Quando eu era pequeno (sete ou oito anos) minha avó materna tinha uma mercearia e quando ela preparava o almoço eu tinha que ficar de guarda esperando algum freguês chegar. Num desses dias, de prontidão, deixei o rádio ligado e começou a tocar “Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)”, fiquei tão empolgado que deixei a música no último volume. A voz era de Tim Maia e esse foi meu primeiro contato com ele.

Quem não consegue se lembrar de Tim Maia pode muito bem, nos dias de hoje, procurar vídeos com entrevistas e apresentações do cantor. O jeito debochado está escancarado nos registros de vídeo, mas fora isso como contar a história de um cantor que já tinha muito de seus bastidores especulados e até confirmados pela mídia (como saídas no meio da apresentação ou cancelamentos de show)?

Nelson Motta, compositor, jornalista e produtor musical, torna-se personagem no livro “Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia” para contar as peripécias de Sebastião Rodrigues Maia, nascido em 28 de Setembro de 1942 na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Com 17 anos Tim iria aos EUA sustentado por uma mentira tão bem contada que até ele acreditou. Por sorte foi acolhido por uma família e conseguiu conhecer a cultura musical americana, mas foi deportado por problemas com drogas.

Como grande parte das histórias de ‘rock star’, as drogas aparecem como coadjuvante, apesar de muitas vezes elas não serem as causas para o cancelamento de um show – eles eram cancelados pela simples razão do som não estar adequado aos ouvidos de Tim (tanto que, para seus filhos, Tim era o verdadeiro terror quando tentavam aprender música em casa: ouvia-se do banheiro um grito abafado: “Violão tá desafinado”). Elas também proporcionam narrativas hilárias, como a vez em que Tim fumou maconha na central de ar condicionado, o que causou um aroma diferente na gravadora. E até escapatórias inusitadas da policia quando visitavam seu camarim e o resto dos músicos tinham de ouvir a famosa reclamação de que o bagulho bom foi por água abaixo.

Fora o uso abusivo de álcool (de duas a três garrafas de uísque por dia) e drogas (cocaína e maconha), Tim também tinha problemas judiciais e diversos processos trabalhistas para arcar. Seus maiores inimigos eram Boni, executivo da Rede Globo, e a ETA (“Exploradores do Talento Alheios”) formados por donos de gravadoras e de casas de show.

Carismático, Tim Maia sempre conseguiu parcerias de peso como Roberto Carlos (na banda “The Sputniks”), gravação de álbum com Elis Regina (“These are the songs”), indicação da banda “Os Mutantes” para a gravadora de seu primeiro álbum e virou sindico do Brasil na música de Jorge Ben Jor. Outro triunfo desse carisma é o cantor ser chamado pelo governador Chagas Freitas para tocar em sua casa, que ficava na rua debaixo da casa de Tim.

O livro é curto e traz tantas histórias, repletas de falas de Tim transcritas; com gírias, palavrões e carregadas de ironias (montando um personagem divertido e controverso). Para quem ainda tem dúvida se quer ou não conhecer Tim Maia, pode entrar no site oficial e fazer download dos 4 primeiros capítulos do livro, conferir galeria, histórias de outros personagens fora do livro (como Aécio Neves) e ouvir as músicas do cantor.

MOTTA. Nelson. Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia. Rio de Janeiro: Editora: Objetiva, 2007. 385 págs. Preço sugerido: R$ 49,90.

Comente esse post no Fórum Meia Palavra