Hey, Drugue!

em 1 de maio de 2008

“Laranja Mecânica” (A Clockwork Orange) é um dos raros casos onde o filme suplanta o livro que lhe originou. A adaptação do diretor Stanley Kubrick para o cinema, datada de 1971, não preza por ser das mais fiéis ao texto do autor, em contrapartida traz em si toda a essência de caos e violência urbana contida no romance. Na época das filmagens, Kubrick chegou a suprimir o último capítulo da trama, o que causou certo descontentamento dos leitores mais puritanos, mas isso longe de tornar a conclusão mais otimista, reafirma a condição de impossibilidade para uma futura convivência social de Alex.

A obra máxima de Anthony Burgess é comumente colocada lado a lado com “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell, formando uma trilogia que vislumbra o futuro da sociedade com um olhar pessimista, onde a violência e os governos totalitários se sobressaem. Os enredos foram inspirados em alguns casos pela situação política vivida na época pelos autores, em outros por reflexões quanto ao avanço científico sem ponderação, mas das três obras a que mais se aproxima da realidade que vivemos hoje continua sendo a criada por Burgess.

Apesar da história de Orwell ter descrito magistralmente o voyeurismo televisivo moderno, e de Huxley ter previsto o corre-corre tecnológico e um medo atual quanto à evolução exacerbada da tecnologia (isso no longínquo ano de 1931), é a distopia criada em “Laranja Mecânica” que esbarra na realidade atual das grandes metrópoles mundiais e forma um retrato anacrônico de uma civilização industrializada com enormes lapsos sociais.

O Nadsat

Uma das grandes sacadas de Burgess em seu livro foi a implementação de uma renovação lingüística para seu protagonista narrar a história. Influenciado grandemente pelo idioma russo após uma viagem para Leningrado, o autor juntou expressões de origem eslava com termos ingleses, originando assim as gírias do vocabulário nadsat, repleto de uma carga fonética que acrescenta uma tonalidade futurista e alienígena a história.

Com essa tática o livro ganha um caráter autêntico que causou grande estranhamento no leitor dos anos 60. A confusão se devia ao fato das edições não trazerem um glossário explicativo para palavras como drugui (amigo), horrorshow (ótimo, legal), smekar (rir) e tantas outras que aparecem no texto. Isto com certeza deixava o tomo ainda mais instigante e surpreendente. Outra coisa que surpreendia era a coragem de Burgess. Ele não permitia concessões a sua obra, mesmo a pedido dos editores, o que aumentava a possibilidade dos leitores desistirem após um ou dois capítulos devido a dificuldade de interpretação do nadsat.

A idéia inovadora da narrativa de “Laranja Mecânica” aproxima Burgess de escritores como William Burroughs, que fez de seus experimentos literários uma forma de subversão. A falta de vírgulas, pontos e as constantes aliterações do texto seguem a lógica porra-louca do personagem principal. Os dois andam juntos em uma sinergia fora do comum. Não contente em narrar em primeira pessoa a história, Alex dá forma narrativa, por vezes se refere a ele próprio como se estivesse falando de outra pessoa, com uma autocomiseração que chega a ser cômica e sua afiada ironia, mesmo nos momentos mais dramáticos, não perde o tom.

Ultraviolência Moderna

Se por um lado a forma do romance é inovadora, o enredo não fica atrás. O livro foi escrito em 1961, quando, ao retornar da Malásia, Anthony Burguess recebeu a notícia que teria menos de um ano de vida, por causa de um tumor maligno em seu cérebro. Com a intenção de escrever o maior número possível de livros e deixar sua mulher em uma boa condição financeira com os direitos autorais, ele se isolou em uma cidade no sul da Inglaterra e de lá saiu com cinco livros prontos e outro pela metade. A previsão médica não se realizou, Burgess morreu somente em 1993, com setenta e seis anos de idade.

Não se sabe ao certo quais seriam os cinco terminados, porém o inacabado era o romance “Laranja Mecânica”, ambientado em um futuro caótico e dominado por gangues de jovens. Alex, o narrador da história é um delinqüente juvenil cujo único propósito é praticar atos de violência e fazer sexo. A industrialização das cidades e o crescente desemprego em massa servem como pano de fundo para Burgess criar um ambiente compatível com os atos perversos de seu narrador-personagem.

Acompanhado de Pete, Georgie e Tosko, outros três amigos tão sociopatas quanto ele próprio, Alex (que no cinema ganhou o acréscimo “DeLarge” como sobrenome) narra a história como passava as noites divertindo-se com estupros, leite drogado e ultraviolência horrorshow, como gosta de chamar as brigas e crimes que se envolve. Para justificar suas ausências noturnas, mente para os pais que trabalha a noite e os trata de forma dominante, quase ameaçadora. Essa característica do protagonista também se apresenta no seu convívio social, sua gangue o obedece sem questionamentos, quando concebe os “planos” do grupo, até incomodarem-se com seu radicalismo e revolverem lhe dar uma lição, armando para que seja preso. Nesse momento arma-se o pano de fundo para que o autor exponha seu argumento.

