David Lloyd fala sobre V de Vingança e Kickback, exclusivo!

em 25 de outubro de 2010

David Lloyd é roteirista e desenhista de histórias em quadrinhos, ele é conhecido pela graphic novel V de Vingança escrita junto a Alan Moore e publicada entre 1982 e 1988. Esteve no Brasil para divulgar seu último trabalho: Kickback (lançada no Brasil pela HQM). A história é um drama policial em estilo noir, onde o protagonista, Joe Canelli, é um tira corrupto, membro de uma força policial corrupta, na cidade fictícia de Franklin City, uma metrópole dominada por chefões do tráfico de drogas. Após sua passagem pela Fest Comix, Lloyd topou responder 10 perguntas e meia.

1. Na sua opinião, HQ é literatura?

Literatura é definida no dicionário como relacionada principalmente com texto – beleza da linguagem, etc. – então apenas o texto está em questão se o termo for usado para descrever arte sequencial. Acho que, na falta de um termo reconhecido que descreva completamente as histórias em quadrinhos, devemos chamá-las de uma mistura de literatura e arte – e essa é uma descrição precisa.

 

2. Qual versão de V de Vingança você prefere: p&b ou colorida?

Não dá para comparar. Elas se prestam a coisas diferentes por razões diferentes. Uma representa os meios mínimos de se representar a forma, e a outra acrescenta ambientes e atmosferas variadas e um passo a mais na tentativa de imitar os efeitos da realidade. O preto e branco era a nossa única opção para a primeira publicação, não uma escolha. Se eu tivesse a disponibilidade de cor na época, eu a teria usado. A opção de cor na versão da DC foi uma escolha. Me perguntaram na época se eu queria que ela fosse reimpressa e continuasse em preto e branco, e eu disse que não queria, pois eu sabia que ela teria um alcance maior de público em cores e a mensagem da hq seria recebida por mais pessoas se estivesse colorida. A qualidade da impressão daquelas cores no início foi um problema pra mim, então, se você está me perguntando sobre preferências, bem, eu preferiria que as cores tivessem sido melhor impressas desde o início.

3. Na sua opinião, qual é o seu melhor trabalho?

Eu fiz várias coisas em vários estilos por diversas razões – não posso comparar War Stories a uma história de duas páginas sobre a vida de Charlie Chaplin. O “melhor” em categorias separadas seria mais fácil de responder, mas isso também levaria muito tempo, considerando a quantidade de coisas que eu já fiz… O trabalho que mais gostei de fazer em toda a minha carreira foi Kickback, pois foi uma criação inteiramente minha e eu tinha total controle sobre ela e pude me expressar de maneira completa nela dentro dos limites da história que eu queria contar – o que é sempre a ambição de qualquer artista. [V de] Vingança foi uma experiência incrível durante muitos anos e fez a minha reputação nesse meio e é um trabalho significativo e importante, do qual tenho muito orgulho. É uma das melhores coisas que já fiz, sem dúvida.

4. Você prefere escrever ou desenhar?

Prefiro fazer os dois ao mesmo tempo, misturando as duas coisas da maneira mais perfeita que eu conseguir, para produzir o efeito desejado que eu preciso com as ferramentas do meio em que gosto de trabalhar.

5. Seu novo trabalho, Kickback, fala sobre corrupção. Partindo desse ponto, podemos dizer que você se preocupa tanto com a política presente quanto a do futuro? Qual sua visão política exatamente?

Ah, acredito que a política de uma sociedade comum é mais importante do que a dos partidos políticos, que meramente oferecem representação àqueles que lhes permitem terem poder. O meu interesse na corrupção não é sobre a corrupção rotineira dos nossos líderes que cansamos de aceitar, mas a nossa própria, por sermos facilmente tentados. Poucos de nós são tão honestos quanto deveríamos ser. Muitos de nós ficam felizes em cometer crimes que consideramos pequenos, como não declarar ou não pagar impostos, ou ser infiel em uma relação, ou votar em um candidato que sabemos ser a escolha menos honesta porque ele vai colocar mais algum dinheiro no nosso bolso. Ah, temos todas as desculpas para justificar as nossas ações: todo mundo faz isso, então por que não eu; tenho contas para pagar e preciso de toda ajuda que puder; tenho uma família para alimentar. Porém, todos os nossos pequenos crimes tornam-se o grande crime de produzir uma sociedade que é um pouco corrupta. E uma sociedade que é um pouco corrupta pode levar a uma que é muito corrupta. E é assim que acabamos ficando com os líderes que merecemos. Infelizmente.

6. O que você acha das adaptações dos quadrinhos no cinema? Kickback teria um potencial para ser adaptado?

Sem dúvida – respondendo a segunda pergunta. Mas uma adaptação cinematográfica pode ser boa ou ruim, dependendo de quantas mudanças são consideradas necessárias com relação ao original para atrair um público mais diversificado que se espera que um filme atraia, e quantas são feitas pelas mentes criativas envolvidas na adaptação, que podem querer acrescentar algo ao original em vez de serem meramente os canais para a transferência da obra para a tela.

7. O que você acha das adaptações de clássicos da literatura para HQ? Se pudesse adaptar um, qual seria?

Eu poderia adaptar Admirável Mundo Novo, e já flertei com a ideia. Acho que a maioria das pessoas que ouviu falar do livro e não o leu tem a ideia de que ele é um pouco antiquado e pessimista – mas é longe disso. Porém, seria uma grande empreitada e eu não tenho certeza se iria querer passar tanto tempo em uma adaptação.

8. Atualmente, quem são os melhores quadrinistas do mundo? Você acompanha algum talento brasileiro?

Eu realmente não vi o suficiente dos talentos mundiais para fazer um julgamento desses e, se eu tivesse visto, tenho certeza que seria difícil de fazer sem qualificações e categorizações de todos os tipos. Essa palavra, “melhor”, não é boa para medir qualquer coisa em um meio que tem muitas formas e estilos e que fala a tantos públicos diferentes. O Brasil possui alguns grandes criadores, que já mencionei em outra entrevista: Wellington Srbek, Eloar Guazzelli, Daniel Gallena e Rafael Coutinho. E, é claro, Gabe Bá e Fábio Moon. Recebi mais trabalhos de vários artistas em São Paulo na semana passada – e comprei um monte de quadrinhos independentes no evento –, mas ainda preciso dar uma olhada em todos eles. Ando ocupado demais mantendo o trabalho em dia!

9. O seu trabalho parece bem cinematográfico. Você segue essa linguagem quando cria?

Sim, é um elemento-chave. A continuidade cinematográfica é uma ferramenta valiosa na arte sequencial. E admiro o trabalho de grandes diretores visuais, como Hitchcock e Welles.

10. Com quem você gostaria de colaborar e trabalhar?

No momento apenas comigo, de preferência, em qualquer coisa que seja longa, mas tive a sorte de trabalhar com muitos grandes escritores e ainda fico feliz em colaborar em histórias curtas.

10 e 1/2. “Todo mundo tem sua história para contar…” (complete essa frase de V de Vingança)

… uma de me esforçar para conseguir o que eu quero da vida e ser bem-sucedido apenas em parte – que é a mesma de muita gente, imagino!

Tradução: Gabriel Oliva Brum

 

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