macario

“Vinte anos. Mas meu peito tem batido nesses vinte anos tantas vezes como o de um outro homem em quarenta.”Álvares de Azevedo falando através de Macário.

Tenho um curioso receio de escrever sobre certos livros. Na verdade, tanto escrever como comentá-los. Algumas obras acabam sendo tão especiais que você não se sente à altura de conversar sobre elas. Mencioná-las numa conversa casual então pode acabar parecendo profanação.

Tudo isso só serve como introdução para tentar falar de Macário, um dos filhos da maior promessa das letras brasileiras. Jovem, Macário já está entre os perdidos, assolado pela descrença, pelo tédio e imerso no spleen (reflexo do Mal do Século). Essas são as principais características do personagem homônimo do livro, atributos que terminam por chamar a atenção de um sujeito bastante singular: o próprio Satã.

Poucos autores conseguem falar diretamente à alma dos que os lêem. Manuel Antônio Álvares de Azevedo é um desses grandes. Fico impressionado com a profundidade dos diálogos que podemos encontrar em qualquer uma de suas obras, algo quase tão assombroso quanto a idade do autor. A conversa entre Macário e Satã acerca da verdadeira essência da virgindade é memorável:

Satan – Tens razão: a virgindade é uma ilusão! Qual é mais virgem, aquela que é deflorada dormindo, ou a freira que ardente de lágrimas e desejos se revolve no seu catre, rompendo com as mãos sua roupa de morte, lendo algum romance impuro?

Macário – Tens razão: a virgindade da alma pode existir numa prostituta, e não existir numa virgem de corpo. — Há flores sem perfume, e perfume sem flores. Mas eu não sou como os outros. Acho que uma taça vazia pouco vale, mas não beberia o melhor vinho numa xícara de barro.”

Ou então aquela a respeito da natureza da vida:

Macário – É uma coisa singular esta vida. Sabes que às vezes eu quereria ser uma daquelas estrelas para ver de camarote essa Comédia que se chama o Universo? Essa Comédia onde tudo que há mais estúpido é o homem que se crê um espertalhão? Vês aquele boi que rumina ali deitado sonolento na relva? Talvez seja um filósofo profundo que se ri de nós. A filosofia humana é uma vaidade. Eis aí, nós vivemos lado a lado, o homem dorme noite a noite com uma mulher: bebe, come, ama com ela, conhece todos os sinais de seu corpo, todos os contornos de suas formas, sabe todos os ais que ela murmura nas agonias do amor, todos os sonhos de pureza que ela sonha de noite e todas as palavras obscenas que lhe escapam de dia. . . Pois bem — a esse homem que deitou-se mancebo com essa mulher ainda virgem, que a viu em todas as fases, em todos os seus crepúsculos, e acordou um dia com ela ambos velhos e impotentes, a esse homem, perguntai-lhe o que é essa mulher, ele não sa berá dizê-lo! Ter volvido e revolvido um livro a ponto de manchar-lhe e romper-lhe as folhas, e não entendê-lo! Eis o que é a filosofia do homem! Há cinco mil anos que ele se abisma em si, e pergunta-se quem é, donde veio, onde vai, e o que tem mais juízo é aquele que moribundo crê que ignora!

Satan – Eis o que é profundamente verdade! Perguntai ao libertino que venceu o orgulho de cem virgens e que passou outras tantas noites no leito de cem devassas, perguntai a D. Juan, Hamlet ou ao Faust o que é a mulher, e nenhum o saberá dizer. E isso que te digo não é romantismo. Amanhã numa taverna poderás achar Romeu com a criada da estalagem, verás D. Juan com Julietas, Hamlet ou Faust sob a casaca de um dandy. É que esses tipos são velhos e eternos como o sol. E a humanidade que os estuda desde os primeiros tempos ainda não entende esses míseros, cuja desgraça é não entender e o sábio que os vê a seu lado deixa esse estudo para pensar nas estrelas; o médico, que talvez foi moço de coração e amou e creu, e desesperou e descreu, ri-se das doenças da alma e só vê a nostalgia na ruptura de um vaso, o amor concentrado quando se materializa numa tísica. Se Antony ainda vive e deu-se à medicina é capaz de receitar uma dose de jalapa para uma dor íntima; um cautério para uma dor de coração!”

Macário é um drama inacabado, inspirado na lenda germânica de Fausto. Maneco – apelido carinhoso com o qual os mais próximos tratavam Álvares – era grande fã de Goethe. Em seus personagens encontramos o conflito entre pureza e a devassidão. Entre o idealismo fatídico de Penseroso e a descrença quase completa de Macário. Todos, na verdade, representando várias facetas de um mesmo homem.

Álvares morreu aos 20 anos. Prodígio nas artes, nas línguas e nas ciências, aos 20 anos um garoto com alma ancestral conseguiu produzir e absorver mais do que a maioria de nós conseguimos durante toda a vida. Lembro o quanto eu costumava ficar ansioso com cada novo aniversário meu. Era um ano a mesmo na diferença de idade com Álvares. E quando eu estivesse velho, como poderia admirar alguém tão mais novo? Hoje, com a mesma idade que ele tinha quando faleceu, entendo que isso não importa, isso não se aplica a ele. Álvares é uma daquelas exceções. Daquelas para as quais o mundo não satisfaz. Talvez seja por isso, afinal, que algumas vezes elas nos deixem tão cedo.

Esse artigo é uma colaboração de Raphael L. Piaia.