uma questão a ser discutida. Continuando imediatamente de onde a primeira metade parou, Ninfomaníaca Vol.2 começa com Joe frustrada por ter perdido a capacidade de atingir orgasmos (aparentemente aquela fala final havia sido muito mais literal do que imaginávamos, o que ilustra perfeitamente os problemas da divisão). Incapaz de satisfazê-la, Jerôme sugere que ela procure outros homens com que se relacionar, o que abre caminho para uma espiral descendente onde Joe embarca em uma busca por seu orgasmo perdido através de encontros sexuais cada vez mais degradantes.

Ou seja, entramos em uma parte mais dark da jornada, e a austeridade da direção acompanha essa mudança. É um artifício absolutamente necessário, mas torna o filme consideravelmente menos divertido. Quando um ângulo BDSM é introduzido na forma de K (Jamie Bell), de repente parece que entramos em um filme do Michael Haneke. Isso não é exatamente ruim, mas a parte extensa da duração que essa sequência ocupa navega uma linha tênue entre a representação do desespero de uma heroína em busca daquilo que a define e a provocação vazia. Em determinado momento você pode começar a se perguntar qual é o ponto disso tudo.

O ponto, aparentemente, é mais simples do que a primeira metade fazia parecer. Ainda se trata, em parte, de um filme sobre a mecânica do comportamento humano expressado através da sexualidade, mas essa camada vai aos poucos sendo deixada de lado em virtude de uma ideia mais social que, embora relevante, vem acompanhada de uma série de questões. No segundo capítulo, o estilo de vida de Joe começa a prejudicar seu futuro profissional, e ela é forçada a frequentar um grupo de apoio para mulheres viciadas em sexo. Em uma das melhores cenas do filme, ela condena de uma vez só a cultura da terapia e o papel do gênero feminino na sociedade, declarando-se diferente de todas as mulheres presentes ali e abraçando sua ninfomania como parte de sua identidade.

É ali que o filme começa a definitivamente ser configurado como uma espécie de manifesto feminista, mas há uma contradição no cerne desse posicionamento: ao mesmo tempo em que as aventuras sexuais de Joe são mostradas como uma forma de liberação, o sexo é frequentemente representado como uma força destrutiva. Há uma quase-reprise do momento que desencadeia toda a trama de Anticristo, e o último capítulo, que surpreendentemente insere elementos de gênero em uma experiência até então ostensivamente “artística”, traz a história de volta ao começo de uma forma que enfatiza esse paradoxo.

Isso pode ser interpretado como uma ilustração da ironia inerente à ideia de um diretor homem fazendo um filme feminista, ainda mais um cuja maior parte da carreira consiste da degradação sistemática de personagens femininas. Perto do final, um monólogo de Seligman torna explícito algo tão óbvio que, de acordo com todas as regras do bom senso e da sutileza, deveria ter sido deixado para o público deduzir sozinho: tudo isso seria muito menos escandaloso caso a história fosse protagonizada por um homem.

Claro que “sutileza” não é uma das preocupações principais de um filme com tantos close-ups de genitálias, e o Lars nunca fez questão de ser muito enigmático com seus temas, mas o peso que é dado para esse momento de epifania pode fazer parecer que Von Trier realmente acredita que isso seja um insight importante o suficiente para justificar uma declaração literal. A verdade é que ele provavelmente ressente os próprios pensamentos machistas e está tentando exorcizar sua hipocrisia. O final, cujo tom lembra mais Dogville do que os outros filmes da trilogia que Ninfomaníaca fecha, parece argumentar a favor disso.

Cotação: Três estrelas e meia de criticismo de um máximo de cinco.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.