Crítica: ‘Cortinas Fechadas’

em 3 de abril de 2014

Informações

  • Título: Cortinas Fechadas (Pardé)
  • Diretor: Jafar Panahi, Kambozia Partovi
  • Roteiro: Jafar Panahi
  • País: Irã
  • Ano: 2013
  • Elenco: Kambozia Partovi, Jafar Panahi

O Irã é, desde a década de 90, um dos países com a filmografia mais ampla, comentada e premiada. Do delicado Gosto de Cereja, de 1997, ao Oscar de A Separação, no ano passado, o país pareceu retirar de sua situação complexa e estranha material para todo tipo de narrativas.

Apesar disso, poucos termos carregam tantos estereótipos quanto a expressão “filme iraniano”. Sinônimo de filmes longos, chatos, do tipo em que nada acontece, ou ainda do cinema que emerge de um país esquisito e arrasta hordas que pouco entendem, mas muito falam. “Cinema romeno é o novo cinema turco que é o novo cinema iraniano”, ou algo assim.

No fundo, é um clichê infeliz. A produção iraniana é variada e, sobretudo nos últimos anos, a quietude de Kiarostami tem dado lugar ao ar quase pop de Asghar Fahradi.  Mas mais infeliz é quando um filme cabe perfeitamente no clichê. Cortinas Fechadas é silencioso, arrastado, quase nada acontece e, do pouco que acontece, nada se entende.

Jafar Panahi, seu diretor, não é um nome desconhecido: é autor do belo O Balão Branco e do desconexo, embora importantíssimo, Isso Não É Um Filme. Panahi foi preso pelo regime iraniano, passou meses na cadeia e em prisão domiciliar e teve seu trabalho censurado. De forma crua, tudo isso aparece em Isso Não É Um Filme, meio documentário, meio ficção, meio grito de protesto em que o diretor, mais do que qualquer outra coisa, reflete sobre o próprio fazer cinematográfico lembrando Wim Wenders em Quarto 666 ou Tokyo-Ga. Em Cortinas Fechadas ele volta à metalinguagem, mas adotando uma ficção que de repente se desfaz quando o próprio diretor entra em cena.

O filme abre com um plano de uma janela. O espectador vê o mundo lá fora através de uma grade e a câmera se sustenta no nada por um longo tempo, um nada em movimento, com carros que vem e vão, sempre separado do espectador pelas grades escuras. É uma boa metáfora, mas um tempo morto que se estende além da angústia e em direção ao tédio, até que as cortinas se fecham e o filme realmente começa.

Durante o resto do filme o espectador permanecerá atrás de uma grade, vendo tudo recortado, bloqueado, de forma pouco clara. É um recurso perigoso e que acaba tornando tudo mais confuso do que simbólico. A narrativa começa com um escritor que precisa esconder seu cachorro, uma vez que o governo, teoricamente seguindo a lei islâmica, passou a considerar o animal impuro e a proibi-lo. Ele veda as cortinas, constrói uma caixinha de areia e passa os dias cuidando do cachorro e escrevendo, até que um casal de estranhos visita sua casa – eles estiveram em uma festa suspeita à beira do mar Cáspio e também precisam se esconder da polícia.

A informação a respeito de por que o casal invadiu a casa do escritor, quem são eles e do que fogem, no entanto, só será dada muito à frente. Até lá, são cinquenta minutos de discussão entre o escritor e a moça que aguarda o homem que foi buscar ajuda. Nada se sabe dela, do que faz ali, de por que insiste com o escritor para deixá-la ficar. Ainda assim, é esse o conflito do filme.

Panahi poderia ter optado por uma trama sem um conflito tradicional, por uma simples observação de dois personagens colocados em um ambiente hermético, talvez tivesse funcionado melhor. Mas não é isso o que faz: o diretor transforma a antipatia do escritor pela invasora em conflito, mas não o resolve, nem oferece elementos para sua complicação, apenas sustenta uma discussão vazia e confusa por intermináveis minutos de filme.

O cineasta tampouco resolve de qualquer maneira o conflito apresentado, apenas o altera quando entra, ele mesmo, em cena. A partir de então os personagens tomam conta de sua existência condicional e passam a gravitar em torno de seu autor, tentando evitar que ele os corte. Em um meio do caminho entre reflexão metalinguística e existencial, tudo se torna ainda mais confuso e arrastado.

Há elegância na estrutura formal de Panahi: em seus planos e na opção de ambientar um filme inteiro em uma casa com cortinas pretas e pesadas. A claustrofobia viria bem a calhar para um filme sobre o fazer artístico no Irã, uma continuação temática de Isso Não É Um Filme. Mas ao tentar seguir duas linhas diferentes, refletir sobre o cinema e ainda contar uma história fragmentada, muito se perde e o espectador acaba apenas distante e indiferente.

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