“Tem gente que acredita no que quiser, por ignorância, e temos uma cultura que consome pouco livro e quadrinhos” – Entrevista com Rafael Coutinho

em 20 de junho de 2011
Rafael Coutinho é quadrinista e nasceu em São Paulo em 1980, filho do também quadrinista Laerte. Coutinho é formado em artes plásticas pela UNESP (Universidade Estadual de São Paulo). Já dirigiu curtas-metragens, teve pinturas, esculturas e desenhos em exposição na Choque Cultural, e realizou grandes publicações: Bang Bang, Contos dos Irmãos Grimm e o mais recente Cachalote (Companhia das Letras, 2009). Rafael topou responder às 10 perguntas e meia do Meia Palavra! Confira a seguir.

01 – Temos que começar com a pergunta sobre a influência de seu pai (Laerte) na sua escolha por produzir quadrinhos. Existiu algo? Foi direto ou indireto?

R – Foi indireto e acho que partiu mais da minha parte do que da dele. Não me lembro de ter sido “coagido” a ser quadrinista, mas com certeza fui “encantado” desde criança. Era como ver algo mágico acontecer, não conseguia entender de onde vinha a idéia, como ele controlava a mão, e mais tarde com outros desenhistas o mesmo. Era algo fora da realidade, muito impressionante.

02 – Quais são suas referências, influências e xodós no universo quadrinhesco? E fora dele?

R – Sei que tenho muita influência de alguns caras. Michelanxo Prado, Moebius, Katsuhiro Otomo, Jaime Hernandes, Crumb. Mais recentes foram Tayio Matsumoto, Gipi, Jason, Grampá. Fora dos quadrinhos acho que muito do cinema francês e oriental, de uma forma geral. Adoro um bom filme argentino ou mexicano também, muita cor e boas histórias. Gosto muito de acompanhar os novos escritores, ler o que tiver saindo de novo. De uma forma ou outra, somos parte da mesma época, quero saber como eles enxergam o mundo moderno e montam suas histórias, desconstroem narrativa. Às vezes basta um bom parágrafo de um romance pra desentupir uma enxurrada de ideias, já fui salvo algumas vezes por novos autores. Vanessa Bárbara, Terêncio Porto, Joca Terron, Paulo Scott, Daniel Galera.

03 – Em Cachalote, a arte sequencial se alterna de forma fantástica com a contraparte literária. De que forma você entende essa relação entre desenho e escrita? Que “casamentos” entre as partes você considera fenomenais?

R – Pros bons leitores, algumas duplas são muito conhecidas do mundo das graphic novels. Berardi e Milazzo, Sampayo e Muñoz, Jodorowsky e Moebius, ou até mesmo Harvey Pekar e Crumb. Não acho que se alternem, e sim se complementam. Mas isso é trabalho de roteiro, não de proza. O texto e a imagem fazem o quadrinho. Existem grandes histórias mudas, mas a base é essa relação. Uma boa relação entre desenhista e escritor é a chave de um bom livro, se o trabalho for em dupla. E não consigo deixar de me encantar com essa amizade criativa que se firma numa graphic novel. É um trabalho de uma cumplicidade e aproximação emocional muito grande, parcerias que ficam pruma vida inteira. Com o Galera foi assim, ficamos amigos na medida em que criávamos o livro.

04 – Que tipo de histórias você gosta de ilustrar? E quais não gastaria tinta nem tempo?

R – Gosto de história mais densa, madura, o que se chama por aí de quadrinho adulto. Mas tenho começado a gostar da ideia de fazer quadrinho pra adolescentes com uma pegada mais adulta, ou inverter. Fazer quadrinho de suspense com cara de infantil, essas coisas mais híbridas onde as nomenclaturas caem por terra. Acho mais interessante esse terreno onde o leitor não sabe se aquilo é uma piada ou se é um momento dramático, como leitor gosto muito de ser surpreendido por uma história de mais de um gênero.

Não sou muito ligado aos heróis, mas não diria que nunca faria. Como disse, acho que cada gênero contém em si um potencial e vocabulário próprio muito extensos. Tem que saber usar isso pro que você procura. Mas não gosto de publicidade, gostaria de nunca mais trabalhar com isso, principalmente envolvendo quadrinhos.

