Crítica: ‘Ricardo III’

em 8 de agosto de 2014

Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!
– ato IV, cena IV

 

O drama do sanguinolento monarca inglês Ricardo III (1452-1485) foi uma das primeiras obras teatrais de William Shakespeare, escrita por volta de 1592 e 1593, e se mantém até hoje como uma de suas mais populares e respeitadas peças, fascinante não apenas pela síntese histórica da intrincada dinastia Plantageneta, que reinou na Inglaterra por mais de trezentos anos, como também pela construção de um protagonista atraente por sua vilania, soberba e psicopatia, cuja correspondência pode facilmente ser encontrada nos dias atuais.

Passados mais de quatrocentos anos desde sua feitura e literalmente centenas de adaptações de maior ou menor sucesso, hoje a peça permite liberdades adaptativas e até brincadeiras visando não só aproximar o drama histórico dos espectadores contemporâneos, como também facilitar a compreensão de uma história que envolve mais de cinquenta personagens, duas famílias rivais, duas guerras e um punhado de assassinatos. Foi isso o que fez o ator Al Pacino quando, em 1996, quis adaptá-la em Nova York, mas antes construiu um belo documentário, Looking for Richard, em que reflete com acadêmicos, artistas e outros especialistas sobre o lugar e função de Shakespeare nos dias de hoje. Da mesma forma, aqui no Brasil de hoje o ator Gustavo Gasparani e o diretor Sergio Módena foram criativamente ousados ao montar um Ricardo III totalmente clean, com apenas um ator e cujo cenário é composto por uma lousa, um cabideiro, uma mesa e uma dúzia de canetas pilotos.

O inverno de nosso descontentamento fez-se
Agora glorioso verão por este sol de York.
– ato I, cena I

A Guerra das Rosas foi um confronto de trinta anos (1455-1485) que opôs as duas casas da dinastia Plantageneta, os York (cujo símbolo era a rosa branca) e os Lancaster (a rosa vermelha), em disputa pelo trono inglês. A vitória dos York elevou Henrique IV ao trono, tendo ao lado seus dois irmãos, o fiel duque de Clarence, George, e o invejoso e corcunda Duque de Gloucester, Ricardo. Este último, maculado pelo escárnio e movido pela ambição, começa seu sanguinário plano pelo reinado causando o assassinato do irmão George, falsamente acusado de conspiração contra o rei. A partir daí, Ricardo persegue todos da linha sucessória do rei Henrique, que está fatalmente doente, incluindo a rainha Elizabeth e seus dois filhos pequenos. Feito rei, Ricardo vê-se embebido em sangue e preso em suas próprias maquinações de perseguição, e uma maldição de seus fantasmas antevê seu final trágico1.

Percebe-se, assim, que para a apreciação de Ricardo III faz-se necessário certo conhecimento histórico prévio, uma vez que a peça já começa com as maquinações perniciosas de seu protagonista, não perdendo tempo em detalhes históricos que seriam esmiuçados em outras obras do Bardo, tais como Henrique IV, Henrique VI (o último rei Lancaster) e Ricardo II, escritas em ordem não cronológica, porém todas datadas do primeiro período de sua produção.

Eu tinha um Eduardo, até um Ricardo matá-lo;
Eu tinha um Henrique, até um Ricardo matá-lo.
Você tinham um Eduardo, até um Ricardo matá-lo;
Vocês tinham um Ricardo, até um Ricardo matá-lo.
 – Rainha Margareth, ato III, cena IV 

Historicamente, contudo, suas adaptações teatrais geralmente recebem notas explicativas na introdução, que servem para situar os espectadores, uma vez que ninguém é obrigado a saber detalhes das guerras europeias de séculos passados. É justamente isso que se faz nessa adaptação de Gasparani e Módena, e de forma nem um pouco sutil: enquanto o público acomoda-se nas cadeiras, o ator, já no palco e preenchendo a larga lousa em que se vê a árvore genealógica dos Plantageneta, nos explica, tal qual um professor de cursinho pré-vestibular, detalhes dos trinta anos de guerra e da hierarquia dinástica inglesa. Quando anuncia o início do espetáculo, Gustavo parece incorporar Ricardo (e outra dúzia de personagens), dando início a uma montagem deveras didática (há espaço até para uma sessão de perguntas e respostas), mas que não valoriza o belo texto que tem em mãos.

Temendo ver a audiência perdida no exagerado número de personagens dessa intrincada trama, os autores decidiram focar a montagem no que ela tem de mais forte, seu protagonista, um homem cruel, amoral, sanguinário, ambicioso e por vezes um hilário dissimulado. Contudo, fazendo com que Gasparani divida seu Ricardo com outra dúzia de personagens, ora forçosamente delicado para os papéis femininos ora inventando sotaques para outros do séquito, o ator enfraquece seu protagonista, que não apenas se perde no meio de sua simbiose de personas, como também vê diluído seu vilanesco poder de atração.

Não se pode negar que o esforço de Gasparani é hercúleo, e a indução do espectador ao esforço imaginativo de vislumbrar, no pequeno palco do teatro Poeira, uma Inglaterra na Idade Média, castelos, vestidos e batalhas, é bem intencionado, mas às vezes resvala no pueril.

Nem todas as adaptações dessa peça precisam ter as proporções das produções de Laurence Olivier ou contar com tantos figurantes quanto naquele filme com Ian McKellen (1995), mas a “limpeza” visual proposta aqui não funciona o tempo todo e a peça continua sempre parecendo, como disse anteriormente, uma aula de cursinho pré-vestibular, daquelas com um professor animado, que faz caras, bocas e vozes para imitar os personagens históricos e evitar que a turma caia no sono ou acesse as redes sociais. Assim, Ricardo III de Gasparani e Módena torna-se um Shakespeare para iniciantes: bom para os que nunca ouviram falar desse tal Ricardo, dos York, dessa guerra de flores e que, ao saírem do espetáculo, talvez cogitem comprar uma daquelas edições de bolso e ler o texto integral.

Será que alguma vez mulher em tal humor foi cortejada?
Será que alguma vez mulher em tal humor foi conquistada?
Eu a terei; mas não a manterei por muito tempo.
– ato I, cena II

Adaptar Shakespeare continua sendo um desafio, não importa quão calibrado seja o time. Na verdade, parece que quanto mais o tempo passa, maior o desafio. Mas há algo em suas obras que as fazem, pelo menos até agora, eternas, simbólicas e tocantes a todos que se aventuram (com coragem!) a encarar o denso texto, que pede total atenção e profundo esforço reflexivo. Assim Shakespeare perpetuou-se, e o esforço bem intencionado da presente apresentação tem o seu valor. De fato, tem sido um sucesso de público e crítica, tendo passado já por três teatros cariocas e recebendo indicações ao prêmio Shell de teatro2. Ainda assim, há algo que escapa aos dedos dessa adaptação de Gasparani e Módena, algo que faz a história perder um pouco do vigor original e parecer mais uma contação de história do que encenação. Talvez precise de mais atenção ao protagonista, talvez cenários, luzes e um grupo de atores, ou talvez o que falte é apenas mais maldade.

  1. Informações complementares obtidas em: SMITH, Emma, tradução de Petrucia Finkler. Guia Cambridge de Shakespeare. L&PM. Porto Alegre, 2014. pp: 189-194
  2. Fonte: http://www.rionoteatro.com.br/ricardo-iii

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