Êxodo audiovisual

Fernando Meirelles, diretor paulista de Cidade de Deus (2002) e Ensaio Sobre a Cegueira (2008), entre outros, sempre foi um dos meus realizadores prediletos. Enxergo nele uma capacidade rara para unir elegância estética e sensibilidade humana, em temas e histórias quase sempre muito próximas à realidade brasileira, levadas à grande tela em projetos ambiciosos que quase nunca decepcionam o seu público1.

Embora já prestigiado no mercado, suficientemente conhecido para arrebanhar nomes de peso para seus projetos, há tempos o realizador vem demonstrando cansaço diante do tour de force de se fazer um filme, especialmente para aqueles que, como ele, seguem pelo caminho independente, não oficialmente atrelados a um grande estúdio. Para estes, o processo de captura de recursos torna-se uma exaustiva batalha, uma luta em tentar se inserir em algum edital estatal de fomento ou conquistar parcerias no setor privado – que ainda se mostra resistente ao investimento no Cinema, dado o baixo retorno comercial. No Brasil, o cenário é ainda mais desanimador, com milhares de casos de realizadores em situações ainda mais precárias, justamente por não contarem com o mesmo prestígio internacional de Meirelles, um indicado ao Oscar.

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  1. À exceção talvez do fraco 360, de 2011, que não funcionou mesmo contando com um elenco estelar, incluindo Anthony Hopkins, Rachel Weisz e Jude Law.

Festival do Rio: the best so far

Os que acompanham nossa cobertura do Festival do Rio devem ter notado que este ano as coisas estão um pouco diferentes. Não se desesperem! Infelizmente, as tradicionais Rapidinhas do Festival não acontecerão, mas como tudo na vida tem um lado ruim e outro bom, a boa notícia é que agora o Posfácio está infiltrado na organização do evento! Explico: esse que voz escreve – e que é o único posfaciano no Rio de Janeiro –, esse ano descolou um freela no staff do Festival1 e, se por esse motivo tenho visto muito menos filmes no circuito, o que é bem triste, em compensação agora tenho informações fresquinhas de bastidores para vocês e coisas bacanas para contar, como ter acompanhado a entrevista de Najwa Najjar, diretora de Olhos de Ladrão, selecionado pela Palestina para disputar uma vaga no Oscar do ano que vem. Leia mais

  1. Obrigado agência Febre pela boa recepção!

A tristeza do palhaço

Que ano nefasto esse 2014. Que ano sombrio, especialmente às artes, em que as mortes sucedem-se como os dias e a tristeza por um já se torna tristeza por outros, antes mesmo de as lágrimas secarem. Na Literatura, Suassuna, Rubem Alves e João Ubaldo foram-se numa só semana, juntando-se a Gabriel Garcia Márquez. No Cinema, além das velhinhas Alicia Rhett (de …E O Vento Levou) e Lauren Bacall (O Espelho Tem Duas Faces), também se foi Shirley Temple, a eterna criança da Era de Ouro de Hollywood. Gabriel Axel, diretor oscarizado por A Festa de Babette, Maximillian Schell, ator premiado por Julgamento em Nuremberg e o vanguardista Alain Resnais (Vocês Ainda Não Viram Nada). O Brasil também perdeu os seus: os cantores Nelson Ned e Jair Rodrigues, o ator e diretor José Wilker (Giovanni Improtta), a vedete Virginia Lane, o ator Paulo Goulart e o diretor Eduardo Coutinho (Cabra Marcado Para Morrer), numa morte triste, besta, trágica, da mesma forma e no mesmo dia em que nos deixou o fabuloso Phillip Seymour Hoffman, um ator que ainda podia nos dar tanto. E justamente neste momento em que escrevo o adeus do Posfácio a Robin Williams, um ator que tanto nos alegrou, me choco com a tragédia aérea que levou o candidato à presidência, marido e pai de cinco filhos, Eduardo Campos. Que ano nefasto esse 2014 – e ainda nem acabou.