05- Cachalote é uma graphic novel adulta. Você vê mudanças na concepção de quadrinhos como “coisa de criança” ou esse estereótipo ainda está bem arraigado?

R – Isso não existe. Tem gente que acredita no que quiser, por ignorância, e temos uma cultura que consome pouco livro e quadrinhos. Mas não existe, é bobagem.

06 – Qual a maior bobagem ao se falar em quadrinhos? O aspecto comercial, artístico ou o público?

R – Não sei, cara. Tem muita bobagem, as pessoas falam absurdos. Mas no geral, acho que tudo é valido. E acredito que estamos passando por uma passagem de reaprendizado, pra todo mundo. Um novo mercado está se criando, um novo público também. O consumo e criação de quadrinhos ficou hibernando no país por quase 20 anos, pouco era publicado. Acho que todos somos responsáveis por essa repopularização dos quadrinhos. Pode perguntar o que quiser, ou falar a bobagem que quiser, vamos falar juntos.

Dois dias atrás ouvi de um jornalista de uma grande emissora a seguinte pergunta: “quer dizer que você é um grande ícone do quadrinho nacional?” Minha resposta não poderia ser outra: “Sim, eu sou um grande ícone.” Esse tipo de merda rola bastante, geralmente vindo de jornalista de saco cheio, ou com nenhum saco pra trabalhar

07 – Como surgiu a ideia para o projeto MIL?

R – Surgiu da necessidade de desenhar histórias mais curtas, e de celebrar o quadrinista durante o ano em que ele está trabalhando no seu livro longo. Algo que coubesse entre os projetos, que substituísse o freela chato que temos que pegar por algo mais legal e que desse uma graninha. É uma ideia comercial também, uma publicação que é barata e acessível, com tiragem baixa pra não virar uma dor de cabeça na hora de vender e distribuir, e que durante o ano fosse montando uma coletânea à ser lançada no fim de um ano de trabalhos. Tem muito desenhista bom por aí, queria fazer algo mais voltado pra eles, pra nós. Sem contar que é um ótimo motivo pra nos encontrarmos mais, são amigos e gente que admiro muito, é uma honra poder lançar as histórias deles.

08- Quais são os futuros planos para o Selo Cachalote?

R – Tenho gestado um outro projeto em formato maior, mas acho melhor esperar um pouco mais pra falarmos sobre ele. E não posso me empolgar demais com as publicações, tenho dois livros pra terminar esse ano e uma exposição de telas novas pra produzir, um filme média metragem e uma e-loja. É coisa demais.

09 – Como você enxerga o mercado brasileiro atual para produção de quadrinhos? Você acha que o público está consumindo mais HQ’s nacionais?

R – Sim, vivemos uma ótima época. Podemos nos divulgar sem intermediários, chegar ao leitor de forma mais direta e rápida, podemos imprimir com mais facilidade e diferentes formas de pagamento, o país atravessa um bom momento, o brasileiro compra com mais facilidade hoje em dia. Em comparação com outros períodos, acho até que há mais dinheiro no mercado editorial. Mas também acho que vivemos um novo momento de formatos e saídas para o quadrinho, produtos e merchands. É um ótimo momento pra publicações de tiragem baixa, que exploram aspectos mais artísticos do quadrinho e dão muito valor pra cada cópia. As HQs digitais são uma novidade muito interessante, que acho que deve crescer muito no país. E hoje em dia existem gráficas que mandam imprimir UM livro único, por demanda. Você não precisa mais imprimir 2 mil e estocar na sua cozinha, ou sequer precisa de editora. Acho que isso tudo afeta diretamente a criatividade dos artistas e editores envolvidos também.

10 – Ano que vem você lançará um novo quadrinho pelo Selo Quadrinhos na Cia. Pode nos falar um pouco sobre ele?

R – Desculpe, mas tenho achado melhor não falar muito ainda. Estou bem no meio do caminho, é muito fácil a coisa desandar nessa fase. Sou um cara aplicado e cumpro meus contratos, mas sei que trabalhamos com dinamite nesse meio.

10 1/2 – Na ponta do lápis… o bicho pega!

5 comentários para ““Tem gente que acredita no que quiser, por ignorância, e temos uma cultura que consome pouco livro e quadrinhos” – Entrevista com Rafael Coutinho

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