1965, 1969 ou a desilusão à máquina de escrever

em 7 de Maio de 2015

Gosto muito da decadência. Não de um modo todo gótico de ser, como se fosse um performer que não entendeu bem o método de Marina Abramović. Não sou decadente. Talvez isso seja já ultrapassado. Deixemos o decadentismo para o século XIX. Quando falo de decadência, falo de duas coisas ao mesmo tempo: a decadência segundo aqueles que não se veem decaídos e a decadência segundo aqueles que se veem decaídos à revelia. Nada por premeditação, mas sim por constatação. É daqueles momentos em que podemos dar os nomes aos bois, ainda que cada um dê nomes diferentes para as mesmas coisas (ou bois). Nesses momentos, sempre surgem ótimas criações artísticas, mas nem sempre elas conseguem dar conta desses dois pontos de vista de decadência que coloquei aqui.

Dois exemplos de uma arte da desilusão, ou melhor, da decadência que acho que trazem em si os dois tipos a que me referi: O desafio (1965), de Paulo César Saraceni, e Détruire dit-elle (1969), de Marguerite Duras. Apenas exemplos, não provas definitivas de uma hipótese. São dois filmes, sendo um deles – o segundo – também um livro (talvez um romance?). Vou me concentrar apenas nos filmes para facilitar o processo. A grande continuidade entre eles, acredito eu, é que nem sempre os ideais políticos de uma geração parecem exercer uma força possível contra a decadência, mas isso é posto não exatamente de uma maneira ostensiva, impondo-se uma interpretação e uma resolução para o mundo. O dilema é posto, ou ainda, o desafio maior, se ficarmos com Saraceni.

Mais uma vez: não quero dar em uma teoria social grandiosa a partir disso. Nem quero me meter a ser um Nietzsche ou um Spengler. Só gosto de observar certas constâncias nos meios de o artista – no caso, o cineasta – trabalhar com um dilema que contradiz tudo aquilo em que ele acredita, mas não o faz apenas acreditar em uma outra perspectiva política. Por exemplo, em O desafio, filme feito em pleno período pós-golpe, mas ainda anterior ao AI-5 de Costa e Silva, vê-se a desilusão: o protagonista, Marcelo, se sente impotente pelo golpe diante de um “tempo sem sol”, como diz o refrão de uma das canções do filme. Insiste em afirmar a todo tempo que só quer a “transformação social”, ou a “transformação do mundo”, sem gritar por uma ou outra ideologia, mas não acredita mais no “otimismo leviano” de antes, assim como seu colega de jornal.

Vi O desafio recentemente, na retrospectiva do Cinema Novo promovida pela Cinemateca Brasileira. Para além de seu tempo, é um filme desesperado, que pede socorro, idealizado e executado por Saraceni às pressas, rodado com uma câmera na mão e pouco dinheiro, em apenas treze dias. É atemporal no sentido em que grita por mudança em um país que se vê estagnado por um golpe, como se corresse e desse com a cara numa parede, não tratando em especial do golpe de 1964. As personagens discutem muito, da primeira cena até perto da última. Discute-se sempre política, mas não por debates sobre pautas do momento, projetos de lei ou propostas partidárias. A política aí vai para além da pólis: fala-se sempre de motivos para se fazer algo, para seguir em frente, para se viver, enfim. As personagens não cansam de procurar se entender, mas só sentem a angústia em comum. Uns querem continuar como podem, ainda que nada faça muito sentido. Outros aceitam a derrota. Outros ainda apenas continuam gritando. Ao final do filme, nada mais se fala. Só vemos Marcelo diante do mundo, longe de todos que conhece, sem nada nas mãos.

Em Détruire dit-elle1, de Duras, desde o título (“Destruir, disse ela”) há uma iminência do desmantelamento de tudo e de nada ao mesmo tempo. O imperativo do título é um reflexo dessa sensação de peso ao longo do filme, de um sentimento de que não há forças para se caminhar. Trata-se, novamente, de um momento de desilusão, da juventude pós-68 que percebe que toda sua luta não conseguiu transformar o mundo. Toda a movimentação política articulada começa a se dissolver, e não há uma solução imediata para esse problema. Ao mesmo tempo, no campo político, os partidos liberais ganham mais força, e os socialistas não conseguem mais ver em Moscou seu projeto ideal em execução.

Em meio a isso tudo, Duras escreve um romance e um roteiro e assume a direção de um longa-metragem pela primeira vez, em um ímpeto só. Suas personagens, de certo modo, são reativas ao extremo ao cenário que se criou, porém não de uma maneira retroativa, com o desejo de retomar toda aquela luta de antes, mas sim com pura desilusão e, inclusive, desejo de destruir a si mesmas. Em relação a Marcelo, personagem de Saraceni, pode-se dizer que as figuras projetadas por Duras se veem diante do mundo não porque foram abandonados pelos outros, mas porque se isolaram deliberadamente. Todos estão em um hotel em repouso, longe de tudo, porém, ao se confrontarem, retomam todo aquele desejo de destruir o mundo para torná-lo vontade de destruir uns aos outros.

A princípio, poderíamos simplificar essa comparação rotulando Saraceni como “realista” e Duras como “pessimista”, seja lá o que esses termos signifiquem. No entanto, acho que estaríamos enganados. Ambos demonstram o sentimento de decadência moral e política que acomete aos seus; não somente a intelectualidade de seus países, como com frequência se fala dos dois filmes, mas também toda uma juventude que se mobilizou por seu próprio futuro e o dos outros. Em ambos os filmes, há uma incomunicabilidade tamanha que se percebe que nem entre os iguais – caso resumíssemos todos como “intelectuais” – há qualquer compreensão. O espaço para palavras, para diálogo não parece existir mais. O que se tem é uma incrível angústia por se comunicar a todo custo, mesmo sem esse espaço.

Apesar de tudo que declarei aqui, não acredito que Duras e Saraceni possam ser chamados de “decadentes”. Talvez estivessem apenas desesperados, como se pedissem a todos para não sumirem de sua volta, ainda que sem o conforto de uma proposta revolucionária. É inevitável fazermos paralelos com a nossa realidade, em especial a partir de O desafio, que ainda ecoa por vezes no cinema brasileiro mais recente, porém não saberia dar respostas, assim como não souberam fazer os dois diretores. Na verdade, o que realmente fica para nós é a dívida histórica com esse cinema, que conseguiu tão bem dar sentido a um contexto por um texto. Minha angústia é ver que esses filmes não deixam de significar algo mesmo em 2015.

  1. Caso seja interessante, fica uma dica um pouco egocêntrica para lerem um texto meu sobre esse filme e romance na Revista Sinuosa. Só aviso que deixei a tradução proposta de lado, mais por falta de perspectiva de o que fazer com ela mesmo.

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