Jack Kerouac: king of the beats (Barry Miles)

em 9 de agosto de 2012

Informações

  • Autor: Barry Miles
  • Tradutor: Roberto Maggiati, Cláudio Figueiredo e Beatriz Horta
  • Editora: José Olympo
  • Páginas: 420
  • Ano de Lançamento: 2012
  • Preço Sugerido: R$49,00

Na capa, uma fotografia em preto e branco, a mesma que está presente, invertida, do lado oposto do livro. Um carro rodando sobre uma estrada iluminada, delimitada por imensas margens, oceanos negros. Se você gira o livro nas mãos – partindo da capa, passando pelo miolo em papel pólen e chegando, por fim, à quarta capa –, percebe que as 420 páginas do volume conectam as duas estradas simetricamente dispostas, o que serve de metáfora visual ao que toda biografia que se preze almeja: unir as duas pontas de uma vida, tal como diz o narrador de Dom Casmurro, a vida de seu sujeito.

Jack Kerouac. Seu nome: estampado em letras amarelas, garrafais e que se assemelham à fonte típica de uma máquina de escrever. Sua alcunha, “king of the beats”, em azul, leva a pensar se a manutenção do título nobiliárquico em inglês deve-se à possível boa fama internacional da obra. “Uma biografia de Barry Miles”, em vermelho, aponta que o nome do autor do livro é um de seus grandes atrativos, o que se confirma após uma breve pesquisa: Miles viveu intensamente as décadas de que fala em suas obras e já escreveu biografias de Paul McCartney, William Burroughs, Frank Zappa, Charles Bukowski e Allen Ginsberg.

Quando, ainda no prefácio, se lê o trecho a seguir, pressente-se que o biógrafo não se preocupou tanto com o enaltecimento desmedido de um mito quanto a com dar a conhecer dados e fatos da vida de Jack Kerouac. Ainda que se reconheça que esse deveria ser objetivo de toda boa biografia, o fato é que nem sempre seus autores – ou as razões editoriais que levam uma biografia a ser publicada – são imparciais.

[…]Kerouac tornou-se ícone cultural ao lado dos jovens Marlon Brando, Elvis e James Dean.
Kerouac gerou pessoas como John Lennon. É sempre bom para a carreira morrer cedo. No caso de Lennon, ninguém pode criticar ou arranhar com seriedade sua imagem como o Príncipe da Paz e líder e expoente da vanguarda, conforme o crítico Albert Goldman constatou quando sua biografia cuidadosamente pesquisada foi descartada como ato de difamação de um morto. Na verdade, o culto a Kerouac tem muito em comum com o culto a John Lennon, sendo Kerouac uma figura muito anterior da década de 1960, e Lennon, o símbolo da de 1960. Ambos foram encarados pelo público como líderes de seu grupo, ambos morreram jovens, mas já depois do auge de sua criatividade, e ambos se tornaram objetos de mitomania, uma tela sobre a qual a juventude exteriorizava os próprios desejos e fantasias, dando pouca importância aos fatos da vida real de seus heróis.

Toda uma aura foi construída ao redor da Geração Beat, aura que nem sempre dialoga adequadamente com a realidade, com as vidas não literárias dos envolvidos com o movimento. Para os empolgados com o hype gerado pelo filme mais recente de Walter Salles, Na estrada, ou com a leitura de algumas das obras de Kerouac, como o próprio On the road, ler os fatos compilados e ordenados historicamente por Miles pode gerar alguma decepção.

Isso porque as pessoas costumam confundir: o movimento beat – precursor, por exemplo, duma maior liberdade sexual – com o movimento hippie; Kerouac (uma força centrípeta) com Ginsberg (uma força centrífuga); e, até mesmo, Kerouac com Dean Moriarty, o personagem que é a força motriz de sua obra mais famosa – ainda que ele nunca tenha deixado de explicitar que Dean era baseado em Neal Cassady, enquanto ele mesmo era apenas o narrador; um Sal meio sem sal; aquele que tudo observa. E as coisas não poderiam ser mais diferentes.

“Um verdadeiro escritor deveria ser um observador, e não sair por aí sendo observado. Observar – esse é o dever e o juramento de um escritor”, disse Jack a Al Aronowitz no New York Post.

