Festa na usina nuclear (Rafael Sperling)

em 4 de Abril de 2012

A prosa curta é um campo amplo para a experimentação de escritores e pretensos escritores. É uma tarefa complicada condensar, em tão poucas linhas, ideias que façam do leitor refém. Não é por ser curta que será facilmente lida. Longe disso. O conto pode perder aquele que lê em uma sentença, quiçá em duas linhas. No que se refere a inventividade, Festa na usina nuclear, do carioca Rafael Sperling lançado pela editora Oito e Meio, cumpre seu papel com um louvor apreciável nos 25 contos presentes – um número bem grande para um exemplar de apenas 101 páginas – que misturam o nonsense e o bizarro para entregar de lambuja um guilty pleasure dos mais admiráveis nos últimos tempos.

O humor aqui aplicado destoa da elegância, ele não se importa em ser chulo ou de ser óbvio. Aliás, uns contos até parecem óbvios em demasia de propósito, evitando se apoiar em clichês infinitamente para dar uma reviravolta em uma história simplória. Outros são compostos apenas de diálogos – carregados de uma quase ficção. Sperling não se importa em jogar o óbvio, seja com uma piada infame ou com ações absurdas de um esfíncter anal – literalmente citados com seu nome popular amplamente conhecido em terras tupiniquins. Além desse vício pelo anal, o autor abusa de cenas violentas que, em grande parte, não me agradam por falta de uma descrição mais apurada. É mais complicado ter um cenário de violência onde mínimos detalhes são necessários para ilustrar ao leitor o horror, sangue e visceralidade do que ser escatológico e falar de necessidades fisiológicas.

Por se tratar de um experimento, como frisado anteriormente, os contos de Rafael Sperling parecem ter sido escritos numa tacada só, sem que esse voltasse a eles tempos depois para editar, revisar ou se preocupar com quem fosse atingir com suas breves prosas. É possível notar, por exemplo, que “júbilo” é uma palavra que o escritor adora, ou mesmo sua vontade de usar objetos inanimados com sentimentos, mas seguindo sempre uma linha de raciocínio evitando ousar mais do que deveria. “Amores e um século” é pedante e sonolento, tratando o amor como um ser amargurado e em crise existencial, sendo um dos contos mais sem graça junto a “A minha bigorna” e um pouco menos por “A minha puta”.

De maneira alguma estou dizendo que as falhas atrapalham a narrativa, até colaboram com a ausência de medo de abordar temas como pedofilia – aqui revirados e tortos com direito até uma bronca do autor em quem está julgando antes mesmo dele explicar os pormenores. E deve-se aplaudir a mente doentia de Sperling por nos presentear com personagens de nomes duvidosos, que certamente se nascidos no mundo real processariam seus pais por tamanho bullying involuntário. Imagine ter uma pai chamado Karício ou uma esposa chamada Clonérie.

Com ousadia, nonsense e muita dose de banalidade, Rafael Sperling faz sua estreia no mundo da literatura com o pé direito, nos próximos trabalhos ele deve trocar a audacidade por mais apuro e focar sua criatividade em uma voz, e no desenvolvimento maior de suas histórias que tem muito para conquistar futuros leitores.

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