Uma notinha, peloamordedeus

em 25 de março de 2014

Envolvida com o que neste mês? Basicamente, com a mesma atividade que exerço desde 2007, em pequenas, médias ou grandes proporções: assessoria de imprensa para o lançamento de um livro.

Desde a semana passada, estou executando a assessoria de um livro com grandes expectativas (sempre elas que me perseguem). O autor espera muito, a editora ainda mais. Natural que, devido à pressão, eu tenha acabado refletindo sobre tudo o que envolve uma assessoria de imprensa de um livro e tudo que pode minar estas expectativas.

Para muitos, a vida de um livro não começa quando ele sai da gráfica. Nem quando é assinado na sessão de autógrafos. Sequer quando entra nas prateleiras de uma livraria. Para muitos, um livro existe quando sai no jornal, na revista, na rádio, na TV, no Fantástico, no Jô (ah, o Jô…).

A minha posição sobre o assunto é contraditória de natureza. Eu sou assessora. Acho que, na maioria dos casos, a assessoria ajuda. Mas ela não é tudo isso. Ela não vai salvar o mundo. “Poxa, você é assessora e não valoriza ao extremo o peixe que vende?” Pois é. Mas quem me conhece sabe: eu nunca me privo de falar a verdade.

A assessoria de imprensa facilita o encontro do livro com o leitor. Mas não salva um livro de um fracasso editorial. Ganhar uma página inteira numa publicação ou ser capa do suplemento cultural ajuda institucionalmente (ô, se ajuda) a editora e o autor. Mas não garante vendas. O lado comercial não está tão ligado ao lado midiático. Pelo menos não para os autores estreantes e editoras pequenas ou médias (para as grandes e os best-sellers, a história é outra). A nota no jornal ou entrevista na TV é o primeiro passo de um caminho longo que todos os envolvidos com o livro ainda precisam percorrer. Fica mais difícil sem esse primeiro passo? Claro que fica. Mas de novo: ele não pode ser a única estratégia.

Em quase todos os casos, faço assessoria de imprensa para lançamentos locais (de editoras de Porto Alegre ou editoras de SP e RJ que farão sessão de autógrafos na cidade). Então, envio kit de imprensa, com livro + release, para veículos de Porto Alegre e Região Metropolitana.

As equipes das editorias de cultura e entretenimento mudam pouco. Com dois lançamentos por mês, imagina quantas vezes entrei em contato, por exemplo, com o editor de livros da Zero Hora desde 2007? Às vezes, falo mais com o Carlos André Moreira do que com a minha mãe. Definitivamente, falo mais com ele do que com meu irmão caçula.

Esta é uma relação que, além de construída, precisa ser mantida e respeitada. Não forço a barra, não insisto com livros que talvez não tenham interessado a editoria. Quando um cliente me diz “liga pra lá, liga muitas vezes, fala que precisa sair, manda e-mail até o jornalista dizer que sim”, simplesmente respondo: não posso e não quero. É preciso respeitar esse relacionamento de longa data. E pensar que, a publicação em qualquer veículo, depende da decisão do editor da área e da sua equipe. Uma vez expliquei para um autor: no dia que o teu livro chegar à redação, outros dez chegarão junto. Isto vale para Porto Alegre. Para redações de grandes veículos de São Paulo ou Rio de Janeiro, multiplique isso por dois ou três. Uma vez, vi a mesa da jornalista Raquel Cozer, quando ela ainda estava no Estadão. E vi outra foto de sua mesa já na Folha de SP (agora ela está em licença-maternidade, cuidando da linda Madalena). É assustador o volume de livros que esses jornalistas especializados recebem todos os dias.

E ainda não falei de blogs e sites de resenhas, que ajudam bastante na divulgação. Mas o fato é que, na mídia tradicional, é impossível destacar tudo. Humanamente impossível. Em muitos casos, é preciso dar tempo ao tempo. Uma hora, o livro pode sair em vários veículos bacanas. Foi o que aconteceu com o Quatro soldados, do Samir Machado de Machado. Ganhou ótimo destaque regional na semana do lançamento, e várias ótimas matérias quatro ou cinco meses depois da primeira sessão de autógrafos.

Esta, claro, não é uma ciência exata. Muitos livros, de autores reconhecidos, bombam na imprensa quando ainda estão quentes da impressão. Outros precisam de mais tempo. Outros nunca encontrarão esse caminho.

O que eu tento fazer, na minha rotina, é mesclar o interesse de autor/editora com o interesse do jornalista. Ver se eles combinam e deixar o processo o mais claro e objetivo possível. Mendigar uma “notinha peloamordedeus” não combina comigo. Prefiro vender uma boa pauta, entregar um bom livro e avisar: “dá uma olhada neste. Vai valer a pena”.

Entrego o restante para o santo protetor dos assessores de imprensa da área editorial. Em nome do editor, do livro e do celular ligado sempre. Amém.

Na Página 28 de Falso começo, de Pedro Gonzaga:

“mais do que o tempo da brincadeira
o que agora nos falta
é torak – o vilão visível
a lampadinha maligna no peito

em nossos quartos de adultos
erguemos os punhos a esmo
tentamos resistir solitários
ao cerco de vagos inimigos”

2 comentários para “Uma notinha, peloamordedeus

  1. O primeiro livro de James Joyce, Dublinenses, foi recusado 22 vezes por editoras. Samuel Beckett, ganhador do Nobel de Literatura, teve seu primeiro romance, Murphy, rejeitado por 40 editores diferentes. Harry Potter e a pedra filosofal foi recusado 19 vezes até ser publicado e vender 450 milhões de cópias!!
    A vida de um livro começa quando o autor tem vida, vivacidade, crenças positivas, persistência que o fazem escrever e levar seu projeto adiante.
    Depois disso, bem-vinda seja a a assessoria. Mas não há milagre que jogue para o alto aquilo que cair pesado no gosto do público leitor!!
    Sendo difícil para um narciso olhar para o próprio rabo… sempre será mais fácil jogar o insucesso para um suposto trabalho mal feito pelo assessor! Vá de retro!!

  2. Depois do primeiro livro publicado, cujo assessor fui eu mesmo, e do segundo lançado em e-book, já compreendo esse processo e passo a entender mais as escolhas dos editores dos jornais. Mais um belo e elucidativo texto, Lu Tomé.

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