Crítica: ‘Dois Dias, Uma Noite’

Depois de vencer o Oscar de melhor atriz em 2008, por Piaf – Um Hino ao Amor, de Olivier Dahar, a parisiense Marion Cotillard mergulhou em produções mais comerciais que lhe dessem visibilidade e, por que não, dinheiro. Assim, a atriz fez o musical Nine (2009), de Rob Marshall, Contágio (2011), de Steven Soderbergh, e até a vilã do último Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012), de Christopher Nolan. Se suas atuações não foram vergonhosas e as escolhas da carreira ajudaram a consolidar seu nome na indústria Hollywoodiana, tampouco se pode dizer que foram papéis memoráveis. Porém, com Dois Dias, Uma Noite, dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, a atriz recupera seu potencial dramático, numa produção pequena, que aposta no super-realismo para contar a história de Sandra, uma operária que fica meses afastada do trabalho devido a uma crise depressiva, e agora precisa convencer seus colegas a não aceitarem o bônus oferecido pela fábrica, que acarretará na sua demissão.

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Crítica: ‘Citizenfour’ – e o grande irmão

Em junho de 2013, a documentarista-ativista Laura Poitras e o jornalista estadunidense radicado no Brasil Gleen Greenwald encontraram-se num hotel de Hong Kong para uma conversa de oito dias com o funcionário da CIA Edward Snowden, naquele que seria o maior vazamento de informações de uma agência governamental da história. Poitras conversava com Snowden havia meses, numa série de mensagens online em que seu interlocutor se denominava “citizenfour”. Com a participação de outros jornalistas que trabalhavam com Gleenwald no The Guardian U.S., as revelações de Snowden começaram a ser divulgadas em artigos e reportagens nos principais jornais do mundo, entre eles o brasileiro O Globo.

Indicado ao Oscar de Documentário, o filme de Laura repassa os principais acontecimentos que construíram esse importante e conturbado episódio da história recente, assim como as consequências sobre os indivíduos envolvidos, incluindo ameaças de prisão e extradição e até a proibição da entrada do brasileiro David Miranda, parceiro de Gleenwald, na Inglaterra, sob a Lei Antiterrorismo.

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Crítica: ‘Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância)’

Irritado com a má interpretação de um de seus atores, Riggan Thompson (Michael Keaton) pede a seu empresário por um substituto: “Que tal Woody Harrelson?” – ele pergunta. “Ele está no próximo Jogos Vorazes” – responde o empresário. “E Michael Fassbender?” “Está em X-Men.” “Então que tal Jeremy Renner?” “Ele é um dos Vingadores.” “Merda. Colocaram uma capa nele também? Eu não acredito nisso” – diz Riggan, ainda mais irritado, antes de enclausurar-se no camarim, onde vê no noticiário televisivo uma reportagem de Robert Downey Jr. falando sobre o sucesso de Homem de Ferro.

Pois é, parece que todos em Hollywood foram engolidos pelo mundo dos super-heróis, inclusive os principais atores de Birdman, que entre seus coadjuvantes têm Edward Norton, de O Incrível Hulk (2008); Emma Stone, agora no novo Homem Aranha (2014); e até Naomi Watts, conhecida por seus papéis dramáticos e agora na série Divergente (que não deixa de ser uma espécie de saga heroica). No entanto, a maior alusão aqui é a Michael Keaton. Embora o ator se mostre bastante incomodado com isso, sua carreira tem sim muitos paralelos com a de seu personagem: seu ápice se deu entre o fim dos anos 80 e o começo dos 90, quando protagonizou os dois Batman de Tim Burton para, na sequência, cair no ostracismo – entre tantos filmes ruins que fez nesse período de limbo, esteve o reboot de Robocop (2014), do brasileiro José Padilha (leia a crítica aqui). Depois de mais de seis anos sem protagonizar um só filme, agora com Birdman é que começa a retomar a credibilidade. Leia mais

Crítica: ‘Whiplash – em busca da perfeição’

Entre os blockbusters de verão e produções premiadas estreladas por grandes nomes, Whiplash corre solitário como filme pequeno, mas tem causado burburinho entre os (infelizmente poucos) espectadores que foram ao Cinema assisti-lo e entre a crítica especializada, por isso, felizmente, não tem passado batido pelas premiações de começo de ano, tendo sido indicado a cinco Oscars, cinco BAFTAs e vencido o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante (J.K. Simons), além dos importantes prêmios do ano passado no Festival de Sundance, em que foi o Melhor Filme tanto para o júri quanto para o público.

Há quem o ache terrivelmente sádico, enquanto outros o veem como deliciosamente sádico. Há quem o critique por ser muito nostálgico, superficial e reforçar a crença de que na música só há espaço para os melhores, enquanto outros adoram sua edição ritmada nas batidas do jazz e a dedicação quase suicida de seu protagonista. Leia mais

Crítica: ‘Para Sempre Alice’ – e a arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contém em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério
– Uma Arte, Elizabeth Bishop

 

Já escrevi esses versos por aqui. Foi na dupla resenha e crítica do livro e do filme Flores Raras, escrito por Carmen L. de Oliveira (2011) e levado ao Cinema por Bruno Barreto (2013). Agora, publico-as por causa do filme Still Alice (no Brasil, Para Sempre Alice), de Richard Glatzer e Wash Westmoreland, indicado ao Oscar de Atriz pela soberba interpretação de Julianne Moore, já vencedora do Globo de Ouro deste ano na mesma categoria.