O livro conta a trajetória do “garoto-memória”, o mesmo “que queria escrever um romance, uma peça, um livro de contos, um roteiro de rádio e ‘pelo menos uma frase imortal’”, passando pela fama até chegar a um final de vida decepcionante. Como um anjo se torna um babaca? Como um nome que representou tanto para diversas gerações morre distante dos amigos e da filha, depois de deliberadamente afastá-los? Como o “rei dos beatniks” (e não é sem ironia que a expressão é citada no décimo capítulo) morre, obeso e espalhafatoso, com uma mente tacanha e interiorana?

Como o cara que consegue terminar Big Sur com frases tão lindas e anódinas (“Algum bem sairá de todas as coisas e será dourado e eterno, simplesmente. Não é preciso dizer mais nada.”), consegue ser autodestrutivo ao ponto de levar um dos maiores porra-loucas que a Geração Beat viu a se afastar dele por não aguentar vê-lo assim?

[…] Neal [Cassady] via esse comportamento autodestrutivo em si mesmo e detestava ver Jack acabar do mesmo jeito.
Neal também detestava bebida porque o pai fora alcóolatra e ele viver cercado de bêbados. Carolyn: “Neal ficou sem falar com Jack durante muito tempo porque era doloroso vê-lo se destruir com a bebida. Parou de falar, mas nunca deixou de gostar dele, os dois foram amigos a vida inteira.”

É triste, mas é real. Tudo isso foi transcrito, após acuradas e longas pesquisas, em Jack Kerouac: king of the beats. Barry Miles cumpriu sua missão e não dourou a pílula para o leitor que queria um herói, um protagonista de um romance do próprio Kerouac.

E, dessa forma, produziu uma biografia marcante e intensa.

Allen Ginsberg: “Assim, ele bebeu até morrer. Que é apenas mais um jeito de viver, ou de lidar com a dor e a inutilidade de saber que tudo não passa de sonho e de um grande e desconcertante e bobo vazio.”

Título Original: Jack Kerouac: King of the beats
Autor: Barry Miles
Tradutores: Roberto Muggiati, Cláudio Figueiredo e Beatriz Horta
Páginas: 420
Editora: José Olympio
Preço sugerido: R$ 49,00

8 comentários para “Jack Kerouac: king of the beats (Barry Miles)

  1. Então é boa mesmo? É a sua primeira biografia sobre o K?
    Meu sonho é ler Memory Babe do Nicosia, mas cadê que acho?
    E como sei (quase) muito sobre o que contam do K, fico com medo de achar fraquinha 🙁

    • Nathália, ano passado fiz alguns trabalhos sobre a Geração Beat que foram, em geral, focados na poesia de Allen Ginsberg. Li a introdução de Uivo, escrita pelo Claudio Willer, o Geração Beat, do mesmo autor, a hq Os Beats, o O que é geração beat, de André Bueno e Fred Góes, e Os hipopótamos foram cozidos em seus tanques, que é basicamente a história da morte de Kammerer por Lucien Carr em forma de romance.

      Mas, sim, é a minha primeira biografia do Kerouac. E, por enquanto, acho que será a única que lerei. (A não ser por aquela em quadrinhos, que pretendo dar uma lida quando passar numa livraria.)

      Eu já sabia de muita coisa, mas ela me pareceu realmente MUITO completa. Organizada (testei o índice remissivo em alguns termos e encontrei os tópicos certinho), dividida historicamente e por temas aglutinadores, além de convenientemente relembrar alguns fatos já expostos anteriormente em capítulos diferentes (o que facilita uma pesquisa mais, digamos, enciclopédica: você pode resolver ler apenas sobre os anos de fama do escritor, em virtude de um trabalho, sei lá, e ter alguma informação resgatada nesse capítulo específico, entende?).

      Pelo que li na Amazon (e na recomendação de Claudio Willer em Uivo), Memory Babe deve ser tão extensa quanto essa obra do Barry Miles, com a vantagem de apresentar documentos e fotos de época, algo de que talvez eu tenha sentido falta no livro que resenhei. Parece-me, pelas resenhas, algo voltado a fazer o leitor se voltar aos livros de Kerouac (há um quê de crítica literária), enquanto Miles, no pouco que fala especificamente das obras, mostra que há coisas muito boas enquanto há outras que são fracassos inequívocos.

      Claudio Willer, sobre a biografia de Miles sobre Ginsberg, diz que “é um trabalho desse colaborador de Ginsberg, que, nem por isso, deixou de lado a isenção e senso crítico, produzindo um livro substancioso, muito além da mera louvação, da apologia por um amigo e admirador.” Acho que tais palavras cabem para a bio do Kerouac, também.

      (Desculpe-me se me estendi demais no comentário. Empolguei-me. ^^)

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