Logo após a emboscada armada pelos ex-parceiros, Alex é preso e enviado a um presídio, onde é condenado a 14 anos de prisão. Decidido a sair da cadeia, candidata-se como cobaia em um experimento que visa transformar homens perversos em criaturas doces, que abominam a violência. O protagonista é submetido a uma lavagem cerebral, chamada “Técnica Ludovico”, tão cruel quanto os atos que praticava na rua.

Porém, a liberdade conquistada com muita dificuldade pelo narrador, é mais um tormento na vida do jovem Alex, que reencontra seus ex-comparsas em situações desfavoráveis. Mesmo não sendo um livro eminentemente político, Burgess faz uma ácida crítica aos métodos do sistema carcerário e ao capitalismo como um todo. Afinal, as gangues retratadas ali foram inspiradas nos grupos adolescentes que começavam a pipocar no começo dos anos 60 nas capitais industrializadas, como os mods e os rockers. Isso dá ao livro de Burgess um caráter futurológico e apocalíptico que, por incrível que pareça, se mantém atual. Um mundo em que as oportunidades sobram para poucos e para muitos simplesmente inexistem.

Comente esse artigo no Fórum Meia Palavra.

11 comentários para “Hey, Drugue!

  1. Não acho que o filme supera o livro, são ambos geniais nos rumos que tomam: Kubrick fala da violência, Burguess fala sobre crescer.

  2. Não acredito nisso. Acho que ambos falam sobre vilência, mas não num sentido urbano, do hoje, e sim numa concepção maior, sobre a desestruturação de conceitos básicos de convívio social, degradação humana, etc.

    Ambos também pegam um pocuo pelo lado do conflito do indivíduo com a sociedade e de como a sociedade o torna violento para depois o “castrá-lo”, mas isso é só uma coisa muito IMO.

    Acho que não me expressei bem no “suplantar”, não quis exatamente dizer “melhor de que” e sim, “mais representativo mundialmente que”, pela exposição e divulgação.

  3. Não descarto que o Burguess tenha também incluído a violência no plano do Laranja, mas o principal é o crescimento. As pessoas normalmente não conseguem enxergar isso porque a) leram o livro depois do filme ou b) leram o livro sabendo da “fama”, sobre a ultraviolência e blablabla (o que de certa forma está ligado ao item a).

    Mas a relação do crescimento do piá (desconectado da sociedade) para o adulto (parte da sociedade) é óbvio, inclusive através de algumas pistas que o Burguess deixa: A obra tem 21 capítulos (21 é a idade de maioridade plena na cultura anglo-americana), dividido em três partes de sete capítulos cada. Essa divisão é baseada no monólogo sobre as sete idades do homem na peça “As Thou Like it” de Shakespeare.

    No caso, o final do livro mostra o Alex como “crescido”, já o final do filme é irônico sobre a violência. Por isso insisto que cada um toma um caminho diferente (e ambos são geniais no caminho que tomam).

  4. Eu li algumas páginas, ano passado. Como me atrapalhei com a linguagem, acabei desistindo! =$ Mas depois desse artigo, vou reler! ^^

  5. Eu não li o livro e não assisti o filme, mas conheço toda a mitologia em torno do personagem e da história. Esse filme é quase como uma amiga do vizinho que de tanto ele falar vc acaba querendo conhecer. Estou esperando o momento certo para sermos apresentados.

  6. Na verdade, Laranja Mecânica é uma daquelas obras que dá medo de opinar… É tão complexa, tão cheia de detalhes e simbologias que me deixou de queixo caído… Esse lance da linguagem é muito interessante mesmo, no começo intriga e depois nos apropriamos inesperadamente dela… É tb uma violência erudita, contraponto o conceito que temos de selvageria, e isso é tão atraente quanto uma bomba instalada numa caixinha de música…

    Bem… Já disse… não tem como opiniar! É bom demais!!!!

  7. O atrativo maior do filme é mesmo a violência. As pessoas adoram personagens que ultrapassam os limites que gostariam. Aqueles que adquiriram uma liberdade própria para fazerem o que quiserem. É uma suma máxima sobre “o mundo é dos zombadores”, a liberdade só é conquistada através de uma forma de domínio, no caso Alex, a violência, porém ela se volta contra ele depois, ele não sabe dominá-la, não sabe domar a própria liberdade e depois é perseguido por ela (isso no filme, claro).

  8. Bem interessante o artigo,parabéns!!!
    Eu nunca li o livro, mas tenho a maior curiosidade ainda mais com esse vocabulário Nadsat que desperta o interesse/curiosidade…porém, imagino que ler sem os significados das palavras deve ser um pouco agoniante hehehehe…
    Eu assisti o filme, gostei muito, no entanto tem umas cenas bemmmm angustiantes =S

  9. Pingback: Se eu já vi o filme, por que eu deveria ler o livro? – Laranja Mecânica, de Anthony Burgess

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.