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Crítica: ‘A Teoria de Tudo’

O físico teórico Stephen Hawking é, possivelmente, o nome científico de maior prestígio da atualidade. A história de sua vida, se ele tivesse enveredado por qualquer outro caminho profissional a que nós, simples mortais, servimos nessa vida, já seria de grande triunfo e inspiração, por causa de sua grave condição de saúde. Todavia, Stephen tornou-se um dos nomes mais proeminentes da física moderna, catedrático de Cambridge, onde ocupa a mesma cadeira outrora pertencente a Sir Isaac Newton, e um dos maiores difusores de informação científica, através de best sellers como Uma breve história do tempo (1988) e O universo numa casca de noz (2002), produzidos quando a síndrome degenerativa que o acomete já impossibilitava sua escrita e fala.

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Crítica: ‘Selma’ – e a cota do Oscar

Em agosto 1963, o ativista e pastor estadunidense Dr. Martin Luther King Jr. teve um sonho de um mundo de paz e com direitos iguais para todos, partilhado em um discurso épico, na escadaria do Lincoln Memorial, em Washington D.C. Em março de 1968, King foi assassinado a tiros em um hotel em Memphis, Tennessee.

Alguém disse um dia que a paz nunca teve uma real chance e que homens e mulheres que batalharam por ela com discursos, ativismo político ou artes, tiveram vidas sofridas e finais dolorosos. De Jesus à menina paquistanesa Malala Yousafzai, de Dalai Lama à irmã Dorothy Stang, de John Lennon a Chico Mendes, parece que a sorte nunca esteve realmente do lado dos engajados num mundo melhor. Leia mais

Crítica: ‘Sniper Americano’ – nada de novo no front

Existem atores que nunca deveriam ter ido para o outro lado da câmera. Eu começo a me convencer de que Clint Eastwood é um deles. Se como ator ele já incomodava alguns com suas personagens valentonas, brutais, agressivas e inconsequentes, como realizador somou tudo isso ao seu patriotismo doentio e ultrapassado, já insuportável no pack A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, de 2006, mas levado à estratosfera em seu mais recente filme.

American Sniper é baseado no livro autobiográfico de Chris Kyle, SEAL americano reconhecido como herói por ter sido “o franco-atirador mais letal da história do exército americano” (esse é o subtítulo de seu livro). Ele participou de quatro tours pelo Iraque durante a guerra ao terror perpetrada pelo governo Bush depois dos atentados de 11 de setembro, e acabou assassinado em 2013 por um colega do exército que sofria de estresse pós-traumático. Leia mais

Crítica: ‘Foxcatcher’

Em 26 de janeiro de 1996, o aristocrata multibilionário John Eleuthère du Pont, herdeiro da família mais rica dos EUA, assassinou com três tiros o atleta de luta livre e medalhista olímpico Dave Schultz. Dave e seu irmão, Mark, trabalharam por cerca de uma década na equipe de treino e fomento ao esporte criada pelo próprio Du Pont em sua fazenda na Pennsylvania, a Team Foxcatcher.

No filme dirigido por Bennett Miller (de Capote, 2005, e Moneyball, 2011), vemos dramatizada através de ótimo ritmo, bom roteiro e grandes performances os eventos que levaram a este crime bizarro que pôs fim à trajetória de um grande esportista de apenas 36 anos de idade, casado e pai de dois filhos. Leia mais

Crítica: Ida

Pawel Pawlikowski não é estranho aos prêmios e circuito de festivais: Last Resort, seu segundo longa, recebeu diversas críticas positivas e foi um dos destaques do Festival de Toronto em 2000. No entanto, desde então, os filmes do diretor têm feito carreiras mais modestas, com uma recepção boa, mas morna.

Em 2013, Pawlikowski retornou a sua terra natal e filmou Ida, que surpreendentemente se tornaria um dos filmes mais falados do ano seguinte e um dos favoritos ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

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Crítica: ‘O Jogo da Imitação’

Ano passado vi um ótimo filme da HBO feito para a televisão, The Normal Heart, que denunciava a proposital passividade do governo estadunidense, na administração Reagan, diante da epidemia de AIDS dos anos 80. À certa altura, o protagonista vivido por Mark Ruffalo, um gay “no armário”, antissocial e insolidário, tem um ataque de fúria diante da morte de tantos amigos, e lembrando homossexuais do passado que sofreram abusos e constrangimentos de uma homofobia normatizada até pouco tempo, o personagem dispara: “Foi um gay o responsável por vencer a II Guerra Mundial!”.

Àquela época não sabia quem havia sido Alan Turing (1912-1954), o “gay que venceu a II Guerra” a quem Mark se referia, mas meu lapso está escusado porque seu nome fora apagado da “história oficial” por cerca de cinquenta anos e só recentemente é que esse gênio histórico, um dos pioneiros das ciências da computação e peça fundamental na vitória dos Aliados sobre a Alemanha nazista, teve sua biografia revisada e seu lugar histórico merecidamente reconhecido. Leia mais

Crítica: Antes de Dormir

Filmes de gênero operam através de um contrato implícito com seu público, confirmando e subvertendo expectativas relacionadas ao gênero em questão. Muitas dessas convenções estão diretamente ligadas a implausibilidades características: monstros em filmes de terror ocasionalmente parecem ter a habilidade de teleportar-se por trás das câmeras; heróis em perigo são frequentemente beneficiados por uma montagem que estica artificialmente o tempo necessário para desarmar uma bomba ou escapar de uma armadilha; etc.

Tudo isso é fácil de aceitar e faz parte da experiência. O problema é quando personagens começam a agir de formas que não se assemelham ao comportamento humano. Uma narrativa convencional pode ter inúmeras coisas absurdas (e o que não falta são filmes absurdos), mas se as reações dos personagens a essas coisas são igualmente absurdas, a conexão é quebrada, a identificação se dissipa e as pessoas começam a se perguntar por que aquele cara está fazendo isso, quando seria muito mais simples fazer aquilo. Leia mais