A tristeza do palhaço

em 14 de agosto de 2014

Que ano nefasto esse 2014. Que ano sombrio, especialmente às artes, em que as mortes sucedem-se como os dias e a tristeza por um já se torna tristeza por outros, antes mesmo de as lágrimas secarem. Na Literatura, Suassuna, Rubem Alves e João Ubaldo foram-se numa só semana, juntando-se a Gabriel Garcia Márquez. No Cinema, além das velhinhas Alicia Rhett (de …E O Vento Levou) e Lauren Bacall (O Espelho Tem Duas Faces), também se foi Shirley Temple, a eterna criança da Era de Ouro de Hollywood. Gabriel Axel, diretor oscarizado por A Festa de Babette, Maximillian Schell, ator premiado por Julgamento em Nuremberg e o vanguardista Alain Resnais (Vocês Ainda Não Viram Nada). O Brasil também perdeu os seus: os cantores Nelson Ned e Jair Rodrigues, o ator e diretor José Wilker (Giovanni Improtta), a vedete Virginia Lane, o ator Paulo Goulart e o diretor Eduardo Coutinho (Cabra Marcado Para Morrer), numa morte triste, besta, trágica, da mesma forma e no mesmo dia em que nos deixou o fabuloso Phillip Seymour Hoffman, um ator que ainda podia nos dar tanto. E justamente neste momento em que escrevo o adeus do Posfácio a Robin Williams, um ator que tanto nos alegrou, me choco com a tragédia aérea que levou o candidato à presidência, marido e pai de cinco filhos, Eduardo Campos. Que ano nefasto esse 2014 – e ainda nem acabou.

O que leva alguém ao suicídio não nos cabe especular, deixemos isso com os psicólogos. Podemos pensar, talvez, no impacto que o suicídio de um ídolo traz a seus fãs. Embora Robin não fosse o ator do momento, nos últimos anos apresentando trabalhos fracos, ele permanecia na mente dos fãs como uma das faces mais conhecidas de Hollywood. Estabeleceu-se especialmente pelas boas comédias que protagonizou nos anos 90, como Hook – A Volta do Capitão Gancho (1991), Uma Babá Quase Perfeita (1993), Jumanji (1995), A Gaiola das Loucas (1996) e Flubber (1997) e o delicado Patch Adams (1998). Ao lado de outros talentos da comédia, como Peter Sellers e Jim Carrey, também sabia se virar muito bem no drama e em papéis mais introspectivos, com destaque em Bom Dia, Vietnã (1987), o histórico “captain-my-captain!” de Sociedade dos Poetas Mortos (1989), Tempo de Despertar (1990), em que assume a persona do neurologista Oliver Sacks, Pescador de Ilusões (1991), ao lado do amigo Jeff Bridges, e vencendo o Oscar de melhor coadjuvante por Gênio Indomável (1997), ao lado dos jovens Matt Damon e Ben Affleck.

jumanji

Williams ao lado de Kirstin Dunst criança em Jumanji, um dos clássicos da Sessão da Tarde dos anos 90.

Robin Williams, nascido em Chicago, EUA, começou sua formação profissional em 1973, quando foi aceito (junto com o Superman Christopher Reeve) na prestigiada escola de artes Julliard, em Nova York. Seu primeiro trabalho relevante foi na leve e divertida sitcom Mork do Planeta Ork (1978-1982), spinoff da série Happy Days (1978-79), inserindo-se na cultura pop da época e destacando-se pelas improvisações em cena. Partiu, então, para uma profícua carreira em stand-up comedy, espaço ideal para extravasar sua personalidade espaçosa e fazer suas famosas imitações. Depois de apresentar os 58° Academy Awards, em 1986, começou uma fase crescente no Cinema, recebendo quatro indicações ao Oscar (1987, 89, 91 e 97) e onze indicações ao Globo de Ouro entre 1979 e 1999, com cinco vitórias e um prêmio honorário em 2005.

Recebeu críticas, como todo artista em determinado ponto da carreira, pela mesmice dos trabalhos apresentados, que sempre tendiam ao excesso melodramático ou frenético humor. Contudo, observando sua carreira em retrospecto, percebe-se que variou não apenas nas tramas e nos personagens, como também nas parcerias em tela: dublou o gênio na animação Alladin (1992), da Disney; com Francis Ford Coppola fez Jack (1996); logo depois, o triste Amor Além da Vida (1999), um dos meus prediletos do ator; com Al Pacino, Hilary Swank e sob direção de Christopher Nolan fez Insônia (2002); aventurou-se em ficções muito diferentes, como O Homem Bicentenário (1999) e Violação de Privacidade (2004); foi um psicopata obsessivo em Retratos de uma Obsessão (2002) e um cantor de country em O Som do Coração (2007).

Mais uma vez, assim como outros grandes comediantes, sua vida pessoal foi complexa e tumultuada, envolvendo traições e dependência em drogas e álcool. Seus amigos disseram que o ator sofria de uma necessidade verdadeiramente patológica de chamar a atenção de estranhos, geralmente através do humor. Outros disseram que nos últimos meses Robin lutava contra uma forte depressão que, para tristeza de todos, terminou com o suicídio do ator, enforcado num cinto, à porta de seu quarto e encontrado por sua assistente, em sua residência em Tiburon, Califórnia.

O ator deixa a esposa, Susan Schneider 1, e três filhos, uma delas chamada Zelda em homenagem ao famoso jogo de videogame A Lenda de Zelda, uma das diversões do ator. Também restam ainda três filmes inéditos, incluindo a terceira sequencia de Uma Noite no Museu, além do anúncio2 de uma possível sequencia para a maravilhosa comédia Uma Babá Quase Perfeita (1993), com Sally Field.  Acima de tudo, Williams deixa milhares de fãs, como eu, que aprenderam a amar o Cinema com seus filmes pueris, divertidos e tocantes nas Sessões da Tarde e Telas Quentes de nossa infância dos anos 90, fazendo que sua lembrança sempre nos evoque um sorriso.

  1. Em tempo, novas notícias sobre a morte: Susan revelou em entrevista ao site The Wrap que o ator descobrira estar nos estágios iniciais de Parkinson. Veja mais aqui
  2. Fonte: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/robin-williams-deixa-quatro-filmes-por-estrear-e-uma-sequela-provavelmente-cancelada-1666223

2 comentários para “A tristeza do palhaço

    • Pois é, H.
      Nem consegui comentar da morte de Nicolau por aqui, apenas no Facebook, de tão subsequente qu’essas tristezas têm sido.

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