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15° Festival do Rio: The End

É bom, mas tem que acabar. Se até os filmes têm começo, meio e fim, por que seus festivais não haveriam de ter, não é mesmo? Mas dói o coração, porque é tão excitante saber que a cada novo dia teremos dez, quinze novos filmes na programação, e dos tipos mais variados, de diretores famosos ou novatos, documentários ou curtas de ficção, de comédia ou terror.

O Festival do Rio encerrou sua 15° na última quinta-feira (10) e os dois últimos filmes de minha programação – que somaram 19 títulos assistidos – foram: Only Lovers Left Alive (2013, mostra Panorama, trailer abaixo), novo longa do cult e maravilhoso Jim Jarmush, contando com muito estilo a história dos vampiros Adam (Tom Hiddelson) e Eve (a maravilhosa Tilda Swinton), vivendo o ócio dos séculos, até a chegada da irmã de Eve, Ava (Mia Wasikowska, como sempre muito bem); depois a sessão do doc luso-angolano I love Kuduro (2013, de Mario Patrocínio, mostra Midnight Música), sobre a febre desse ritmo em Angola, que já virou produto de exportação do país. Leia mais

Leandro Ferreira/Divulgação

Rapidinhas do Festival do Rio #3

(Foto: Leandro Ferreira/Divulgação)

O fim está próximo! O Festival do Rio1 entrou em seus últimos dias e quem acompanha de perto, embora já cansado e consideravelmente mais pobre, tem que correr para assistir aos últimos filmes de sua wish-list.

Por isso, cruzei a cidade até a Gávea e no belo e amplo Estação Vivo consegui ver Deus Ama Uganda (2013, de Roger Ross Williams, mostra Fronteiras, trailer no final da postagem), impressionante ao retratar a perseguição a homossexuais por fundamentalistas cristãos, com foco na influência de doutrinas e missionários estadunidenses nesse processo. Vale a pena ater-se a esse filme um pouco mais do que apenas com um comentário: até certa altura ele funciona como uma simples exibição do serviço missionário prestado pela organização religiosa IHOP no país africano e, por abster-se de qualquer inclinação crítica, parece ser favorável à missão evangelizadora. Muda completamente, contudo, quando mostra a influência dos EUA nas políticas públicas de saúde (mais precisamente nas medidas contra o surto de HIV/AIDS) do país, quando mostra que os pastores pregam ideologias claramente homofóbicas e que parte da população, desinformada e mística, compra esses ideais e parte para uma verdadeira cruzada contra os gays; ainda quando tribos são coagidas pelos missionários a se converterem ao Cristianismo e, no mais chocante dos momentos, quando entrevistados do filme, simpatizantes e líderes LGBT no país, sofrem retaliações – um deles chega a ser morto. Leia mais

  1. O homem de braços abertos na imagem em destaque é o diretor Lee Daniels, de Preciosa (2009), que veio divulgar seu novo filme, The Butler, com Forest Whitaker e Oprah Winfrey

Rapidinhas do Festival do Rio #2

A competição oficial Première Brasil do 15° Festival do Rio, nesse tumultuado anno domini de 2013, tem oferecido um desafio extra aos jornalistas, críticos e cinéfilos que a acompanham de perto: cobri-la é consequentemente também cobrir a nova onda de manifestações que tem tomado a cidade, liderada pela classe de professores da rede pública1, com novas vergonhosas cenas de abuso e força-bruta policial. Assim, os filmes da competição, que tradicionalmente têm sessões de gala no Cinema Odeon, estão sendo transferidos para outras salas da cidade. Localizado na Cinelândia, próximo da Câmara do Rio, o cinema está no olho do furacão.

Em nota divulgada no site oficial os organizadores afirmam que o “Festival do Rio mantém seu compromisso assumido com a população do Rio de Janeiro e com a cultura da cidade”, justificam a escolha do Odeon pela sua tradição e asseguram que a programação não será comprometida. Leia mais

  1. Imagem em destaque via portal Uol

Festival de Cinema do Rio 2013

Separe o dinheiro e reserve tempo, desmarque compromissos secundários, cancele o analista, falte à aula: nesta quinzena nada disso importa, porque chegou mais um Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro!

