Papéis Inesperados (Julio Cortázar)

em 23 de julho de 2010

Informações

  • Autor: Julio Cortázar
  • Tradutor:
  • Editora: Civilização Brasileira
  • Páginas:
  • Ano de Lançamento: 2010
  • Preço Sugerido:

Julio Cortázar há tempos figura na minha mente como um dos meus escritores favoritos. E como eu sempre gosto de salientar, quando resenho, é que escrever sobre algo que mexe com seu gosto pessoal, que está em um pedestal e na sua mente é quase sem mácula, se torna uma tarefa árdua, afinal como passar para as pessoas o que aquele livro, autor, personagem tem de tão especial.

Essa edição de textos póstumos, guardados num móvel na casa do autor em Paris, contém todos os apêndices, as críticas, diários e auto-entrevistas. Em Papéis Inesperados somos convidados a conhecer a figura do escritor argentino já tão discutida, mas de forma íntima, mostrando o seu lado de admirador do mundo, da política e das artes.

O livro é dividido em Histórias, Histórias de Cronópios, Do Livro de Manuel, De um tal Lucas, Momentos, Circunstâncias, Dos Amigos, Outros Territórios, Fundos de Gaveta, Entrevistas Diante do Espelho e Poemas. A partir de um prólogo de Carles Álvarez Garriga relatando como encontrou os textos e como decidiu organizá-los junto à viúva do escritor, Aurora Bernádez.

Aos iniciados na obra do autor, é fácil achar um atalho no amontoado de textos e descobrir quais gostariam de ler primeiro, como capítulos excluídos De um tal Lucas ou de O Livro de Manuel. Cortázar cita que excluiu um capítulo importante, ao qual chamava de chave, de O Jogo da Amarelinha por considerar uma abertura e ao mesmo tempo um fechamento da obra, o que daria outro sentido ao que ele se propunha ao escrever. Fato curioso também é sua contemplação com os jovens fãs da obra, pois ao analisar o antirromance a perspectiva era de um texto escrito para pessoas mais velhas, acima dos 40 anos, mas com dez anos de lançamento alcançará fiéis seguidores e admiradores da mais tenra idade.

Desviei do caminho conhecido e parti para as Entrevistas Diante de um Espelho e encontrei os alter-egos de Cortázar discutindo a veracidade e os escapismos do realismo fantástico. Partindo de uma conversa de bar, os dois discutem o quão necessário é usar os aforismos fora da realidade para concluir uma obra, citando entre outros exemplos, Cem Anos de Solidão, de García Márquez.

Em seguida, quis conhecer o que o escritor tinha a dizer no capítulo Dos Amigos, nesse em especial ele cita suas amizades pelo mundo e suas viagens, aqui sua admiração pelas culturas e pelas línguas transpõe um olhar apaixonado por novidades, velharias e o que mais há de ordinário. Em Para Uma Imagem De Cley, ele cita doces brasileiros, Como Dois e Dois em um portunhol abusado e fala das vozes de Gal e Chico Buarque. Mesmo contando o entusiasmo ao ouvir a MPB, ele descreve em uma prosa verídica como era bom conversar com um parisiense que considerava Carlos Gardel um gênio para na seqüência presentear o dono da loja de vinis com Susana Rinaldi.

Mas se a mudança pode surpreender aqueles que continuam fiéis às origens de qualquer forma de arte (apoiados na moda retrô que arremeda deliberadamente os ares 1920-1940), basta escutar Susana Rinaldi para descobrir que o essencial permanece invariável e que o próprio Gardel, morto há mais de quarenta anos, seria o primeiro a admirar a maior cantora de tango do nosso tempo.

E se Em Matilde, Cortázar mostra seu talento único para descrever ações do dia a dia de maneira extraordinária; objetos inanimados que ganham vida através da passividade da personagem principal, no último capítulo Poemas encontramos poesias românticas e outras falando de lagartixas. Selecionei como favorito O que eu gosto do teu corpo, que cita a paixão do argentino pela palavra:

O que eu gosto do teu corpo é o sexo.
O que eu gosto do teu sexo é a boca.
O que eu gosto da tua boca é a língua.
O que eu gosto da tua língua é a palavra.

Destrinchar cada capítulo parece uma inesperada coincidência, entre discursos políticos, fantasiosos e textos soltos, reconhecemos a faceta familiar do autor, aquele que esteve impregnado em todos os seus contos, prosa e poemas, do ar crítico ao da veneração.

Papéis Inesperados foi publicado no momento certo, por parecer uma despedida, como uma carta que após a leitura desperta a nostalgia dos fãs que esperavam um adeus digno, cheio de palavras e invenções, e longe, bem longe, do silêncio.

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