Sobretudo se não for nativo, recomendo que compre em umas das bancas de jornal do Largo da Carioca um mapa da cidade, calce um tênis confortável, passe protetor solar e carregue na mochila um bom livro e uma garrafinha d’água. Tudo pronto, agora é só aproveitar os mais de 350 filmes que serão exibidos em 20 salas e espaços entre os dias 26 de setembro e 10 de outubro. Leia mais

Festival Varilux de Cinema Francês 2013

O maior festival de Cinema digital no Brasil chega a sua quarta edição, e mesmo que ainda seja recente, esse ano ele vem com metas ousadas: expectativa de público em 100 mil espectadores, 15 títulos em cerca de 70 salas de cinema espalhadas por 40 cidades brasileiras, uma oficina de roteiro e também a visita de artistas franceses, como Monica Bellucci (Aconteceu em Saint-Tropez) e Léa Seydoux (Adeus, minha rainha), para exibições especiais e debates.

O Festival acontece entre os dias 1° e 6 de maio em algumas cidades e 10 e 16 em outras (detalhes no site do evento) e é patrocinada pelas lentes multifocais Varilux, pela Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro e por mais de uma dúzia de empresas nacionais e estrangeiras.

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Oscar 2013: Comentários

Pela 85°vez na história do Cinema, no Dolby Theatre Los Angeles, os Oscars foram para…

Filme: Argo 
Direção: 
Ang Lee (As Aventuras de Pi)
Ator: Daniel Day-Lewis (Lincoln)
Atriz: Jennifer Lawrence (O Lado Bom da Vida) 
Ator coadjuvante: 
Christoph Waltz (Django Livre)
Atriz coadjuvante: 
Anne Hathaway (Os Miseráveis) 
Roteiro original:  
Quentin Tarantino (Django Livre) 
Roteiro adaptado: 
Chris Terrio (Argo
Animação: 
Valente 
Filme estrangeiro: 
Amour (Áustria) 
Trilha sonora: 
As Aventuras de Pi 
Canção original: 
“Skyfall”, de Adele (007 – Operação Skyfall)
Fotografia: As Aventuras de Pi
Figurino: 
Anna Karenina 
Documentário: 
Searching for Sugar Man
Curta de documentário: Inocente 
Edição: 
Argo 
Maquiagem: 
Os Miseráveis 
Direção de arte: 
Lincoln 
Curta de animação:
Paperman 
Curta-metragem: 
Curfew 
Edição de som: 
empate entre A Hora Mais Escura e 007 – Operação Skyfall 
Mixagem de som: 
Os Miseráveis 
Efeitos visuais: 
As Aventuras de Pi

…e pela 85° vez os Oscars provocaram polêmicas, deixaram fãs indignados, cometeram injustiças possivelmente irreparáveis e foram acompanhados por milhões de pessoas ao redor do mundo.

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Cinema no CCBB

O Centro Cultural Banco do Brasil é uma entidade sem fins lucrativos mantida por um dos maiores bancos nacionais e presente em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília (e em breve também em Belo Horizonte). Com mais de 20 anos, tornou-se referência de boas exposições e atividades culturais, incentivando as artes para os mais variados gostos e com preços acessíveis – quando não inteiramente gratuitos. Recentemente causou frisson e enormes filas ao trazer “Paris e o Impressionismo”, com telas de Monet, Manet e até um Van Gogh perdido entre eles. Atualmente, em seu andar de exposições na sede carioca a retrospectiva sobre a animação MOVIE-SE: No Tempo da Animação, tem encantado adultos e crianças com peças que vão desde os moldes de gesso dos personagens de Toy Story a vídeos do visionário artista George Meliès (1861-1938). Leia mais